No meio de uma corrida de rally do Sertões, um piloto pode sofrer um acidente a dezenas de quilômetros da cidade mais próxima, sem placas, endereço ou qualquer referência convencional de localização.
Para encontrá-lo, a organização combina monitoramento em tempo real, equipes terrestres espalhadas pelo percurso e dois helicópteros de resgate.
A meta é chegar a uma ocorrência grave em até dez minutos.
A operação médica reúne 30 profissionais — dez médicos, 17 enfermeiros e três condutores —, 16 caminhonetes distribuídas em pontos estratégicos, duas UTIs móveis terrestres, um posto médico e duas UTIs aéreas.
Em um único dia, a área de cobertura pode chegar a cerca de 400 quilômetros.
O trabalho começa meses antes.
Segundo Jorge Vigorito, chefe da equipe médica, ainda entre fevereiro e março é iniciada a montagem do efetivo.
Paralelamente, a definição do percurso permite mapear hospitais e decidir onde cada equipe ficará posicionada.
— A gente sabe por onde a prova vai passar.
Então, se acontecer um acidente no waypoint X, qual é a referência? Vai ser Goiânia, Brasília, Cavalcante? A gente já tem isso previamente — explica Vigorito.
Helicópteros para chegar em dez minutos
O desenho de cada especial determina onde os dois helicópteros ficarão.
Edgar Fabre, diretor técnico do Sertões, explica que, em um percurso linear, as aeronaves podem ser separadas por cerca de 80 quilômetros.
Cada uma passa a cobrir um raio de aproximadamente 40 quilômetros.
— É para que a gente consiga chegar num atendimento em dez minutos, se for um atendimento mais grave — afirma Edgar.
Dois helicópteros e monitoramento em tempo real: os bastidores dos resgates no Sertões
Ludson Carvalho
A prevenção chega também aos pontos considerados mais perigosos.
Antes da competição, Edgar percorre novamente o trajeto com diretores adjuntos e identifica locais como lombas, buracos e outros obstáculos que merecem atenção especial.
Neles, profissionais da área técnica podem ficar acompanhados de médicos.
Caso uma ocorrência aconteça próxima a uma das 16 caminhonetes, a equipe terrestre parte para o primeiro atendimento enquanto o resgate aéreo é acionado.
Quem chegar primeiro inicia o socorro, e as estruturas passam a atuar de forma integrada.
Uma ‘bolinha azul’ acompanha os competidores
A velocidade do resgate depende também de localizar precisamente o acidentado.
Um sistema de rastreamento permite que a direção de prova acompanhe em tempo real onde estão os veículos.
Edgar compara a tecnologia a uma “bolinha azul do Google Maps”.
O sistema também permite perceber quando um competidor para.
Em caso de problema mecânico, o piloto pode acionar um botão amarelo e informar à central que precisa de auxílio.
Se houver uma emergência médica, o alerta é vermelho.
Mesmo quando nenhum botão é acionado, a central consegue identificar que o veículo deixou de se movimentar e entra em contato para entender o que aconteceu.
— Se você não apertar nada e parou, eu já vou perguntar: “Está tudo bem? Parou por quê?”.
Hoje a gente tem, de fato, um monitoramento 100% — diz Edgar.
A tecnologia eliminou uma dificuldade enfrentada anteriormente pela operação.
Em uma queda de moto, por exemplo, o helicóptero poderia chegar à região aproximada do acidente e ainda precisar sobrevoar o local procurando o piloto.
— Hoje a gente não corre mais esse risco, graças à tecnologia — acrescenta o diretor.
Motos lideram número de ocorrências
Entre os competidores, os motociclistas são os que mais demandam atendimento.
Segundo Vigorito, quedas de moto acontecem praticamente todos os dias, embora a maioria não seja grave.
A cobertura não se restringe a quem está disputando a prova.
Enquanto os competidores percorrem as especiais, centenas de profissionais viajam pelas estradas nos veículos de apoio.
Eles também estão sob responsabilidade da estrutura médica.
Em alguns casos, o alcance vai além da própria caravana.
Vigorito conta que as equipes já aproveitaram a presença em regiões isoladas para atender moradores.
— Já fizemos atendimento pediátrico, atendimento a gestante.
Pode acontecer de pousarmos próximo a uma fazenda e precisarmos apoiar o pessoal de lá — conta.
Se um paciente precisa ser removido, a equipe já sabe para onde seguir.
Os hospitais de referência são definidos previamente para cada região do percurso, e autoridades e unidades de saúde são comunicadas sobre a passagem do rali e a possibilidade de receber feridos.
O adversário invisível
Para Vigorito, entretanto, o principal desafio da operação não está no helicóptero, na distância ou na tecnologia.
Está no próprio desgaste de quem precisa permanecer em alerta durante oito dias.
Poucas horas de sono, alimentação irregular, desidratação, calor e longos deslocamentos se acumulam ao longo do Sertões.
E uma emergência grave pode acontecer justamente quando médicos e enfermeiros já carregam vários dias de desgaste.
— O maior desafio é o cansaço.
É lutar contra o pouco sono, a má alimentação, a desidratação, o calor intenso e, ainda assim, fazer um atendimento médico de qualidade.
Por isso, sono, alimentação e condicionamento físico dos profissionais também entram na preparação.
Para Edgar, toda a engrenagem — do posicionamento dos helicópteros ao monitoramento de cada veículo — depende de uma palavra antes mesmo de os motores serem ligados.
Dois helicópteros e monitoramento em tempo real: os bastidores dos resgates no Sertões realizados em tempo recorde
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