Dólar vai a R$ 5,06: saiba por que os juros no Japão afetam o câmbio no Brasil

 

Fonte:


O conflito no Oriente Médio, que já dura dois meses e meio, começa a pressionar indicadores de inflação e redesenhar a política de juros em todo o mundo. Nesta sexta-feira, as consequências do conflito no Japão impactou de forma firme o câmbio aqui no Brasil. Hoje, o dólar encerrou o dia cotado a R$ 5,06, em avanço de 1,63%. Dentre as 31 moedas com maior negociação no mundo, o real foi a que mais se desvalorizou frente o dólar.

Seis meses após liquidação do Banco Master: R$ 2,2 bilhões ainda estão 'esquecidos' no FGC

Lucro do Nubank sobe 41%, mas fica abaixo das estimativas com aumento de custos de crédito

Mas o que o país asiático tem a ver com o câmbio por aqui?

O Japão é um dos principais tomadores de dívidas ao redor do mundo. Historicamente com taxas de juros negativas, o país é alvo de investidores que realizam uma operação conhecida comocarry trade. Nessa operação, também conhecida como carrego, Brasil e Japão estão em lados opostos.

O carry trade é uma operação na qual os investidores ganham entre as diferenças previstas para o câmbio e para os juros entre dois países. Normalmente, o investidor toma dinheiro emprestado num país onde os juros são baixos — caso japonês — e aplica em outro no qual a taxa é elevada — caso brasileiro.

Só da dívida americana, o Japão é o maior país credor, segundo dados de fevereiro do Tesouro Americano. São 1,24 trilhão de dólares na mão dos japoneses. As taxas dos EUA estão em patamar restritivo há alguns anos, e hoje estão entre 3,5% e 3,75%. No Brasil, a Selic está em 14,5% ao ano.

Initial plugin text

Na madrugada desta sexta-feira, os títulos japoneses registraram uma alta firme. Aqueles com vencimento em 10 anos alcançaram o maior nível desde 1999, alcançando 2,37%. Já o de 30 anos superou os 4%. O movimento aconteceu após o Índice de Preços ao Produtor (PPI) de abril registrar alta de 4,9% em doze meses, ante avanço de 2,9% em março.

O movimento expressivo alimentou especulações de que o Banco do Japão poderá elevar os juros no mês que vem. Hoje, o Japão possui uma taxa básica de juros de 0,75% ao ano, e previsão de inflação de quase 3%.

O Japão manteve taxas baixíssimas de juros por vários anos, o que incentivou investimentos maciços feitos com carry trade lastreados em iene. Logo, ao menor sinal de que os juros devem subir, esse movimento é, em parte, desfeito, levando o capital de volta para o país.

O retorno de volta para casa do capital dos japoneses contribuiu com a alta dos juros em títulos de outros países, como os americanos e os brasileiros.

Bancos liquidados: veja como baixar o app do FGC para ter dinheiro de volta

— O mercado de renda fixa do Japão é o segundo maior do mundo. As pessoas se financiam nas taxas japonesas para aplicar em outras economias. Logo, um efeito de juros lá tem impacto importante em outros juros do mundo todo. Se você se financia lá para aplicar em outras economias, é preciso desmontar esse trade (negócio). E essa repatriação provoca, em alguma medida, esse aperto das condições financeiras em outras economias — afirma Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset.

Irã no radar

Nesta sexta-feira, outros fatores também impuseram ao dólar o retorno ao patamar acima dos R$ 5.

A reunião entre Trump e Xi Jinping, que se encontraram em cúpula na China nesta semana, não trouxe novidades quanto ao impasse sobre o fluxo no Estreito de Ormuz. A falta de avanço para o encerramento do conflito elevou o barril do tipo Brent (referência internacional) aos US$ 109, em avanço de cerca de 3%.

— As discussões foram sobre guerra comercial, menos de conflito geopolítico. Não teve nada de concreto, prático. Houve um certo nível de decepção — disse Lima, da Inter Asset.

O prolongamento do conflito geopolítico restringe o comércio global de petróleo e gás natural, essenciais em diversas economias. Com o preço elevado diante da diminuição da oferta — o estreito de Ormuz é caminho para 20% do escoamento de toda a produção do óleo global —, o impacto nos combustíveis e no preço da geração de energia elétrica em muitos países é significativo. Com o aumento de preços, juros mais altos são os tradicionais “remédios” de política monetária para frear a inflação:

Capital: Azzas contrata Itaú para assessorá-la em conversas sobre eventual cisão entre sócios

— Se tem alta nos preços de energia, você provavelmente tem aumento dos custeios de transporte. Tendo isso, há repasse a bens e serviços. Por isso há esse movimento dos juros globais — afirma Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, que vê o ciclo de baixa da Taxa Selic no Brasil “comprometido”.

O peso político da divulgação do áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, também contribuiu com a apreciação da moeda, afirmaram os analistas. É que, em momentos em que as aplicações são desfeitas, o dólar é o caminho mais procurado para reverter as posições de investimentos.

— Quando acontece instabilidade política aqui também, como o que tivemos, isso gera desconfiança com a moeda. Uma vez que ela estava mostrando forte desempenho, ela fica suscetível a essas oscilações — afirmou Rostelato, da Armor.

Initial plugin text