Dólar hoje: moeda americana aprofunda queda frente a divisas globais após fala de Trump

 

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Após o presidente Donald Trump indicar que não está preocupado com a desvalorização do dólar, ajudando a levar a moeda ao nível mais baixo desde o início de 2022, o Bloomberg Dollar Spot Index ampliou as perdas para até 1,2%, à medida que a moeda americana se enfraqueceu frente a todos os seus principais pares, antes de se estabilizar um pouco durante as negociações em Londres, nesta quarta-feira.

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Os comentários do presidente americano reduziram a atratividade do dólar e dos títulos do Tesouro dos EUA — impulsionando o que passou a ser conhecido como a debasement trade (aposta na desvalorização da moeda) —, e acrescentaram combustível ao que já era a maior queda do dólar desde que o anúncio de suas tarifas, no ano passado, lançou os mercados em turbulência, alimentando temores de que suas mudanças erráticas de política levassem investidores estrangeiros a reduzir a exposição aos Estados Unidos.

— Não, acho que é ótimo — disse Trump a repórteres em Iowa, na terça-feira, ao ser questionado se estava preocupado com a queda da moeda. —Acho que o valor do dólar — olhem os negócios que estamos fazendo. O dólar está indo muito bem.

Trump há muito tempo acusa outros países de buscarem taxas de câmbio mais fracas para impulsionar as exportações, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tem destacado a distinção entre o preço do dólar e seu valor como moeda de reserva. Assim, esses comentários mais recentes foram vistos como um sinal verde para que os operadores vendessem o dólar.

— Muitos no gabinete de Trump querem um dólar mais fraco para tornar as exportações mais competitivas — disse Win Thin, economista-chefe do Bank of Nassau, acrescentando que eles estão “assumindo um risco calculado. Uma moeda mais fraca pode ser positiva até o momento em que a situação se torna desordenada”.

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Para Stephen Jen, fundador da Eurizon SLJ Capital, a visão do governo Trump sobre o dólar marca o início de uma nova fase de quedas, à medida que buscam uma taxa de câmbio que favoreça os exportadores americanos.

“Isso pode muito bem ser o começo do próximo movimento de queda do dólar, e muitos talvez não estejam preparados para isso”, escreveu Jen — ex-estrategista de câmbio do Morgan Stanley e criador da teoria do “sorriso do dólar” — em uma nota antes de Trump falar.

“Houve toda uma geração de analistas de câmbio acostumada a lidar com um dólar forte e uma economia americana forte, e incapaz de processar o cenário de um dólar em enfraquecimento com uma economia americana forte”, acrescentou.

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Parte da queda do dólar havia sido provocada pela recuperação abrupta do iene desde a semana passada, à medida que os investidores se preparavam para uma possível intervenção das autoridades japonesas para sustentar a moeda do país.

Mas a desvalorização da moeda americana também tem sido intensificada pela condução imprevisível das políticas de Trump, que abalou aliados no exterior e investidores: suas ameaças de tomar o controle da Groenlândia; a pressão sobre o Federal Reserve; os cortes de impostos que ampliaram o déficit; e um estilo de liderança que aprofundou a polarização política nos Estados Unidos.

O enfraquecimento da moeda americana ocorreu apesar da alta dos rendimentos dos títulos do governo e das expectativas de que o Fed esteja prestes a pausar os cortes de juros em sua reunião desta semana — fatores que, tradicionalmente, seriam vistos como favoráveis à moeda. De fato, Trump tem sido explícito em seu desejo de que as taxas sejam muito mais baixas, algo que pressionaria ainda mais o dólar.

Investidores buscam reservas alternativas

Isso ajudou a empurrar os investidores para reservas de valor alternativas, como o ouro, levando o metal a níveis recordes, no que vem sendo chamado de debasement trade. Nesta quarta-feira, o ouro atingiu um novo recorde, ultrapassando os US$ 5.300 por onça.

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Eles também estão direcionando volumes recordes de recursos para ativos como fundos de mercados emergentes, à medida que ganha força um movimento de rotação para fora dos ativos dos EUA de forma mais ampla — um processo que alguns têm chamado de “quiet-quitting”.

— O movimento de hoje do dólar pode parecer exagerado, considerando que os diferenciais de juros ainda jogam a seu favor frente a muitos pares. Mas as declarações do presidente Trump ressaltam os riscos persistentes que continuarão a pressionar a moeda e a incentivar os investidores a buscar proteção em outros lugares — afirmou Tatiana Darie, estrategista macro da Bloomberg.

Durante anos, Trump manteve visões conflitantes sobre o dólar, exaltando sua força como uma forma de preservar vantagem em negociações bilaterais, ao mesmo tempo em que destacava os benefícios de um dólar fraco para o setor manufatureiro.

