No Dia de Finados, o Brasil visita túmulos; no México e no Japão, os mortos vêm para casa. Velas, flores, lanternas e até IA mostram como cada cultura mantém viva a memória dos que partiram.
Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria. Em 72 horas, o planeta inteiro fez a mesma coisa: lembrou os mortos.
No sábado (31/10), a véspera de Todos os Santos, que a Reforma e o Halloween disputam. No domingo, Todos os Santos, o Día de Muertos e o Undas filipino.
Hoje, Finados. Cada cultura faz do seu jeito, mas quase todas escolhem as mesmas coisas: luz, comida e volta para casa.
A coluna de sábado falou do Reformationstag. Faltava dizer que as 95 teses falavam de mortos.
Lutero escolheu a véspera de Todos os Santos porque a Igreja do Castelo de Wittenberg expunha, nesse dia, a coleção de relíquias do eleitor Frederico, o Sábio, e quem as via ganhava indulgências, descontos de tempo no purgatório. O inventário da época chegava a prometer 1.902.202 anos e 270 dias a menos.
As teses atacam justamente a ideia de que dinheiro tira almas do purgatório, e uma delas pergunta por que o papa não esvazia o purgatório por amor. A Reforma, em parte, foi uma discussão sobre os mortos.
(Ninguém tem prova de que Lutero tenha mesmo pregado as teses na porta.) Curiosamente, nos países luteranos como Suécia e Finlândia, Todos os Santos continua feriado, num sábado. Ir ao túmulo.
Em 2 de novembro, o Brasil tem feriado desde um decreto de 1890, hoje na Lei 662/1949. Este ano cai numa segunda, e dá feriadão.
A tradição são missas, velas e crisântemos. Em Governador Valadares (MG), por exemplo, se esperam mais de 30 mil pessoas nos cemitérios.
Na Europa, Todos os Santos (1º/11) é feriado na França, Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, Polônia e Hungria, entre outros. Na França, o crisântemo é tão ligado à data que quase ninguém o dá de presente em outra ocasião.
Na Polônia, o país inteiro acende os znicze, as velas de cemitério, e, segundo estimativas de 2017, o país compra cerca de 300 milhões por ano e produz quase dois terços das velas do mundo. Em 2026, o 1º/11 cai num domingo, com comércio fechado.
Nas Filipinas, o Undas é o feriado dos cemitérios: 1º e 2 de novembro são dias especiais sem trabalho, e o governo incluiu o dia 2 “para fortalecer os laços familiares”. Só o Cemitério Norte de Manila recebeu mais de 1 milhão de visitantes no 1º de novembro do ano passado, e os carros ficam proibidos lá dentro.
Na China, o Qingming (5 de abril em 2026) é feriado oficial desde 2008 e tem mais de 2.500 anos. Em 2026, as novidades foram o primeiro recesso escolar de primavera, que esticou o feriado, e a tecnologia: cemitérios com túmulos digitais por QR code, avatares com IA dos mortos e oferendas “verdes”, com flores frescas no lugar de papel queimado.
Receber em casa. No Japão, o Obon (13 a 16 de agosto na maior parte do país) é o momento em que os espíritos dos antepassados voltam para casa.
Acendem-se fogueiras de boas-vindas, limpam-se os túmulos e, para a viagem, a tradição manda um cavalo de pepino, que traz os espíritos depressa, e um boi de berinjela, que os leva de volta devagar. No fim, lanternas flutuam nos rios.
É a segunda maior corrida de viagens do ano, depois do Ano-Novo. No México, o Día de Muertos (1º e 2 de novembro) põe os mortos para jantar, com ofrendas, flores de cempasúchil e fotos.
A Concanaco calcula que a festa mova 53 bilhões de pesos no país, de 25 de outubro a 2 de novembro, e neste ano ela coincide com o GP de F1 na Cidade do México. Nenhuma sociedade deixa a saudade só no sentimento.
Todas têm cadeia de suprimentos: velas na Polônia, flores no Brasil e na França, passagens no Japão, comida e flores no México, tecnologia na China. A morte, no fim, move mais gente, comércio e transporte do que quase qualquer data.
Luz: velas, lanternas, fogueiras. Comida: ofrendas, picnics nos cemitérios filipinos, bois de berinjela.
Volta para casa: poloneses, filipinos e japoneses atravessam o país para ver um túmulo. O morto, no fundo, é o melhor organizador de reuniões de família.
Os calendários mudam: o Qingming é solar, o Obon segue o ciclo lunar, Finados e Todos os Santos seguem a liturgia. A tecnologia muda: do papel queimado ao avatar com IA.
O gesto não muda. Quem for hoje ao cemitério levar um crisântemo estará fazendo o mesmo que um polonês com sua vela, um japonês com seu cavalo de pepino e um mexicano com sua mesa posta.
Cada um à sua maneira, o planeta inteiro dedica uma parte do ano a dizer a mesma coisa: ainda estamos aqui, e lembramos de vocês.
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