Documentário sobre Che Guevara conta história de três sobreviventes a perseguição do exército boliviano
Che Guevara é o indiscutível ícone das revoluções do século XX. Com a barba e boina inconfundíveis, se tornou uma marca, estampando camisetas ao redor do mundo até hoje — mesmo tendo morrido em 1967, aos 39 anos, após liderar uma cruzada para fomentar revoluções pela a América Latina. Menos conhecido é o fato de que Guevara foi acompanhado em sua luta continental por cerca de 50 companheiros revolucionários, a maioria dos quais morreu dentro de um ano depois dele.
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Agora, o documentário “Che Guevara: Os Últimos Companheiros”, dirigido por Christophe Dimitri Réveille, conta a história dos últimos companheiros de armas de Guevara ainda vivos: três homens que lutaram contra probabilidades incríveis para manter a luta e viveram o suficiente para testemunhar.
Christophe Dimitri Réveille, diretor do documentário 'Che Guevara: Os Últimos Companheiros'
François Ollivier/The New York Times
O documentário, previsto para estrear no Festival de Cannes, começa com uma cena dramática: pessoas desfilam diante do corpo de Guevara, algumas tirando fotos. É outubro de 1967 e o líder guerrilheiro acaba de ser morto a tiros por tropas em uma escola rural na Bolívia.
A poucos metros de distância, seis de seus companheiros de luta se escondem nas árvores enquanto helicópteros de combate sobrevoam o local, à sua procura. Sem saber que o líder acaba de ser executado, eles juram lutar até o último homem.
Apenas três sobrevivem: Pombo (Harry Villegas), o leal tenente de Guevara; Urbano (Leonardo Tamayo Núñez), filho de um camponês que se junta à luta armada aos 15 anos e se torna mensageiro de Guevara (ele é o único ainda vivo hoje); e Benigno (Daniel Alarcón Ramírez), um camponês cuja esposa é assassinada diante de seus olhos e que se torna capitão no exército rebelde de Che.
Cena de “Che Guevara: The Last Companions”
Reprodução
Esses são os protagonistas do filme. Durante cinco meses extenuantes, eles escapam de mais de 4 mil soldados bolivianos, percorrem 2.400 quilômetros de terreno perigoso e sobrevivem à fome, sede e ferimentos. Sua história é contada por meio de entrevistas filmadas, imagens de locações na Bolívia e — para maior intensidade dramática — segmentos de animação.
Em uma entrevista em vídeo recente, Réveille falou sobre seu interesse em Che e seus leais combatentes. A conversa foi conduzida em francês e foi editada e condensada.
Como você descobriu a história desses três homens?
Meu pai me levou em uma viagem a Cuba em 1997, na época em que repatriavam os restos mortais de Che Guevara. Percebi que eu realmente não sabia muito sobre ele e que precisava descobrir mais. Li um livro sobre Che e descobri que havia cubanos que sobreviveram à sua morte. Um deles, Benigno, havia desertado e sido condenado à morte por traição pelo líder cubano Fidel Castro. Ele estava morando na França.
Levei um ano e meio para encontrar Benigno. Quando o conheci, seus editores disseram que eu poderia fazer um documentário sobre ele, desde que terminasse sua biografia primeiro. Pensei comigo mesmo: Este homem está condenado à morte. Vou filmar tudo o que ele disser e mandar traduzir para que fique registrado, caso algo lhe aconteça.
A biografia foi publicada em 2006. Paralelamente, comecei a fazer um documentário sobre ele. Encontrei arquivos e conheci o ator Benicio Del Toro, que estrelava a cinebiografia "Che", de Steven Soderbergh, em 2008. Del Toro me deu a ideia de fazer um documentário sobre todos eles, mas também me disse que era impossível vê-los todos; Soderbergh e sua equipe já haviam tentado.
Pensei: talvez haja algo que possa ser feito. Fiz uma primeira viagem à Bolívia para conhecer pessoas e vasculhar os arquivos. Depois de um tempo, percebi que conseguiria vê-los todos. Foram 20 anos de trabalho árduo.
Por que você inicialmente quis fazer um documentário sobre Benigno?
Achei um personagem interessante. Não era alguém que se juntou à luta armada por razões ideológicas, mas porque viu as forças cubanas matarem sua esposa grávida. Ele perdeu tudo. Mataram até o cachorro dele.
Sempre me interessei por pessoas que vivem nas sombras. O primeiro documentário em que trabalhei foi sobre Jack Waltzer, membro vitalício do Actors Studio em Nova York e um importante preparador de atores, de quem ninguém nunca ouviu falar. Dustin Hoffman, Robert Duvall e Jon Voight estavam no filme porque trabalharam com ele.
Che está em todos os livros de história. Eu me concentrei em pessoas que fazem revoluções, mas cujos nomes não aparecem em lugar nenhum.
Por que você se interessa por heróis desconhecidos, por pessoas que poderiam ser descritas como azarões?
Você consegue entender as grandes histórias quando aborda através de pequenas histórias. Além disso — e isso é algo pessoal, mas não me importo de compartilhar — perdi minha mãe aos 17 anos. E naquele dia, decidi que iria aonde quer que antes tivesse medo de ir.
Até então, eu era caseiro. Meus pais sempre diziam que era melhor economizar dinheiro agora e viajar depois. Mas a partir daquele dia, viajei muito. Esses sobreviventes deram um significado real à minha vida.
Eu era um garoto que havia mergulhado na anorexia, nas drogas, em tudo isso. E um dia me deparei com essa história. Percebi que existiam homens ainda mais perdidos do que eu, e que decidiram viver suas vidas em busca de um ideal. Percebi que, na vida, existem coisas maiores do que nós, sofrimentos maiores.
Se eu tivesse conhecido a história deles antes, isso teria me impedido de ficar à deriva por anos, sem saber o que fazer da minha vida.
Esses homens são heróis para você?
Sim. Eles são heróis porque conquistaram o impossível — mas não por interesse próprio. Não são homens que agem apenas em benefício próprio. Eles querem sair vivos para poderem se rearmar e retomar a luta.
Eles também são muito sensíveis à injustiça.
Porque sofreram. Um deles se lembra de ter visto camponeses sendo espancados diante de seus olhos. Outro conta sobre o assassinato de sua esposa. Como perderam tudo, suas vidas perderam o sentido. É por isso que seguem Che.
Che Guevara é o motivo do interesse público pelo seu filme e da seleção feita pelo Festival de Cannes. O que você acha dele?
Há momentos em que o admiro, mas tenho a impressão de que, eventualmente, ele chegou a um ponto sem volta. Os motivos que o levaram a se engajar na luta são legítimos, mas a maneira como ele buscou mudar o mundo pode ser questionada.
Iniciar revoluções é interessante, mas quando elas são vencidas, transformam o mundo. Muitas vezes, aqueles que lideraram a revolução são traídos por ela. Muitos idealistas inevitavelmente se decepcionam, porque se veem do lado dos opressores.
Como você reagiu ao saber que seu filme havia sido selecionado para uma exibição especial em Cannes?
Fiquei feliz e, ao mesmo tempo, só conseguia sentir tristeza, pensando que Benigno jamais veria. Fiquei tão triste que prometi a mim mesmo que visitaria o túmulo dele antes de ir a Cannes — para lhe contar que havia conseguido. Espero que Urbano consiga vê-lo. Ele é o único dos três homens que ainda está vivo.
É curioso que este documentário tenha acabado no Festival de Cannes. Mesmo que tivesse sido rejeitado, eu não teria tido outra escolha senão terminá-lo — porque este filme simplesmente precisava ser feito.
