Do barulho da Avenida Brasil ao canto das aves: fazendinha urbana inicia visitas gratuitas na Zona Norte

 

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Antes mesmo de avistar os canteiros, é o som que muda tudo. O ruído constante dos carros dá lugar ao canto de mais de 80 espécies de aves. A poucos metros da Avenida Brasil, uma das vias mais movimentadas do país, o ambiente sugere outro ritmo: mais próximo do interior do que de uma metrópole.

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É nesse contraste que funciona a Fazendinha Sesc Senac, na Penha, uma área verde preservada instalada em Área de Proteção Ambiental (APA) que agora passa a receber oficialmente grupos interessados em vivenciar práticas de sustentabilidade e agroecologia.

O Sesc RJ abriu chamamento público para institucionalizar as visitas pedagógicas guiadas à horta agroecológica do espaço, transformando em política permanente uma atividade realizada desde 2024 com crianças e adolescentes.

Em uma área total de 1.420 metros quadrados — sendo 1.260 metros quadrados de área plantada —, visitantes acompanham o ciclo completo dos alimentos, da germinação à colheita, e participam de atividades sobre compostagem, alimentação consciente, cultivo em pequenos espaços e soluções ambientais aplicáveis ao cotidiano urbano.

Grupo percorre trilha ecológica da Fazendinha durante roteiro de educação ambiental

Divulgação/Sesc RJ

O espaço abriga ainda o Parque Ciência a Céu Aberto, uma trilha ecológica de 700 metros e a área de cuidado animal sob responsabilidade da Sociedade Nacional de Agricultura. A unidade recebe, em média, 3.220 visitantes por mês, entre público espontâneo e escolas.

Toda a produção da horta é destinada ao Sesc Mesa Brasil, que atende centenas de instituições socioassistenciais em todo o estado.

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Segundo Nathallia Miranda, coordenadora de Sustentabilidade do Sesc RJ, cada visita é pensada como uma jornada de aprendizagem prática.

— Tudo começa com um agendamento prévio e orientações de boas práticas no espaço. Iniciamos apresentando a unidade e seguimos por uma trilha ecológica, onde falamos sobre preservação das florestas e o ecossistema local. Ao fim da trilha, entramos na área de cuidado animal, administrada pela Sociedade Nacional de Agricultura. Depois retornamos à horta, onde os visitantes aprendem agroecologia participando de oficinas de plantio, com a mão na terra, artesanato com materiais reaproveitados e vivências no Parque Ciência a Céu Aberto, aprendendo conceitos básicos de física de forma lúdica — diz.

Crianças participam de oficina de plantio e vivenciam conceitos de sustentabilidade

Divulgação/Sesc RJ

O contato direto com o cultivo muda a percepção das crianças sobre o alimento.

— A reação mais comum é espanto e curiosidade, porque a maioria nunca teve contato com uma horta. Quando perguntamos de onde vêm os alimentos, costumam responder que vêm do supermercado — conta Nathallia.

Para quem visita pela primeira vez, o impacto é imediato.

— As pessoas ficam impressionadas ao descobrir que existe uma área verde preservada e produtiva, com características rurais, no coração da Zona Norte, tão próxima da Avenida Brasil — frisa.

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A proposta pedagógica aposta na experiência concreta.

— Muda totalmente a vivência do aluno, porque é uma experiência real. Isso ajuda a reduzir níveis de estresse e ansiedade e ainda fortalece o sistema imunológico ao expor as crianças a diferentes micro-organismos — afirma Nathallia.

Jovens aprendem sobre insetos em atividade guiada

Divulgação

Entre as técnicas agroecológicas ensinadas e que podem ser replicadas em casa estão compostagem, forração do solo com composto verde, permacultura — com o conceito de plantas companheiras e antagônicas —, irrigação sustentável e hortas verticais ou em pequenos espaços.