“Sou uma pessoa que gosta de um dólar forte, mas um dólar fraco faz você ganhar muito mais dinheiro”, disse ele no ano passado.

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Ainda assim, qualquer enfraquecimento prolongado do dólar pode trazer uma série de riscos para a economia dos Estados Unidos.

— É verdade, um dólar mais fraco impulsiona as exportações. No entanto, os Estados Unidos têm US$ 39 trilhões em dívida, caminhando para mais de US$ 40 trilhões, e quando se tem esse nível de endividamento, acredito que a estabilidade da moeda provavelmente se sobreponha às exportações — disse Robert Kaplan, vice-presidente do Goldman Sachs Group Inc., em entrevista à Bloomberg Television.

— Na verdade, acho que os EUA vão querer ver um dólar estável e desejam estabilidade. Eles querem conseguir vender os títulos de longo prazo da curva do Tesouro: um dólar estável ajuda — acrescentou.

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— Quando a pessoa que poderia usar a retórica para defender a moeda soa despreocupada, o suporte percebido sob o dólar fica mais frágil — disse Anthony Doyle, estrategista-chefe de investimentos da Pinnacle Investment Management, em Sydney. — Os mercados estão reabrindo a discussão sobre se os EUA estão pedindo aos investidores que aceitem um padrão mais baixo de estabilidade e, portanto, exigindo um preço mais alto para assumir risco nos EUA.

Desde a posse de Trump, o índice da moeda americana da Bloomberg recuou quase 10%, e os operadores apostam em novas perdas.

O prêmio das opções de curto prazo que lucram com um dólar americano mais fraco atingiu o nível mais alto desde que a Bloomberg começou a compilar esses dados, em 2011. As expectativas otimistas para outras moedas também chegaram a máximas de vários meses, próximas ou equivalentes aos níveis observados após o anúncio das tarifas em abril.

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Os volumes de negociação têm sido elevados. Na terça-feira, o volume de transações processadas pela Depository Trust & Clearing Corp. alcançou o maior nível já registrado.

Riscos para a economia dos EUA

Um enfraquecimento prolongado do dólar traz consigo uma série de riscos para a economia dos EUA, segundo Robert Kaplan, vice-presidente do Goldman Sachs Group Inc.

— É verdade que um dólar mais fraco impulsiona as exportações. No entanto, os Estados Unidos têm US$ 39 trilhões em dívida, caminhando para mais de US$ 40 trilhões, e quando se tem esse nível de endividamento, acho que a estabilidade da moeda provavelmente se sobrepõe às exportações — afirmou em entrevista à Bloomberg Television, acrescentando:

— Na verdade, acho que os EUA vão querer ver um dólar estável e desejam estabilidade. Eles querem conseguir vender a parte longa da curva dos Treasuries: um dólar estável ajuda.

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Um dólar mais fraco também tem implicações mais amplas para o mercado de opções. O dólar e os custos globais de hedge, que normalmente apresentavam correlação positiva, começaram a se mover em direções opostas no ano passado.

Essa correlação disparou no início da quarta-feira para o nível mais inverso já registrado, sugerindo que o hedge continuará caro à medida que o mercado se posiciona para a possibilidade de uma segunda fase, mais estrutural, de desdolarização.

Indicador aponta que dólar continua valorizado

Pelo menos um indicador sugere que o dólar continua bastante valorizado. Com base na paridade do poder de compra, a moeda americana está sobrevalorizada em relação a todas as suas pares do Grupo dos Dez, exceto o franco suíço, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O iene e o euro estão particularmente subvalorizados, mostrou a métrica, reforçando alegações de que exportadores da Europa e do Japão têm uma vantagem injusta.

Trump sugeriu na terça-feira que poderia manipular a força do dólar, dizendo: “Eu poderia fazê-lo subir ou descer como um ioiô”.

Mas apresentou isso como um resultado desfavorável, comparando a situação à contratação de trabalhadores desnecessários para inflar números de emprego, e criticou economias asiáticas que, segundo ele, tentaram desvalorizar suas moedas.

— Se você olhar para a China e o Japão, eu costumava brigar ferozmente com eles, porque eles sempre queriam desvalorizar o iene. Você sabe disso? O iene e o yuan, eles sempre queriam desvalorizar. Desvalorizam, desvalorizam, desvalorizam — disse o presidente dos EUA na terça-feira, acrescentando:

— E eu dizia: não é justo vocês desvalorizarem, porque fica difícil competir quando eles desvalorizam. Mas eles sempre retrucavam: não, nossa moeda está ótima.

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