Do improviso à estratégia: como a IA virou aliada de empreendedores nas favelas do Rio

 

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No meio da correria de um evento cheio, entre pedidos, clientes e decisões rápidas, uma resposta pronta no celular pode fazer diferença. Foi assim que o empreendedor Luciano Moraes, da Tapioca da Ari, criou em poucos minutos um conteúdo para redes sociais, com imagem, chamada e link direto para votação. Tudo ali, no improviso do dia a dia, com ajuda do ChatGPT.

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A cena, que se repetiu durante o Favela Gastronômica, na Praça de Inhaúma, realizado este mês, revela uma transformação que começa a ganhar espaço nos pequenos negócios das favelas cariocas: o uso da inteligência artificial como ferramenta prática de trabalho.

Alguns dias antes do evento, 25 empreendedores de diferentes comunidades participaram de um treinamento no Complexo do Alemão voltado justamente para isso. A iniciativa foi realizada pela OpenAI em parceria com o Voz das Comunidades, projeto liderado por Rene Silva, e integrou a programação do Favela Gastronômica, que conecta gastronomia, cultura e geração de renda na Zona Norte.

Allana integra a nova geração de empreendedores das favelas: participação no Favela Gastronômica

Divulgação/Leo Nogueira

Durante a capacitação, o ponto de partida foi direto: o ChatGPT não substitui o empreendedor, mas funciona como apoio para ampliar o que já existe. A ideia de “braço direito” apareceu como conceito central, uma ferramenta capaz de auxiliar em diferentes frentes do negócio, do cardápio ao atendimento.

Na prática, os participantes aprenderam a usar a ferramenta para gerar textos, organizar informações em tabelas, criar imagens e analisar decisões do dia a dia, como precificação e estratégias de venda. Também foram apresentados a uma estrutura simples para melhorar os resultados. Primeiro, definir com clareza o que querem. Depois, oferecer contexto sobre o negócio. Por fim, indicar o formato da resposta.

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A lógica é que, quanto mais informação o empreendedor fornece, mais útil e personalizado é o retorno. Um pedido genérico tende a gerar respostas padrão. Já um comando com detalhes sobre público, produto e rotina resulta em soluções aplicáveis ao dia a dia.

Empreendedores de gastronomia em aula sobre uso do ChatGPT no Complexo do Alemão

Divulgação/Leo Nogueira

Outro recurso destacado foi o uso por voz, pensado para a rotina de quem trabalha em movimento. A ferramenta pode ser acionada enquanto o empreendedor cozinha, organiza a barraca ou se desloca para compras, sem a necessidade de digitar.

Ao final, os participantes receberam um guia com comandos prontos adaptados à realidade de pequenos negócios de alimentação, incluindo modelos para criação de cardápios, mensagens de WhatsApp, imagens de produtos e estratégias para aumentar vendas.

Head de Comunidades, Influencers e Talento da OpenAI na América Latina, Christian Rôças explica que o ponto de partida foi ouvir quem está na ponta.

— A ideia foi entender como a IA poderia potencializar o que esses empreendedores já fazem todos os dias, conectando a tecnologia à realidade deles de um jeito útil e aplicável — diz.

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Segundo ele, quando a ferramenta faz sentido, a adesão é imediata:

— Tarefas que antes levavam horas passam a ser resolvidas em minutos, o que gera mais autonomia, economia de tempo e confiança para testar novas ideias.

Outro ponto central é o acesso. A ferramenta pode ser usada diretamente pelo celular, com versão gratuita capaz de atender a boa parte das demandas dos pequenos negócios, o que reduz barreiras de entrada e facilita a adoção no cotidiano.

A iniciativa faz parte de um esforço mais amplo da empresa para ampliar o acesso à inteligência artificial no Brasil, com foco em capacitação prática e uso em contextos reais. Ao se associar a projetos já consolidados nas comunidades, como o Favela Gastronômica, a estratégia é inserir a IA onde a economia local já está em movimento.

