Ídolo nos anos 1980 (e eterno nas rádios de flashback), Bryan Adams prega: 'Não siga as redes sociais. Siga a música'
Um dos maiores vendedores de discos do mundo (na época em que, de fato, se vendiam discos), o canadense Bryan Adams é presença constante num meio que já desfrutou de muitas glórias no mundo da música popular: as rádios.
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“Straight from the heart”, “Heaven”, “Somebody”, “Summer of ‘69”, “Run to you”, “Everything I do (I do it for you)” (da trilha do filme “Robin Hood — O príncipe dos ladrões”), “Please forgive me”, “Have you ever really loved a woman” (do filme “Don Juan DeMarco”)... muitos são os hits, desses que até hoje tocam na FMs especializadas em flashback, na voz deste artista que volta ao Brasil este mês, em carne e osso, para uma série de shows.
Em entrevista ao GLOBO via Zoom, Adams reconhece que suas músicas — algumas delas, rocks mais agitados; mas, a maior parte, baladas românticas —ajudaram a fixar as memórias de muitas pessoas ao longo do mundo. E mais do que isso.
— (Elas trouxeram) beijos! Muitos beijos — acrescenta ele. — Se você pudesse trazer um pouco de amor ao mundo, o que poderia ser melhor do que isso?
O eterno romântico tem uma maratona para cumprir no Brasil: sexta-feira ele se apresenta no Rio (no Qualistage); sábado, na capital paulista (na Vibra São Paulo); domingo, em Curitiba (no Live Curitiba); e dia 11 em Porto Alegre (no Auditório Araújo Vianna).
Energia não lhe falta. Aos 66 anos de idade, Bryan Adams é um garoto. E diz entender bem os jovens que têm se encantado com a música pop, assim como os pais desses jovens se encantaram com as suas músicas e a de outros astros da época.
— Acho que é a mesma coisa de sempre. Tem a ver com os amigos, sabe? Quando você está na escola e seus amigos ouvem alguma coisa e dizem: “Ei, você já ouviu isso? Já ouviu aquilo?” É assim que você fica sabendo sobre música. Foi assim que eu fiquei sabendo quando estava começando — conta o cantor da canção (que, por sinal, deu título ao seu álbum de 1996) “18 til I die” (“18 anos até morrer”), aquela dos versos “não é a sua aparência que importa, mas sim o que você sente por dentro”.
‘Você não pode mudar o passado’
O cantor (que em 2018 deu uma sacudida na carreira ao investir no teatro musical, coescrevendo as canções de “Pretty Woman: the musical”) garante não ser o tipo de pessoa que gasta muito tempo refletindo sobre o passado.
— Sou muito mais focado no presente e no que vai acontecer amanhã. E acho que, nisso, sou muito parecido com a minha mãe. Ela tem 98 anos e não se importa com o que aconteceu ontem, só com o que está acontecendo hoje — comenta. — E é muito interessante poder ser assim. Acho que isso te dá uma certa liberdade, porque você não pode mudar o passado.
No Brasil, ele promete tocar “todas as músicas que as pessoas conhecem e adoram, algumas músicas do ‘Roll with the punches’ (álbum de inéditas, que lançou em 2025 e que dá nome à atual turnê) e talvez algumas surpresas, se vocês tiverem sorte”.
— Vai ser uma noite incrível — propagandeia ele, que, depois de décadas em grandes gravadoras lançou o último disco por seu próprio selo, Bad Records. — Estou adorando ser um artista independente. É claro que ninguém mais compra discos como antigamente, mas não importa. Para mim, o importante é criar algo interessante e artístico. Como qualquer fã de vinil, tenho certeza de que você passou muito tempo olhando as capas dos álbuns, as fotos e os créditos, não? Essa é uma das coisas que perdemos na era digital: a curiosidade de interagir com o produto de uma forma técnica e tátil. Podemos pegá-lo, abri-lo, olhar, sentir o cheiro...
Adams, que quando adolescente viu shows do Led Zeppelin e, muito jovem, viveu o auge da indústria do disco, não se deixa tomar pelo saudosismo.
