Do xadrez ao flag football, esporte abre caminhos para jovens da rede municipal

 

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Ao sentar-se diante de um tabuleiro de xadrez pela primeira vez, aos 8 anos, Ana Júlia Cândido Vieira não imaginava que aquele jogo se tornaria parte de sua vida. A partida aconteceu em uma tarde chuvosa na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Vila do Sol, no Jardim Ângela, extremo sul da capital paulista, quando a aula de Educação Física precisou sair da quadra e ir para dentro da sala. Hoje, aos 11, ela já acumula títulos expressivos: é Mestre Nacional de xadrez, campeã Paulista Juvenil Sub-20 e já figura no ranking da Federação Internacional de Xadrez (Fide)

Na rede mantida pela Prefeitura de São Paulo, o incentivo ao esporte aparece de diferentes formas: sobre o tabuleiro, nas quadras e nos campos. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Universidade de Harvard indicam que a prática dessas atividades contribui para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de crianças e adolescentes, estimulando habilidades que ajudam a formar indivíduos para além da sala de aula.

O encontro de Ana Júlia com o xadrez ocorreu por meio do Programa Jogos de Tabuleiro, iniciativa da prefeitura que leva diferentes modalidades para as escolas municipais. O professor Haroldo Wonsowski foi quem enxergou as qualidades da aluna para a modalidade.

– Ela tinha características de uma boa jogadora: concentração, calma. Insisti para que a mãe a colocasse nas aulas e, depois de algum tempo, vi que aquilo que eu imaginava estava se confirmando – relembra.

Foi a partir desse primeiro contato na escola que a estudante começou a desenvolver o talento que hoje a leva a disputar torneios importantes – em muitos deles, é a única representante da periferia e de escola pública municipal. Para ela, essa trajetória é motivo de orgulho.

– A maioria das pessoas que participam dos campeonatos tem boas condições, estuda em outras escolas e não mora onde eu moro. Estar ali me deixa muito feliz e orgulhosa do talento que eu tenho – celebra a jovem enxadrista.

Apesar da rotina intensa, que inclui até seis horas diárias de treino, Ana Júlia mantém o mesmo foco nas atividades acadêmicas e só tira notas 9 e 10. Em casa, é acompanhada de perto pela mãe e os irmãos mais novos, que inspirados por ela, também já participam de campeonatos.

Para o secretário municipal de Educação, Fernando Padula, o incentivo ao esporte integra a estratégia da gestão de promover a formação integral dos estudantes. Ele cita entre as iniciativas as Olimpíadas Estudantis — que reúnem mais de 13 modalidades olímpicas e paralímpicas — e os InterCEUs.

– Nosso compromisso é garantir o direito à aprendizagem e à alfabetização, mas também pensar na integralidade dos alunos, reduzindo desigualdades e promovendo equidade. É um orgulho ver que os nossos estudantes se destacam, para além da sala de aula, na prática de atividades esportivas – afirma Padula.

Em 2025, cerca de 21 mil estudantes participaram dos festivais regionais do Programa Jogos de Tabuleiro. Além do xadrez, oriundo da Europa, a ação estimula a prática de outras três atividades, abordando questões históricas e culturais: Mancala Awelé (África), Jogo da Onça (América) e Jogo Go (Ásia).

Incentivo ao esporte

Convocada para a Seleção Brasileira Sub-17, Agatha vai participar dos Jogos da Juventude, no Panamá

First Down/Divulgação

A estudante Agatha Lorrany, de 16 anos, iniciou sua trajetória no flag football no CEU Paraisópolis, equipamento da prefeitura na Zona Zul da cidade. A modalidade que fará parte dos Jogos Olímpicos em 2028 é derivada do futebol americano e, sem contato físico intenso, exige trabalho em equipe, agilidade e coordenação.

Sob o treinamento do professor de Educação Física Fernando Ferreira, idealizador do projeto First Down, Agatha se destacou no esporte e foi convocada para a Seleção Brasileira Sub-17, que disputará os Jogos da Juventude de 2026, no Panamá, em abril. A competição é organizada pelo Comitê Olímpico.

Em 2025, o First Down participou de 11 eventos e teve a presença de seis atletas no Training Camp da Seleção Brasileira de Base, nas categorias masculina e feminina. Atletas do projeto também participaram do Brasileirão de Base, com jogadores emprestados que ajudaram equipes a conquistar vice-campeonatos.

Um dos destaques é Paulo César Silva Pedreira, de 17 anos, que atuou como auxiliar de coach em treinamentos do Miami Dolphins e do New England Patriots e foi homenageado pelo muralista Eduardo Kobra em um painel na capital paulista como parte das ações da NFL no Brasil.

Para Agatha, o esporte favorece a comunicação, união e empatia e, por isso, também contribui para seu desenvolvimento pessoal.

– Mudou as minhas atitudes, a relação e a interação com as pessoas. Meu sonho sempre foi competir fora do país e agora estou tendo essa oportunidade de representar o Brasil – celebra.

Atualmente, o First Down atende 52 praticantes, sendo 24 meninas e 28 meninos.

– É motivo de imenso orgulho ver nossa atleta alçar voos. Queremos ver os nossos atletas crescendo e se tornando professores do próprio projeto, árbitros e grandes profissionais – afirma Ferreira.

SERVIÇO

Projeto First Down – aulas de flag football

Local:

CEU Paraisópolis: Rua Doutor José Augusto de Souza e Silva, S/N - Jardim Parque Morumbi.

CEU Butantã: Av. Eng. Heitor Antônio Eiras Garcia, 1.870 - Jardim Esmeralda.

Datas e horários: CEU Paraisópolis: às terças e quintas-feiras, das 14h às 17h, e aos sábados, das 8h30 às 11h30. CEU Butantã: às quartas-feiras, das 14h às 16h.

Programa Jogos de Tabuleiro

Local: escolas da rede de ensino municipal

Quem pode participar: estudantes matriculados nas escolas da cidade de São Paulo, da Educação Infantil até o Ensino Médio, passando pela Educação de Jovens e Adultos.