Os alimentos mais cultivados são folhosas, raízes e tubérculos nativos. Por diretriz conceitual e pedagógica, o espaço também prioriza o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc) e de árvores frutíferas nativas da Mata Atlântica.

Em 2025, foi doada 1,5 tonelada de alimentos. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, a colheita já contribuiu para complementar mais de 2.500 refeições destinadas a pessoas em situação de vulnerabilidade. Em 2026, a produção soma 928,6 quilos.

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Entre as estratégias de sustentabilidade está o sistema de captação de águas pluviais. São 12 coletores com capacidade de mil litros cada, totalizando armazenamento de 12 mil litros. Instalado no fim de 2025, o sistema está em fase de testes.

Experimentos recentes indicam que os reservatórios conseguem irrigar a horta por quatro dias consecutivos sem reabastecimento. Técnicas de forração do solo e irrigação por gotejamento estão sendo incorporadas para reduzir ainda mais o consumo de água.

A compostagem é feita com resíduos vegetais oriundos de capina, poda e limpeza dos canteiros. O espaço conta com três leiras de compostagem verde, com capacidade de 200 quilos por unidade. Ali são produzidos cerca de 50 quilos de composto orgânico por mês, utilizado como adubo natural na própria horta.

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Manter uma área produtiva e de preservação ambiental em meio a uma das regiões mais urbanizadas da cidade exige adaptação diária. Cercada por moradias densas e vias asfaltadas, a horta convive com efeitos típicos do ambiente urbano, como temperaturas mais altas e pressão sobre os recursos naturais.

— Sofremos os efeitos da ilha de calor formada por moradias e pistas asfaltadas, somadas à poluição gerada por veículos. Também enfrentamos ações antrópicas por vezes degradantes, o que torna vital a mudança de comportamento das pessoas. Isso nos dá a oportunidade de sermos agentes multiplicadores de conhecimento agroecológico e sustentabilidade no território — afirma Nathallia.

Mesmo próxima à via expressa, a área preservada funciona como barreira natural.

— As árvores dentro da APA filtram o ar e abafam o som urbano. O ruído dos veículos é substituído pelo canto das aves, proporcionando a sensação de estar em uma fazendinha de cidade do interior — diz ela.

Para Antonio Florencio de Queiroz Junior, presidente do Sistema Fecomércio RJ, responsabilidade ambiental e eficiência econômica caminham juntas:

— Quando falamos em responsabilidade ambiental, falamos também de eficiência econômica. O desperdício aumenta despesas e reduz resultados. Já o reaproveitamento inteligente transforma custo em oportunidade.

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Ele cita como exemplo resíduos orgânicos recolhidos no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, que foram destinados à compostagem e transformados em adubo utilizado na horta. Materiais recicláveis e fantasias também ganharam novos usos e geraram renda.

A Fazendinha Sesc Senac integra a estratégia de sustentabilidade institucional do Sesc RJ. Em 2023, a entidade tornou-se signatária do Pacto Global da ONU.

Também há previsão de ampliação da estrutura física e produtiva.

— Estamos otimizando o espaço com técnicas de plantio não habituais, como horta vertical, hortas em módulos de um metro quadrado, adensamento com pomar de árvores nativas da Mata Atlântica, aquaponia, irrigação por gotejamento e aproveitamento da água da chuva. Vamos introduzir abelhas nativas sem ferrão para polinização e atividades pedagógicas, além de equipamentos de eficiência energética — anuncia Nathallia. — Também vamos expandir as salas de aula para ampliar a oferta de cursos, workshops e oficinas.

As visitas guiadas acontecem na Rua Comandante Vergueiro da Cruz 480, na Penha. O agendamento deve ser feito pelo e-mail fazendinha@sescrio.org.br . A participação é gratuita, mediante marcação prévia, e voltada a escolas públicas e privadas, ONGs, associações e demais instituições interessadas. As atividades ocorrem de terça a sexta, das 9h às 17h; e aos sábados, das 9h às 16h.

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