— Sou grato porque acredito que a internet abriu as portas para muitas pessoas ao redor do mundo que não tinham acesso às músicas. Hoje, cada vez mais pessoas têm acesso à internet, a computadores, têm celulares, estão ouvindo música em streaming o tempo todo — enumera. — É um bom momento para a música, para os artistas. E se você surfar nessa onda e lançar uma boa música, ótimo.
O cantor diz que, na sua idade e nesse ponto da carreira, ser independente é o que mais o empolga, “porque não tenho mais expectativas”.
— Sei que nunca mais terei um hit, mas não importa. Nunca pensei que teria um, pelo menos não no começo da carreira. Simplesmente aconteceu. Eu entrei na indústria, a gravadora fez o trabalho, a música pegou fogo, consegui alguns filmes muito bons e tudo deu certo — conta. — Manter-se fiel a si mesmo é a coisa mais importante. Não siga tendências. Não siga redes sociais, não siga o próximo aplicativo. Siga a música. Siga a letra. Siga o espírito daquilo que te define por dentro.
Adams faz shows no Brasil desde 2007 (nos anos 1990, veio algumas vezes para fazer promoção). Ele lembra bem dos “cafezinhos”, palavra que tem na ponta da língua.
— Preciso demitir meu agente por me ter feito esperar tanto tempo para chegar aí. A última vez foi em 2019 — brinca. — Hoje, você pode olhar suas redes sociais e ver as pessoas escrevendo: “Por que não vem para o Brasil?” Colocam bandeiras do Brasil em todos os comentários. O.k., estamos chegando!
Em sua atividade paralela (por sinal, muito prestigiada) de fotógrafo, Bryan Adams fez retratos de muitas celebridades. Entre elas, a inglesa Amy Winehouse, nascida em 1983, quando ele começava sua escalada pelas paradas de sucessos do mundo, e tragicamente falecida em 2011, de intoxicação alcoólica. Naquele ano, uma foto de Amy feita por Adams foi parar na capa do disco póstumo da cantora “Amy Winehouse Lioness: hidden treasures”.
Artista que gravou um célebre dueto com Tina Turner (“It’s only love”, do álbum “Reckless”, de 1984), hoje em dia Adams faz muitos elogios a novas estrelas femininas do pop, como as inglesas Lola Young e Charli XCX. Seria agora a hora das mulheres?
— Acho que sempre foi a hora. O que eu adoro nas mulheres é que elas compõem de uma maneira muito diferente da dos homens. É quase como se, de certa forma, fossem muito mais abertas e extremamente sensíveis, às vezes muito provocativas, às vezes muito sexuais — considera. — Você vê um pouco disso no mundo do rap, mas, no que diz respeito aos cantores brancos, nós não compomos assim. Quando ouço uma música como “Messy”, da Lola Young, simplesmente penso: “Nossa!” É preciso uma força de vontade incrível para escrever isso e dizer essas coisas. Os homens simplesmente não fazem isso.
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Mesmo depois de 50 anos de carreira musical, que o cacifaram a comandar as homenagens à banda Bad Company e ao cantor Joe Cocker em um show do Rock and Roll Hall of Fame em novembro, ao lado de veteranos como Nancy Wilson, do Heart, Bryan Adams ainda acha que o mais emocionante é “criar uma ideia do nada”.
— E o mesmo acontece com as fotos. Você começa o dia com nada e termina o dia com uma bela foto. Você começa de manhã olhando para uma folha de papel em branco e, no fim do dia, tem uma música — diz. — Não sei qual é a expressão em português, mas em francês seria “raison d’être” (a “razão de ser”).
A proliferação do uso de inteligência artificial nas artes não o assusta, porém:
— Acho que a IA pode ser uma ferramenta muito útil. Fiz um teste com ela em um vídeo... e foi razoável. Acho que ela ainda tem um longo caminho a percorrer, ela está em constante mudança, mas acredito que a caixa de Pandora foi aberta e agora a IA está no mundo. Ela faz parte da nossa vida e temos que aceitar e lidar com as mudanças.
