Do Morro do Palácio, em Niterói, fotógrafo enxerga o mundo: trabalho de Josemias Moreira já foi exposto no Japão e nos EUA
É de lá de cima, no Morro do Palácio, que Josemias Moreira enxerga o mundo, de terra tão grande como outra qualquer— com um único olho, pois um acidente com uma vareta de cafifa lhe custou a visão do outro, quando tinha apenas 1 ano. Hoje, esse percurso ganha forma na exposição “Orgulho da mamãe”, em cartaz até o próximo dia 20 no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Icaraí, reunindo imagens que carregam um recorte íntimo: são fotografias que sua mãe, Shirley Batista, viu em vida. Para o fotógrafo, a mostra é uma homenagem direta à mulher que sustentou a família e acompanhou, ainda que à distância, o início da trajetória do filho nas artes visuais.
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— Minha mãe nunca pôde ir presencialmente a nenhuma exposição minha, porque quando comecei de fato buscar esse espaço, em 2020, ela já estava muito doente, sem poder se levantar. Tem foto boa, tem foto ruim, tem foto de que eu nem gosto mais. Mas minha mãe viu. E o nome era uma frase que ela sempre me dizia, “Você é o orgulho da mamãe” — relembra.
O fotógrafo, que já teve o trabalho exposto em países como Japão e Estados Unidos e em parte da Europa, nunca saiu do país por medo de voar: “Bicho da terra não voa”, diz ele. O encontro com a fotografia aconteceu no fim da década de 1990, quando Josemias participou do projeto Arte e Ação Ambiental, realizado no MAC, na época sob a direção de Guilherme Vergara. Durante as aulas, ainda adolescente, teve contato com uma câmera digital simples, uma CyberShot da Sony emprestada pelo projeto e compartilhada entre dezenas de jovens, como faz questão de frisar. Numa aula de campo, cada participante podia fazer apenas dois registros. Diferentemente dos colegas, que priorizavam retratos posados, ele decidiu apontar a lente para a copa das árvores.
Pouco depois, numa ida de barco a uma ilha na Praia da Boa Viagem com amigos, Josemias pediu que um deles, Eduardo Lopes, fotografasse o que estava vendo: ele mesmo sentado numa pedra, olhando para o mar, com a comunidade ao fundo.
— Eu não dei um clique, mas a foto é minha — diz.
Veja obras do fotógrafo Josemias Moreira, nascido no Morro do Palácio, em Niterói
E essa foi a foto que fez tudo mudar. A imagem foi parar nas mãos de Guilherme Vergara, que levou o trabalho para uma exposição no Brooklyn (EUA), em 2000.
Apesar do impulso inicial, a fotografia ficou em segundo plano por alguns anos, interrompida pela falta de equipamento e pela necessidade de trabalhar em diferentes frentes — da produção de papel artesanal a oficinas em projetos sociais na Baixada Fluminense. O retorno viria já no Centro Cultural Maquinho, espaço onde atuou como educador e, posteriormente, vigia. Foi ali que participou de uma oficina ministrada pelo fotógrafo e arquiteto Paulo Batelli, responsável por lhe presentear com a primeira câmera profissional. Em troca, pediu apenas cliques.
O dia a dia no morro
Com o novo equipamento, Josemias passou a documentar o cotidiano do Palácio com regularidade. O resultado desse processo foi a série “Aqui é o Palácio”, iniciada em 2020, às vésperas da pandemia de Covid-19. A série deslanchou após uma visita de estudantes de arquitetura da UFF ao Maquinho. O professor João Lutz e outros pesquisadores, ao conhecerem o trabalho, se ofereceram para bancar a impressão com recursos de um projeto da universidade. A primeira exposição foi no Sítio Bibo, em São Paulo. De lá, “Aqui é o Palácio” rodou o Museu Janete Costa, o Solar do Jambeiro, o MAC, o Centro de Artes UFF e a Biblioteca Parque. Depois cruzou o Atlântico e chegou a Nova York, ao Reino Unido, à França e ao Japão. Mas faltava um lugar: o Morro do Palácio. Somente em 2023 isso se tornou realidade.
— Parecia uma sina. As fotos tinham rodado em todos os lugares, mas nunca tinham vindo para cá. Como trabalhava no Maquinho, consegui um espaço. Foi emocionante ver todo mundo lá. Hoje sei que tenho público que ultrapassa as pessoas do asfalto — revela.
Foi também nesse período que o fotógrafo passou a refletir sobre a própria condição física. Ele perdeu a visão de um dos olhos ainda na infância, mas só se reconheceu como pessoa com deficiência anos depois, durante um evento em que seu trabalho era analisado. Observadores apontaram a recorrência de áreas escuras no lado esquerdo das imagens — característica que ele nunca havia sistematizado conscientemente, mas que passou a incorporar como elemento estético.
A consagração de “Aqui é o Palácio” consolidou Josemias como um dos principais nomes da fotografia produzida nas periferias de Niterói. A exposição, definida por ele como “corpo” de sua obra, deu origem a outros projetos que funcionam como desdobramentos — entre eles, “Orgulho da mamãe”.
Josemias também está à frente da criação da Galeria Joia, iniciativa independente que nasceu em 2025 no Morro do Palácio com o objetivo de ampliar o acesso à arte e dar visibilidade a artistas que, segundo ele, historicamente foram ignorados pelos circuitos tradicionais. Idealizada em parceria com outros produtores culturais, como Matheus Café e Desirée Cruz, a galeria funciona como um espaço coletivo de formação, exposição e circulação de trabalhos, reunindo nomes da periferia, artistas negros, trans e iniciantes. Mais do que exibir obras, o projeto aposta na formação: a proposta inclui oficinas, processos criativos compartilhados e exposições construídas a partir do aprendizado, como no caso de atividades com crianças da comunidade.
— A ideia é dar voz a quem ninguém quer escutar. Mostrar que tem muita gente boa produzindo arte e que só precisa de oportunidade — resume.
O reconhecimento como fotógrafo transformou também a forma como Josemias é visto dentro do Morro do Palácio, onde passou de alvo de desconfiança a referência para moradores de diferentes gerações. Hoje, é chamado de Josemias, o Brabo, apelido que, segundo ele, nasceu do próprio olhar da comunidade sobre sua trajetória e seu trabalho.
— Sou respeitado pelo que construí. As mães deixam os filhos comigo e confiam no meu olhar quando peço para fazer cliques — afirma.
Essa relação íntima com o território aparece diretamente nas imagens que produz, como a sequência de um menino saltando de uma pedra na Praia da Boa Viagem. A cena, que exige precisão no tempo do clique, não foi improvisada: Josemias conhecia exatamente o movimento.
—Já sabia que ele ia pular dali, porque eu também já pulei, meu pai também. Eu só esperei o momento certo— conta, resumindo uma fotografia que mistura memória, experiência e pertencimento.
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