Documentário mergulha em nebuloso ecossistema on-line da cultura da machosfera: 'É um truque de vendas', diz diretor

 

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Foi durante a pandemia que o cineasta Louis Theroux ouviu falar pela primeira vez de Andrew Tate, o kickboxer que se tornou influenciador. Os filhos pequenos de Theroux estavam citando os vídeos de Tate.

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— Eles achavam aquilo divertidamente ultrajante e atrevido — disse Theroux.

Tate estava ganhando destaque na machosfera, o nebuloso ecossistema on-line formado por homens conversando com outros homens — sobre esportes e fitness, bem como sobre a cultura incel e a mentalidade “redpill”. Theroux queria entender o que motivava esses homens.

Quando Theroux lançou seu documentário na Netflix, “Por dentro da Machosfera”, mês passado, muito já havia sido discutido sobre a subcultura. Mas, ao apresentar as figuras da manosfera no filme — Harrison Sullivan, de 24 anos, conhecido como HSTikkyTokky; Amrou Fudl, o podcaster de 36 anos conhecido como Myron Gaines; Nicolas Balinthazy, conhecido como Sneako, de 27 anos; o empreendedor e influenciador Justin Waller, de 40 anos; e o streamer Ed Matthews, na casa dos 20 anos — o documentarista mostra aos espectadores um mundo que eles talvez só tenham imaginado on-line.

Theroux, de 55 anos, acompanha esses homens em suas rotinas diárias. Ele é discreto mas persistente, e acaba expondo a motivação cínica, voltada para o mercado, dos seus entrevistados.

Abaixo, trechos de uma conversa recente com Theroux, via videochamada.

Após superar a desconfiança inicial, muitos desses caras ficam mais à vontade com a sua presença. Há quem diga que você está dando a eles a corda para se enforcarem.

Não estou tentando enforcar ninguém. Acho que estou tentando chegar à verdade, ou a algum tipo de verdade. Estou tentando criar um espaço que pareça seguro o suficiente para que eles se expressem sem reservas, com sinceridade, ou pelo menos se apresentem de maneira reveladora. E também tento, em momentos oportunos, desafiar, provocar um pouco.

Em certo momento, um dos influenciadores arma uma cilada para alguém visto como um predador e transmite ao vivo quando (esse possível predador) leva uma surra. Parece que você teve uma reação mais negativa ao ver isso no mundo on-line do que ao apenas ouvi-lo falar a respeito.

Durante a produção de um documentário, sempre existe o risco de que sua presença acabe catalisando os eventos de alguma forma. Pode minimizar, ter um efeito restritivo ou até mesmo um efeito catalisador, levando as pessoas a cometerem atos mais extremos. Então, tivemos que nos afastar. Era perturbador estar perto daquilo. Talvez a única coisa no filme da qual me arrependo um pouco foi de ter que suavizar. Gostaria que tivéssemos mostrado mais daquilo. Não acho que a agressão realmente ilustre as crenças que levam a esse comportamento. É mais uma questão de manter o público engajado. Para os streamers, em especial, o que eles ganham depende de quantas pessoas estão assistindo em um determinado momento. A maioria usa uma plataforma chamada Kick. Então eles podem ver que têm cinco mil, seis mil seguidores, mas se fizerem uma operação contra predadores, talvez consigam mais alguns milhares — mais dinheiro, mais exposição, e assim mais conteúdo será produzido, tornando-se ainda mais viral.

Há um momento em que você conversa com Angie, namorada do podcaster Myron Gaines na época. A situação fica um pouco constrangedora quando você o pressiona sobre o que ele chama de “monogamia unilateral”. Ela claramente não se sente confortável com isso, embora ele diga que sim.

Esses caras promovem um conjunto de valores em suas transmissões que eles nem sempre praticam fora delas. Eles dizem uma coisa, como “Eu mando na minha namorada e ela faz tudo o que eu mando”, e então conhecemos as namoradas e vemos que elas precisam negociar seus relacionamentos como qualquer outra pessoa. Isso não é sustentável quando se trata de um ser humano real. Compromissos são feitos, e grande parte da autoapresentação que ocorre nas transmissões ao vivo é uma espécie de ficção, e nós seremos capazes de desconstruir isso.

O que mais te surpreendeu?

Uma surpresa foi o quanto tudo realmente se baseia em vendas, e por mais que estejamos acostumados a falar da machosfera como uma espécie de problema de doutrinação, em sua essência é um truque de vendas. Outro fator é a pouca idade das pessoas que consomem o conteúdo. São crianças de 8, 9, 10 anos. O limite superior é mais próximo dos 20. Chamamos de machosfera, mas poderia ser descrito como boysfera.