Documentário sobre Matthew Perry, na Netflix, explora o talento notável do ator de ‘Friends’

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“Tenho uma necessidade estranhíssima de levar uma vida criativa. Adoro que meu trabalho é tentar fazer as pessoas rirem”, diz Matthew Perry em uma conversa informal com o amigo e comediante Kevin Pollak.

A cena que abre a série documental Aquele sobre Matthew Perry, que chega à Netflix na terça-feira 27, dá o tom da produção: tratando como coadjuvante a dependência química do ator, que ceifou sua vida aos 54 anos, em 2023, a produção prefere se debruçar sobre o talento e a dedicação de Perry para seguir seu propósito e vingar no competitivo mundo do show business.

A missão inglória lhe rendeu apenas um grande sucesso, mas do tipo avassalador. Intérprete de Chandler Bing, o personagem mais engraçado da meteórica série Friends, Perry se impôs como uma persona incontornável do humor americano.

O caminho até o auge é destrinchado nos três episódios do documentário. HONESTO - Na divulgação do livro de memórias: dependência narrada sem rodeios para ajudar quem enfrenta o mesmo problemaDania Maxwell/Los Angeles Times/Getty Images

A produção reúne um vasto material de arquivo e depoimentos de amigos e familiares, especialmente o da irmã caçula, Mia Perry, que se tornou psicoterapeuta em parte para entender os tormentos do irmão. Matthew passou a infância com a mãe em Ottawa, no Canadá, depois que os pais se separaram quando ele tinha menos de um ano.

Na escola, fez aulas de teatro e descobriu a arte da comédia. Já demonstrava também a rebeldia: em seu livro de memórias, Amigos, Amores e Aquela Coisa Terrível, de 2022, contou que bateu em Justin Trudeau, colega do primário que mais tarde se tornaria primeiro-ministro canadense.

O contato com o pai, o ator John Bennett Perry, acontecia mais pela TV, quando Matthew ligava o aparelho para vê-lo em séries como Os Novos Centuriões e em comerciais do desodorante Old Spice. Aos 15, mudou-se para a casa dele, em Los Angeles, para seguir a carreira de ator.

Conseguiu trabalhos de pouca repercussão na TV, sendo a série Second Chance, em 1987, um destaque. Ali já apareciam a capacidade de improviso e o ritmo cômico que o consagraram: uma mistura de sarcasmo e comédia física, inspirada em astros do estilo, como Chevy Chase e John Ritter.

“O lance com Matt era que ele sempre precisava conseguir a risada. Se a piada dele não causasse o riso, ficava desconcertado”, conta Billy Gallo, que dividia a tela com ele.

Continua após a publicidade CLÃ – Na infância (à esq.) e com a irmã Mia: ela virou terapeuta por causa deleNetflix/.

Com o fim de Second Chance, Perry foi escalado para uma comédia futurista da Fox, mas estava de olho mesmo em outro projeto que circulava em Hollywood: uma tal de série Friends, cujo Chandler parecia escrito para ele. O personagem era estabanado, carente de aprovação e, principalmente, sarcástico.

Livrou-se do contrato com a Fox, cuja série nunca foi ao ar, e conseguiu o papel. Foi o último dos seis protagonistas a ser escalado.

Enquanto Chandler marcou pelo jeito ágil de pensar e pela hilária incapacidade de seduzir mulheres, Perry se tornou peça-chave nos bastidores, com improvisos, sugestões aos roteiristas e uma busca constante pela piada perfeita. O fenômeno se mediu nos salários: os atores começaram, em 1994, ganhando 22 500 dólares por episódio e chegaram a 1 milhão nos dois últimos anos — a série se encerrou na décima temporada, em 2004.

Continua após a publicidade O elenco é uma ausência enorme do documentário — alinhados, Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc e David Schwimmer foram convidados a participar do programa, mas recusaram.

A razão seria não reviver a morte do amigo nem expor uma história que tratam como privada. Mais provável é o receio da trupe de cair em uma narrativa sensacionalista sobre o colega.

A série da Netflix, porém, não envereda para esse lado. Com a fortuna, a vida de Perry mudou e a da família foi junto.

“Matthew foi sempre generoso”, conta Mia. Certa vez, na saída de um jantar de Natal, ela viu o manobrista surgir com um Mustang vermelho e chamar por seu nome.

O carro era um presente do ator para ela. As gravações da série ocupavam cerca de sete meses por ano, e Matthew aproveitava o restante para o cinema.

Fez Meu Vizinho Mafioso (2000), com Bruce Willis. No set, os dois apostaram sobre a bilheteria do filme.

Perry ganhou, e Willis pagou a prenda com uma participação em Friends, que lhe rendeu um Emmy. Continua após a publicidade

Nos bastidores, lidava com o vício em álcool e drogas. Em 1997, um acidente de jet ski durante as filmagens de um filme o levou aos analgésicos opioides, que se somaram ao álcool.

Em 2018, o abuso de remédios provocou o rompimento do intestino, e ele passou duas semanas em coma. Gastou 7 milhões de dólares com tratamentos para reabilitação.

Nunca escondeu seu drama pessoal — e tentava ajudar os outros enquanto lutava para ajudar a si mesmo. Ele queria ser lembrado como alguém que não viveu só para si, mas que fez a vida alheia melhor.

Essa missão foi cumprida. Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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