Dois bares para viajar o mundo sentado na calçada do Rio
Em boa parte do mundo, beber ao ar livre virou problema. Ou é proibido, ou precisa de licença, ou tem regra, horário, metragem, formulário e multa. Beber na rua passou a ser assunto de prefeitura, manual e fiscal.
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No Rio também há regras, claro. Mas elas não são as protagonistas da cena. Estão ali, em segundo plano, enquanto a vida acontece. A mesa se espalha pela calçada, a cadeira muda de lugar, a conversa cresce, a noite anda.
Em outros países, a lógica costuma ser inversa. Na França, a mesa na rua é charmosa, mas milimetricamente delimitada: sair um pouco do perímetro já é ousadia. Nos Estados Unidos, em geral, beber em público é crime mesmo. No Japão, a ordem é tamanha que até o bêbado parece pedir desculpas antes de tropeçar.
Os espetinhos do Miudinho, na Tijuca
Tomás Rangel/Divulgação
Nada contra. Cada cidade organiza seu espaço como pode. Mas o resultado costuma ser parecido: primeiro a regra; depois, se sobrar espaço, entra o brinde.
Dá para encontrar mesas ao relento em outros cantos do Brasil, é verdade. Mas fora daqui isso é exceção. Na maior parte do mundo, sentar do lado de fora é concessão. No Rio, ainda é costume. Foi meu amigo Caju, sergipano que morou por anos em São Paulo, quem melhor resumiu isso, ao enumerar, quase como se precisasse, os motivos que o fizeram vir morar por aqui: escola de samba, o Botafogo e poder beber sentindo a brisa da rua.
É esse ventinho que faz ser possível viajar tanto sem sair da cidade. Um pouco do mundo aparece ali mesmo, sentado no bar, debaixo do sol ou da lua. Às vezes, o caminho passa pelo País Basco e desemboca na Glória. Em outras, atravessa o Japão antes de chegar à Tijuca.
Os pintxos do Isca
Foto: Divulgação
Os pintxos do Isca e os espetinhos do Miudinho, cada um à sua maneira, carregam referências estrangeiras fortes, mas sem nunca abrir mão daquilo que o Rio faz melhor: ocupar a calçada sem cerimônia. Um pouco de San Sebastián, um pouco de Osaka, um pouco de mundo: tudo na rua, com cerveja de garrafa e cadeira de plástico.
O Isca começa pela sua própria rua: a do Russell, larga, sombreada, com jeito de sala de estar. Um cenário carioca, onde você se senta e percebe que, sem alarde, está tapeando como se estivesse no centro de Bilbao, com o bônus do calor, do papo solto e da cerveja gelada.
Convém explicar: pintxos são pequenas mordidas nascidas nos balcões do País Basco, servidas sobre pão e com palito. No Isca, o de atum é daqueles que pedem repetição. Valem também as croquetas — sobretudo a de jamón — e o bocadillo de camarão, tudo isso sem horas de avião, sem névoa e sem frio. A Lapa está ao lado, o céu por cima, e a delícia simples de beber sob nuvens e estrelas faz o resto.
Já o Miudinho, outro dos meus bares favoritos da nova geração, é carioca por vocação. Fica perto do Maracanã, tem sambista dos bons entre os sócios e é tijucano até a última cadeira. É bar de rua no sentido mais literal: estar ali é escolher entre cimento e o asfalto, sem muito abrigo para quem não gosta de ficar ao relento. As mesas de plástico, vermelhíssimas, fazem questão de lembrar que estamos em um bom boteco brasileiro.
O cardápio, porém, atravessa o mundo. O espetinho pode ser de língua, mas com tarê e shoyu; para quem é mais raiz tem de bacon, jiló e queijo, sempre com vinagrete e farofa a um garçom de distância. No balcão dos frios, a escolha resume o espírito do lugar: macarronese tijucaníssima ou um oniguiri de atum curado, bolinho japonês de arroz feito da Terra do Sol Nascente, degustado sob o sol da Tijuca. Um toque de Japão, outro de Zona Norte: tudo resolvido na calçada, como convém.
Rua é destino, um lugar onde o mundo passa, a conversa fica. Beber ao ar livre, por aqui, não é desafiar regra nem fazer pose: é só aceitar que, às vezes, a vida acontece melhor quando não precisa de teto nem de parede. E se, entre um gole e uma mordida, a cabeça viaja até a Europa, a Ásia ou qualquer outro canto, melhor ainda. O corpo fica. O resto passeia. E a mesa, firme na calçada, dá conta do recado.
SERVIÇO
Isca — Rua do Russel, 724, loja A, Glória. Qua e qui, de 17h30 a 0h. Sex até 0h30. Sáb de 16h até 0h30, dom de 14 às 23h
Miudinho — Rua Visconde de Itamarati, 115, Tijuca. Qua e qui de 17h a 0h. Sex de 17h até 1h. Sáb de 14h até 0h. Dom até 21h.
