Documentário de Steven Soderbergh sobre John Lennon divide opiniões em Cannes devido ao uso de IA
O novo documentário de Steven Soderbergh sobre John Lennon dividiu opiniões no Festival de Cannes — e reacendeu o debate sobre o uso de inteligência artificial (IA) no cinema. Para parte da crítica, os visuais gerados com auxílio de IA acabaram se sobrepondo à carga emocional da obra.
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Assinado por Soderbergh, "John Lennon: the last interview" parte de uma gravação inédita feita por Lennon e Yoko Ono no apartamento do casal no edifício Dakota, em Nova York, em 8 de dezembro de 1980 — o mesmo dia em que o ex-Beatle foi assassinado.
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O longa-metragem combina fotografias de arquivo, registros em áudio e sequências visuais experimentais para reconstruir a atmosfera da conversa. A principal controvérsia, porém, surgiu em torno do uso de IA na criação de parte dessas imagens.
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O próprio diretor admitiu que a parceria com a Meta IA, empresa especializada na tecnologia, "inevitavelmente geraria resistência". Em Cannes, muitos críticos concentraram suas observações justamente nas passagens mais abstratas do documentário, exibidas quando Lennon se aprofunda em reflexões sobre criatividade, identidade e comportamento humano.
John Lennon
divulgação
Em vez de apostar em recriações realistas, Soderbergh opta por imagens oníricas e quase hipnóticas: flores que se dissolvem em formas geométricas, fachos de luz em transformação constante e texturas em movimento que remetem mais a uma instalação de arte contemporânea do que a um documentário musical convencional. Para parte da imprensa especializada, no entanto, essas sequências acabam desviando a atenção da potência emocional da entrevista.
O debate sobre o uso de IA no audiovisual, que até poucos anos atrás parecia restrito ao campo teórico, tornou-se cada vez mais concreto. Estúdios, montadores, artistas de efeitos visuais e cineastas vêm testando novas ferramentas, enquanto cresce também a desconfiança do público diante de conteúdos percebidos como artificiais.
O filme evita, contudo, alguns dos recursos mais controversos associados à tecnologia. Não há deepfakes nem recriações artificiais da voz de Lennon. As imagens geradas funcionam, sobretudo, como complemento visual para o material sonoro.
Segundo Soderbergh, a IA ofereceu uma "alternativa rápida e financeiramente viável" para criar passagens abstratas que demandariam efeitos tradicionais mais caros e complexos. O diretor também argumenta que diversas produtoras e cineastas já utilizam ferramentas semelhantes de forma discreta — a diferença, neste caso, estaria apenas na transparência em relação ao processo.
A discussão em torno da inteligência artificial, porém, cresceu a tal ponto que ameaça eclipsar o próprio documentário, recebido de forma majoritariamente positiva desconsiderando a tal polêmica tecnológica. A combinação de um cineasta prestigiado, um filme sobre John Lennon e a Meta IA — creditada como parceira tecnológica — parecia destinada a provocar reações no mercado audiovisual. Em Cannes, o resultado foi a transformação de um debate já latente num espetáculo público.