— Parcerias com iniciativas locais nos permitem levar esse tipo de formação a diferentes públicos, conectando a tecnologia a quem já movimenta a economia das comunidades — afirma Rôças.

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Para Rene Silva, o movimento também é uma forma de reduzir distâncias em um cenário de transformação digital acelerada.

— A gente está vendo o avanço da tecnologia no mundo inteiro e precisa acompanhar. A inteligência artificial ajuda esses empreendedores a olharem para o futuro e planejarem melhor o crescimento dos seus negócios — diz.

Ele destaca ainda uma mudança no uso da ferramenta:

— Muitos utilizavam o ChatGPT apenas para criar imagens. Depois do treinamento, passaram a enxergar aplicações no planejamento, na organização e na gestão do dia a dia.

Durante o próprio Favela Gastronômica, esse aprendizado foi colocado em prática em um ambiente de grande circulação de público, onde visibilidade, agilidade e comunicação fazem diferença direta no desempenho dos negócios.

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Na prática, esse aprendizado já aparece nos negócios. Como no caso de Ariane de Moraes, de 39 anos, que começou a vender tapioca dentro de casa, em 2018, ao lado do marido, Luciano Moraes. O que era uma renda extra virou barraca na feira em Nova Brasília, no Alemão, e depois uma loja própria, aberta em plena pandemia.

Hoje, a inteligência artificial faz parte da operação.

— O ChatGPT virou um funcionário múltiplo. Ajuda a criar cardápio, pensar estratégia, melhorar a comunicação e organizar o atendimento — conta Moraes, responsável pelo marketing da Tapioca da Ari.

No dia a dia, a ferramenta se tornou apoio constante em diferentes etapas do trabalho, da divulgação à relação com os clientes.

— A gente usa para tudo. Legenda, imagem, resposta para cliente, ideias para vender mais. Isso otimiza o nosso tempo — afirma.

Mesmo com a rotina intensa, que começa cedo e passa por compras, produção e atendimento, o ganho aparece na organização e na agilidade.

— O tempo continua curto, mas agora a gente consegue fazer mais coisa no mesmo dia e com resultado melhor — diz.

A transformação também passa pela trajetória de Alana Soares, de 35 anos, moradora da Fazendinha, no Complexo do Alemão, chef de cozinha e fundadora da Star Open Food. O negócio surgiu após a maternidade, quando ela decidiu empreender para sustentar a família.

Sem formação na área no início, Alana enfrentou na falta de conhecimento o principal obstáculo. Com o tempo, buscou qualificação profissional e se formou no Instituto Gastronômico das Américas e no Le Cordon Bleu. Hoje, com a ajuda da IA, reorganiza a rotina e ganha velocidade em etapas centrais do trabalho.

— Hoje eu consigo fazer com muita rapidez algo que antes era demorado, criar menus personalizados. Eu descrevo o evento, a proposta e o tipo de cliente, e o ChatGPT organiza tudo para mim. Já envio direto, recebo aprovação mais rápido, e isso tornou meu trabalho mais ágil e rentável — conta ela.

O impacto também aparece no atendimento e na forma de apresentar o serviço.

— A agilidade e a eficiência aumentaram muito, principalmente na forma como eu respondo aos clientes e apresento minhas propostas — diz.

Durante o treinamento, novas possibilidades se abriram, especialmente no uso de imagem.

— Conseguir melhorar ou recriar fotos com qualidade foi uma virada de chave, principalmente para quem trabalha com eventos — comenta Alana, acrescentando que os efeitos foram imediatos. — Comecei a aplicar os prompts no Instagram e já senti diferença no engajamento e na forma de apresentar meu trabalho.

Mãe de dois filhos, Alana vê no empreendedorismo uma extensão da própria trajetória:

— Foi a maternidade que me fez empreender. Meus filhos são minha base e minha maior motivação.

E resume o impacto da mudança no próprio negócio.

— Hoje eu trabalho com mais agilidade e mais organização e consigo responder melhor às oportunidades que aparecem — diz.

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