Do show do Coldplay ao Sermão da Moinha
Seu maior desejo é ir ao show de rock alternativo da banda Coldplay. E lá você quer apenas um segundo para, se possível, um toque na mão e, quem sabe, uma selfie com o líder da banda, o vocalista Chris Martin. Você faz de tudo e realiza o sonho. Seu sonho temporal foi realizado. O abraço e a fotografia entrarão para a história de sua memória afetiva.
Agora, imagine-se transportado para um dos momentos épicos dos tempos de Jesus: uma máquina do tempo que o leva ao ano 32 ou 33 d.C., antes de sua crucificação. Pense que você foi deixado ao pé do Monte Eremos, aquele que, depois do Sermão da Montanha, passou a ser conhecido como Monte das Bem-Aventuranças, localizado na Galileia, próximo ao Mar da Galileia, entre Cafarnaum e Tabgha.
Ao pé daquela montanha, você é como os cinco mil famintos, mas também um privilegiado por presenciar o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. E, mais do que presenciar, você também come e sacia a fome.
De repente, quando você ouve Jesus proclamar (sem microfone, sem alto-falante, sem sistema de som) a sexta e a décima bem-aventuranças — “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6); “bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5:10) —, duas perguntas inquietantes o consomem:
— A que justiça Jesus, como mestre das metáforas, se refere para que os bem-aventurados saciem a fome e a sede?
Você fica angustiado, porque a resposta não vem de imediato. Seu pensamento permanece apegado à justiça retributiva humana.
Incrível! Você está lá, participando daquele momento histórico, mas ainda não está inteiramente conectado — como esteve no show da banda Coldplay —, com o propósito do maior e mais extraordinário mestre das parábolas.
Pense comigo: ao adotar como metáfora duas necessidades humanas básicas (fome e sede), Jesus as associa à justiça — valor ético fundamental das relações sociais — para chamar a atenção de que a mais importante fome e sede de justiça é a espiritual, pois está alicerçada no amor e na graça divina.
Você continua lá, ao pé da montanha das bem-aventuranças, tentando decifrar o enigma da décima metáfora. Então surge outra inquietação, ainda mais intensa: será mesmo necessário sofrer perseguição por causa da justiça para ser bem-aventurado e alcançar o Reino dos Céus?
Sua cabeça — e confesso que comigo já aconteceu isso — entra em parafuso: será que, para ser merecedor do Reino dos Céus, o Criador primeiro permite o sofrimento e, depois, conforme a nossa resiliência, concede o prêmio da justiça divina?
Aliás, essa inquietação era constante na minha imaginação nos tempos de seminário. Hoje compreendo — porque o tempo de reflexão foi decisivo para entender a condição material e espiritual de cada pessoa — que Jesus não estabelecia o sofrimento humano como pré-requisito para a bem-aventurança e para o Reino dos Céus. Se assim fosse, ele teria sido um profeta do sofrimento, e não das bem-aventuranças.
Pois bem: você ouviu atentamente as bem-aventuranças e refletiu sobre a sexta e a décima. Ali não foi um show, e você não fez uma selfie com Jesus. Mas concluiu que a metáfora sobre os perseguidos por causa da justiça é atemporal: Cristo apontou para a necessidade de vivermos de acordo com valores espirituais, conectados a Deus, em um mundo que frequentemente se opõe a eles e ainda coloca a materialidade como o maior valor da vida.
E agora a cápsula do tempo o traz de volta ao século XXI, com o desejo de ser um bem-aventurado que não viola os valores éticos da vida, mas também consciente — e espiritualmente fortalecido —, de que poderá sofrer perseguições por defender sua fé e sua esperança em Deus.
