Documentário 'Gonzaguinha, da maior liberdade' retrata cantor como figura com 'coragem para enfrentar o sistema'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Com o nome de Luiz Gonzaga Jr., e o apelido de Gonzaguinha, foi tarefa hercúlea para o cantor e compositor carioca, morto aos 45 anos, em 1991, desvincular-se da imagem do pai, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga (1912-1989). Mesmo não tendo sido criado por Gonzagão e seguindo um estilo musical muito diferente do que transformou o intérprete de “Asa branca” numa lenda da música brasileira, Gonzaguinha muitas vezes teve a imagem atrelada ao pai, inclusive no cinema nacional, com obras como “Gonzaga: de pai pra filho” (2012), de Breno Silveira. Ao notar isso, a diretora Susanna Lira, conhecida por documentários de artistas como Clara Nunes, Mussum e Fernanda Young, sentiu a necessidade de corrigir essa tendência com “Gonzaguinha, da maior liberdade”, que chegou aos cinemas na última quinta-feira após conquistar o Kikito de melhor documentário no Festival de Gramado. Rock in Rio 2026: Críticos do GLOBO elegem os melhores shows do evento Brasil no Oscar 2027: Conheça os 15 candidatos a representar o país na premiação e como assisti-los — A história dele e do Gonzagão sempre se misturam no audiovisual brasileiro. Senti que Gonzaguinha merecia uma biografia só dele — diz Lira, de 51 anos, que optou por retratar o músico como uma figura política que enfrentou a censura e a ditadura no país após ver a inquietação e a rebeldia que considera estarem faltando aos artistas brasileiros hoje. — Quando comecei a acessar o arquivo e ver a coragem que ele tinha de confrontar o sistema, vi que não poderia fazer uma biografia tradicional. Usando material de arquivo, com imagens raras de shows e entrevistas do artista, o filme busca transmitir a poesia e a fúria na obra de Gonzaguinha, navegando por toda a discografia do artista e explorando seu engajamento e desejo de mudar o país. Lira também faz uma encenação da clássica entrevista do músico para o Pasquim, com André Dale interpretando Gonzaguinha. Curiosamente, o ator já havia dado vida ao músico em “Homem com H” (2025), cinebiografia de Ney Matogrosso dirigida por Esmir Filho. Gonzaguinha e Luiz Gonzaga no programa "Grandes nomes" (1981), da TV Globo Acervo TV Globo O roteiro e a pesquisa de Rodrigo Alzuguir deixam de fora entrevistas com artistas e especialistas para privilegiar o arquivo. O que ressalta o fascínio de ver Gonzaguinha falando da infância no Morro de São Carlos, no Rio, a difícil relação com o pai, a dor da perda da mãe, Odaléia, o carinho pela mãe adotiva, Dina, e a influência do padrasto, Enrique Xavier, em sua trajetória musical. O filme detalha o processo por trás de alguns dos maiores sucessos do artista, como “Comportamento geral” e “Explode coração”. — Quis mostrar um pouco do lado B desse moleque que pouca gente sabia que era do Rio, criado no morro. E, mais do que um retrato dele, quis passar essa mensagem de coragem. Não me interessava fazer um filme só sobre o passado, ele tinha que conversar com o presente — continua a diretora. Filha de um guerrilheiro equatoriano que veio para o Brasil enfrentar o regime militar nos anos 1970, Lira nunca conheceu o pai. — Fiz um filme chamado “Nada sobre o meu pai” (2023), porque metade da minha história de origem eu não conheço. Sou fascinada em retratar a história das pessoas — explica. — A biografia é um gênero muito perigoso, que exige enorme responsabilidade. Sempre prefiro escolher um recorte da história que vou contar. Nunca vão me ver falando que estou fazendo o filme definitivo sobre alguém. Acho que podem existir dez filmes sobre Gonzaguinha. Bio de Marília Mendonça No momento, Lira trabalha em outras duas biografias: o filme “Wonderful”, sobre o estilista Luiz de Freitas, que marcou a moda masculina do Brasil nos anos 1980, e a série “Marília Mendonça: sentimento louco”, para o Prime Video, ambos com première no Festival do Rio. Se em “Gonzaguinha” a diretora usou imagens de shows e reportagens da TV brasileira, com “Marília Mendonça”, se deparou com uma infinidade de registros feitos por fãs, inúmeros canais de TV e plataformas digitais. E pela própria artista, incluindo mensagens de texto e áudio recuperadas do celular e do computador da cantora. — Acessamos 530 mil arquivos e fomos escolhendo aquilo que parecia ordinário na vida dela, mas que poderia ser extraordinário para a gente. A série vai trazer muitas coisas que as pessoas conhecem da Marília, mas muito mais coisas que elas não sabem — avisa.

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