Do entretenimento à educação, escritores e criadores de conteúdo tentam fisgar os jovens na era da segunda tela
A imensidão de conteúdo na internet proporciona, ao mesmo tempo, diversidade e um excesso de estímulos que embaralha o raciocínio e dificulta a assimilação de ideias. Na era da atenção fragmentada, em que as telas disputam o protagonismo com qualquer evento, escritores e roteiristas explicaram, no Rio2C, suas estratégias de “como criar para mentes distraídas”, do entretenimento à divulgação científica.
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A escritora Thalita Rebouças absorveu a linguagem do celular em seus livros. Assim, memes, gírias, danças de TikTok e a própria estética da tela do chat são reproduzidos em suas obras. Mesmo admitindo que a segunda tela é um caminho sem volta, ela considera que a identificação entre personagens e leitores ou espectadores é a chave do sucesso.
— Quando os adolescentes se sentem respeitados e se identificam com o que está sendo contado, seja em filme, livro ou peça de teatro, eles vão ficar. Histórias boas são histórias simples, não precisa de muita pirotecnia — afirmou Thalita, cujos livros já venderam mais de 2 milhões de cópias no Brasil. — Celular é um caminho sem volta, então temos que usar ele a nosso favor.
Cortes como farol
No painel, o roteirista Raul Perez contou sobre o dia em que perguntou ao seu afilhado se ele via a série que escreveu, “Sintonia”, da Netflix. Para sua surpresa, o afilhado não via a série, mas sabia todas as principais cenas. Como? Através de cortes de TikTok. Passado o choque inicial, Perez se aprofundou no universo "Tiktokiano" para aprimorar seu trabalho, usando a repercussão como um termômetro de seus roteiros.
— Os cortes te dizem para onde a audiência está apontando. Consegui entender como usar isso como um recurso — explicou o roteirista. — A gente pensa em juventude, mas todos nós somos mentes distraídas.
Já Pedro Ivo, escritor e ilustrador de quadrinhos e roteirista de games, acredita que a tarefa de seduzir o espectador não se alterou tanto, e que o excesso de informação nas redes hoje pode até ser positivo, com uma oferta de assuntos e obras inimaginável nos seus tempos de criança.
— O mundo é de aparente dispersão, mas as pessoas estão assimilando a informação, estão o tempo todo pensando. Na minha infância, eu tinha três gibis disponíveis por mês, agora temos uma infinidade — disse Ivo, que aposta no aumento da interatividade como futuro do audiovisual e destaca a complexidade de roteiros e estéticas dos novos games. — Nunca a narrativa, a forma de se contar a coisa, foi tão importante.
Apesar das imposições do mercado, e dos desafios dos tempos modernos, os debatedores frisaram que a liberdade artística ainda é respeitada. Perez destacou, inclusive, que aumentou a demanda por ideias mais criativas.
— Sempre que a arte me desafiou, eu quis consumir mais arte. Precisamos de ousadia, não queremos ver a mesma coisa, existe uma saturação. Então o que tento levar para o meu trabalho é a ousadia, e o que existe de inédito. E nunca deixar de apostar que as pessoas são inteligentes, e têm fome e curiosidade.
Armadilhas do algoritmo
Se o entretenimento sofre com a distração das mentes, o desafio para ser bem-sucedido com conteúdo de educação é ainda maior. Esse foi um aspecto abordado pelos criadores Felipe Castanhari e Kananda Eller no Rio2C. Apesar da descentralização da produção de conhecimento, eles falaram da preocupação com a epidemia de desinformação e as armadilhas do algoritmo.
O primeiro vídeo de Kananda (@deusacientista), professora de química, foi sobre mulheres na ciência, mas ela logo sentiu a necessidade de falar para além da ciência formal. A virada de chave aconteceu na pandemia, quando refletiu sobre a primeira vítima fatal da Covid-19 no Brasil, uma empregada doméstica que havia contraído o vírus no Leblon, onde trabalhava.
— Isso expõe a desigualdade social do nosso país, que começa na produção de conhecimento. Por isso, vou para a internet falar sobre ciência, para as pessoas ao meu redor se apropriarem desse conhecimento para salvar suas vidas— disse.
Kananda começou com vídeos longos no YouTube, mas então se deparou com a lógica das métricas e a exigência de entregar vídeos curtos. Mesmo admitindo a “superficialidade” do conteúdo, ela destaca a vantagem de aguçar a curiosidade dos jovens.
— Eu já peguei material de 100 páginas para fazer um vídeo de 30 segundos. Muitas vezes você não vai educar profundamente aquela pessoa, mas desperta algum nível de interesse no assunto.
Já Castanhari iniciou seu canal Nostalgia antes da era dos “shorts”, mas seguiu com vídeos longos, de cerca de uma hora. Com linguagem mais acessível, ele aborda temas de ciência e história.
— Quero simplificar assuntos complexos, tentar trazer informação de qualidade com responsabilidade, aliando isso ao entretenimento — explicou Castanhari, que criticou a chamada "epidemia da desinformação". — A responsabilidade tem que ser compartilhada entre criador, plataforma e legisladores. O sensacionalismo prende muito mais fácil do que a informação checada, então essa cultura de consumo desenfreada e desregulamentada é perigosa.
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