DNA, células e tecidos: o que vai dentro do cofre do fim do mundo

 

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Em meio a alertas cada vez mais frequentes sobre a aceleração da extinção de espécies, uma iniciativa de escala inédita tenta responder a uma pergunta incômoda: o que ainda pode ser salvo se a natureza falhar? A empresa de biotecnologia Colossal Biosciences anunciou a criação de um gigantesco repositório genético que vem sendo apelidado de “cofre do fim do mundo”, concebido para preservar material biológico de milhares de espécies animais.

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O projeto prevê o armazenamento de DNA, células vivas e tecidos de até 10 mil espécies, incluindo animais ameaçados de extinção e até espécies já desaparecidas da natureza. A proposta é funcionar como uma espécie de “backup da vida”, reunindo informações genéticas que, em tese, poderiam ser usadas no futuro para pesquisas científicas, programas avançados de conservação ou intervenções biotecnológicas ainda em desenvolvimento.

O cofre será instalado em Dubai, dentro do Museum of the Future, em parceria com autoridades dos Emirados Árabes Unidos. O local foi escolhido tanto pela infraestrutura tecnológica quanto pelo simbolismo: um museu dedicado ao futuro abrigando um projeto pensado para um cenário de colapso ambiental.

O que, exatamente, será preservado

Diferentemente de bancos tradicionais de sementes ou coleções zoológicas, o cofre da Colossal pretende reunir material genético em nível molecular. As amostras incluem sequências completas de DNA, células reprodutivas, tecidos congelados e dados genômicos associados a cada espécie.

Esses materiais serão mantidos em ambientes criogênicos, sob temperaturas extremamente baixas, e catalogados em um banco de dados digital. Segundo a empresa, o objetivo é criar um acervo acessível a pesquisadores e instituições de conservação ao redor do mundo, permitindo estudos comparativos, monitoramento genético e desenvolvimento de novas estratégias para preservar a biodiversidade.

A iniciativa parte de uma constatação pragmática: diante de fatores como mudanças climáticas, desmatamento, poluição e expansão urbana, nem todas as espécies conseguirão ser protegidas apenas com a preservação de seus habitats naturais.

Desextinção e controvérsia

O anúncio do cofre não pode ser dissociado do histórico da Colossal. A empresa ganhou projeção internacional ao investir em projetos ligados à chamada desextinção, um campo controverso que busca reintroduzir características genéticas de espécies extintas em animais vivos geneticamente próximos.

Entre os exemplos mais conhecidos estão pesquisas para recriar traços do mamute-lanoso a partir do DNA do elefante asiático, além de experimentos que simulam espécies pré-históricas por meio de edição genética. O novo cofre ampliaria significativamente o material disponível para esse tipo de pesquisa.

Especialistas, no entanto, fazem ressalvas. Para muitos cientistas, o termo “desextinção” é impreciso: os organismos criados até hoje não seriam réplicas fiéis de espécies extintas, mas híbridos geneticamente modificados que reproduzem apenas algumas de suas características originais.

É nesse ponto que o projeto desperta maior controvérsia. Críticos argumentam que iniciativas desse tipo podem transmitir a ideia de que a tecnologia será capaz de reparar, no futuro, os danos ambientais causados no presente. O temor é que grandes investimentos em biotecnologia acabem desviando recursos de ações consideradas mais urgentes, como a preservação de ecossistemas, o combate ao desmatamento e a redução das emissões de carbono.