Documentário sobre Billy Preston, que tocou com os Beatles, revela abuso na infância e problemas com drogas e álcool
Em 1º de agosto de 1971, um dos concertos mais memoráveis da música foi apresentado no Madison Square Garden: um evento beneficente para o povo de Bangladesh, com a participação de estrelas como George Harrison, Ringo Starr, Eric Clapton e Bob Dylan.
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Ao lado deles, estava Billy Preston, conhecido por suas contribuições cruciais ao piano elétrico em canções dos Beatles, incluindo uma em “Get back” considerada tão essencial que a banda deu a ele um destaque inédito na faixa. Os fãs também o conheciam por tocar teclado no “concerto no telhado” dos Beatles que deu origem ao álbum “Let it be”, e por seu trabalho com Little Richard e os Rolling Stones. No entanto, nunca haviam visto Preston como um artista solo — até o momento em que ele apresentou seu vibrante hino gospel “That's the way God planned it”.
— Isso o colocou em um patamar diferente — afirma Paris Barclay, diretor de um documentário sobre Preston, “That’s the way God planned it” — Ele não estava apenas no palco com as maiores estrelas, ele estava brilhando.
Se aquele momento consagrou Preston como uma estrela capaz o suficiente para alcançar o segundo lugar nas paradas com sua instrumental funky “Outa-Space” quatro meses depois, sua proeminência contrastava com o muro que ele ergueu em torno de sua vida pessoal.
Durante sua vida, que terminou em 2006, aos 59 anos, por falência múltipla de órgãos agravada por anos de abuso de drogas e álcool, Preston nunca falou publicamente sobre sua identidade como gay, muito menos sobre ter sofrido abusos em uma idade precoce. Seu silêncio, mesmo para a maioria das estrelas que o admiravam, foi um grande desafio para Barclay.
— Havia um mistério em torno de sua vida — contou Barclay. — Quanto mais nos aprofundávamos, mais mistérios se revelavam.
Preston e seu piano elétrico com Paul McCartney e Ringo Starr, na gravação de 'Let it be', em 1969
Apple Studios/Divulgação/22-1-1969
Ele precisou conquistar a confiança dos amigos mais próximos de Preston, a maioria vinda do mundo gospel de sua juventude.
— O círculo íntimo sabia tudo o que havia acontecido — disse a cantora Merry Clayton, que conheceu Preston quando ambos eram crianças e se apresentavam em diferentes igrejas batistas em Los Angeles. — Mas a história não era nossa para ser contada.
Desde os 3 anos, Preston tocava piano e cantava na igreja onde sua mãe regia o coral. “Acredito que meu talento é um dom de Deus”, disse a Dick Clark no programa “American Bandstand”, em 1981. “Quando toco piano, estou louvando a Deus.”
Por mais conforto que encontrasse em sua fé, a igreja que frequentava condenava a homossexualidade de forma categórica. Para complicar ainda mais, a fé impulsionou sua carreira. Com sua mãe como empresária, ele começou a tocar órgão acompanhando cantores gospel como Mahalia Jackson aos 10 anos. No ano seguinte, participou do programa de televisão “Nat King Cole Show”. Mais tarde, levou o fervor da igreja para a música secular, ao lado de estrelas como Ray Charles e Little Richard, que o contratou para a banda que levou a Hamburgo em 1962, onde Preston conheceu os Beatles.
— Quando George o viu pela primeira vez com Little Richard, Billy era apenas um garoto — disse a viúva de George Harrison, Olivia, em uma entrevista por vídeo. — Mal dava para ver a cabeça dele por cima do piano.
Mesmo assim, George lhe disse: “Com quem quer que Billy tocasse, ele elevava o nível.” Foi por isso que os Beatles o contrataram em 1969 para as gravações dos álbuns “Abbey Road” e “Let It be”.
— Eles estavam juntos dia e noite, ano após ano, e em baixa — afirma Olivia. — Então, uma pessoa nova chega e a alegria da sua performance preenche o ambiente e renova o clima. Billy sempre acrescentava algo à música, o que não é fácil com aquelas canções incríveis que os Beatles compuseram.
Barclay observou que uma das habilidades de Preston era a “antecipação perfeita”:
— Ele sabia para onde uma música estava indo e conseguia adicionar o que faltava.
Preston fez isso com artistas tão diversos quanto os Rolling Stones (tocando em sete de seus álbuns), Sly Stone e Barbra Streisand. Como artista solo, conquistou dois número 1 na década de 1970 com “Will it go round in circles” e “Nothing from nothing”, ambos lançados pela gravadora A&M, de Herb Alpert.
— Ele era uma máquina de ritmo humana — disse Alpert por telefone. — A música parecia brotar de seu corpo e ir para o teclado, sem nenhum filtro no meio. O som era pura alegria.
Ele também exalava um amor profundo, exemplificado por “You are so beautiful”, uma balada que coescreveu inspirada em sua mãe, que se tornou um grande sucesso, chegando ao Top 5 na voz de Joe Cocker em 1974. Esses sucessos o levaram a ser um dos dois convidados musicais do episódio inaugural do “Saturday Night Live” em 1975.
Olivia disse acreditar que Preston usava sua produtividade como escudo:
— Você sempre sabia que algo estava acontecendo com o Billy, mas ele nunca mostrava esse lado. Acho que é por isso que ele continuava tocando. Mantinha todo mundo afastado.
Embora Preston tenha tido muitos casos, às vezes com homens que ele apresentava como seus “primos” em turnê, Barclay não tinha conhecimento de nenhum relacionamento sério:
— Billy queria ter alguém que o amasse de verdade, e o fato de isso nunca ter acontecido é uma tragédia. Provavelmente foi mais um fator em sua espiral descendente.
Clayton acredita que a principal causa dos problemas de Preston foi o abuso sexual sofrido na infância, que, segundo várias fontes no filme, ocorreu diversas vezes, por um agressor desconhecido.
— Todo o problema dele com drogas foi por disso — disse ela. — Quando você sofre abuso, certas coisas acontecem na sua vida e você não sabe de onde vêm. Você simplesmente reage.
A partir da década de 1990, Preston cumpriu pena por diversos incidentes relacionados à cocaína e, em 1998, foi indiciado por fraude de seguro após incendiar a própria casa em Los Angeles. Barclay disse sentir uma empatia especial pela situação de Preston, um homem negro e gay que não só cresceu na igreja, como também sofreu abusos lá.
— As pessoas mais próximas de Billy tentaram ajudá-lo. Mas ele não acreditava que isso pudesse funcionar — contou.
O diretor atribui grande parte da culpa pela vergonha persistente de Preston à “enxurrada de mensagens dizendo que você está condenado” vindas da igreja que frequentava quando criança.
— O fascínio da fé é poderoso — lembra Barclay. — E a possibilidade de redenção se mistura à devoção, então você pode acreditar que será perdoado mesmo se pecar.
