Do palco à roda de rima: teatro e rap movimentam a agenda cultural na Zona Norte
A Zona Norte do Rio recebe, nos próximos dias, duas programações que colocam a criação artística em perspectiva. No Sesc Tijuca, o espetáculo “Adorável face de Andronieva Petrosa” parte de uma denúncia de plágio para discutir os limites entre ficção e realidade. Já na Penha, o projeto Rodas & Rimas reúne público e artistas para uma escuta coletiva de letras de rap, ampliando o debate sobre cultura, território e experiência.
Roda com Afrodite BXD
Na Penha, o rap sai do fone de ouvido e ganha roda, escuta e troca. Neste sábado, às 14h, o Estúdio Mangue recebe mais uma edição do Rodas & Rimas, projeto que reúne público, artistas e mediadores para discutir letras e vivências do hip-hop. A entrada é gratuita, com retirada antecipada on-line, e o público é convidado a doar um quilo de alimento não perecível para ações sociais.
A convidada da vez é Afrodite BXD, rapper da Baixada Fluminense em ascensão na cena fluminense. Sua música atravessa o rap, o trap e o R&B, com letras que abordam periferia, identidade, autoestima e potência feminina negra. No encontro, serão analisadas as músicas “Cerca branca” e “Laranja assassina”, ponto de partida para reflexões sobre cultura, cidade e identidade, com mediação das jornalistas Gabriela Azevedo e Gabrielle Neves, nomes ligados ao jornalismo musical e à pesquisa sobre o tema.
Lucas Freire, GTA e a cientista social Veridianna Andrade
Divulgação/Matheus Rosa
Criado em setembro de 2025 por Lucas Freire e João Lima, estudantes da Uerj e comunicadores da cultura, o Rodas & Rimas nasceu com a proposta de expandir para além da universidade debates que já aconteciam no meio acadêmico, especialmente sobre hip-hop. A dinâmica é direta: um artista é convidado, músicas são escolhidas previamente e o público participa de uma leitura coletiva das letras, com espaço aberto para comentários, perguntas e interpretações.
Desde então, o projeto já realizou cinco edições, reunindo nomes como Lis MC, VND, Tárcis, Joca e GTA.
Para João Lima, o impacto vai além do debate musical.
— O mais especial são os vínculos e ver tanta gente abraçando a ideia. Poder me aproximar de artistas que eu já admirava e trocar ideias é algo muito significativo. No fim, é isso o que mais me deixa feliz, ver que o R&R virou esse espaço de troca, afeto e conexão.
A escolha de permanecer no subúrbio é parte central da identidade do projeto, como ressalta Freire:
— Nosso primeiro objetivo era ter uma demarcação política com o lugar. Passou a fazer muito mais sentido construir um espaço de debate sobre hip-hop, política e intelectualidade negra na Zona Norte.
Para além da questão territorial, a iniciativa também busca fortalecer a relação entre rap e leitura. Em um cenário em que o consumo musical é marcado por números de streams e visualizações, o encontro presencial propõe outra lógica, mais lenta e aprofundada, centrada no texto e na escuta coletiva. Cada participante recebe as letras impressas das músicas que serão debatidas, podendo fazer anotações e acompanhar a conversa de forma ativa.
A importância desse formato já foi percebida por quem passou pela roda. O rapper VND destacou a dimensão coletiva do encontro.
— Assim como o hip-hop, o Rodas & Rimas é um movimento territorial. É importante ver como o evento junta a galera da arte, da academia e da rua — diz.
Sobre plágio e originalidade
Uma carta anônima rompe o silêncio e coloca uma atriz diante de uma pergunta incômoda: o que, afinal, é original? É a partir dessa provocação que se desenrola “Adorável face de Andronieva Petrosa”, em cartaz até 17 de maio no Sesc Tijuca, com sessões de quinta a sábado, às 19h, e domingos, às 18h. Os ingressos variam entre R$ 15 e R$ 30, com gratuidade para o público do PCG.
Em cena, Fabianna de Mello e Souza, em seu primeiro solo após mais de quatro décadas no teatro de grupo, transita entre narradora, personagem e acusada em uma narrativa que mistura humor, suspense e reflexão. A denúncia de plágio a faz revisitar uma criação dos anos 1990 inspirada em um suposto conto russo onde surge Andronieva Petrosa, mulher cujo rosto se desprende do corpo para viver outra vida. Entre tempos embaralhados e identidades instáveis, o espetáculo constrói um jogo metateatral que aproxima público e cena.
Com dramaturgia de Cecilia Ripoll e direção de Denise Stutz, a montagem investiga os limites entre ficção e realidade, além de tensionar a circulação de ideias e a autoria.
— O espetáculo nasceu de um processo colaborativo, a partir de encontros e improvisações que nos levaram à questão do plágio e das fronteiras entre realidade e ficção. O trabalho segue aberto e vivo — diz Denise.
A inquietação também move a escrita, como explica Cecilia:
— A criação partiu da inquietação sobre autoria e da sensação de que as ideias nunca são totalmente nossas.
Para Fabianna, o solo dialoga com sua trajetória:
— É uma reflexão sobre o ofício da atriz e sobre autoria nos dias de hoje.
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