Djin Sganzerla lança 'thriller social' sobre violência contra a mulher e submundo da dark web

 

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Seis anos após sua estreia como cineasta, com “Mulher oceano” (2020), Djin Sganzerla volta a se sentar na cadeira de diretora em “Eclipse”, drama que chega hoje aos cinemas brasileiros após passagem por eventos como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o San Diego Latino Film Festival e o Istanbul International Spring Film Festival.

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A trama acompanha Cleo (a própria Djin Sganzerla), uma astrônoma que vive os últimos meses de sua gravidez. Em um casamento aparentemente perfeito com o marido atencioso (Sergio Guizé), ela tem a rotina abalada pela chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã de origem indígena, que revela um trauma vivido na infância. Ao mesmo tempo que tenta digerir o segredo da irmã, a mulher começa a desconfiar do comportamento do marido ao descobrir que ele passa parte de seu tempo em sites da dark web.

— O filme nasce da vontade de mergulhar no feminino, algo muito importante para mim. Li uma história sobre uma mulher que vivia um relacionamento perfeito com o marido, um policial americano, até que entrou no computador dele e descobriu que ele frequentava um site em que fantasiava em detalhes sobre assassinar sua mulher — conta a diretora, de 49 anos, que escreveu o roteiro ao lado de Vana Medeiros. — Ela se separou e o denunciou à Justiça, mas ele não foi condenado.

‘Caminho mais reflexivo’

Djin Sganzerla lembra que, enquanto trabalhava no roteiro, também surgiram casos como o do jogador de futebol Robinho, condenado por participação em estupro coletivo, e de Gisèle Pelicot, francesa que foi dopada e estuprada sucessivamente pelo marido e por mais de 50 homens ao longo de um tempo que excedeu uma década.

Para contar a história que escolheu, a diretora se apodera de elementos do drama, do suspense e da ação, bem diferente do caminho “mais reflexivo”, como ela descreve o primeiro longa.

— Em “Eclipse”, eu queria de fato explorar um thriller e as sensações que o espectador tem quando assiste a um filme do gênero: o suspense, o incômodo, as pistas falsas. Mas não queria que fosse um thriller vazio, apenas pelo entretenimento. Sempre soube que queria fazer um thriller social — diz a diretora, que cita o americano Jordan Peele, de “Corra” (2017), como uma referência. — Acho que o Jordan faz um trabalho extraordinário nesse aspecto, tocando em temas importantes com obras em que você embarca completamente do ponto de vista estético, político e sensorial.

Filha de duas icônicas figuras do chamado cinema marginal brasileiro, o diretor Rogério Sganzerla (1946-2004), responsável por clássicos como “O bandido da luz vermelha” (1968), e a atriz e diretora Helena Ignez, estrela de obras como “O padre e a moça” (1966) e “A mulher de todos” (1969), Djin Sganzerla explica que não pretende deixar a carreira de atriz em detrimento da direção, e diz que o trabalho como cineasta permite que alcance a expressão máxima do trabalho no cinema, com o envolvimento em todas as etapas da produção.

Cena de 'Eclipse', de Djin Sganzerla

Divulgação

Dirigindo Helena Ignez

Ao lembrar os pais, a cineasta conta que herdou uma característica em comum a ambos: a obsessão.

— Sou extremamente obsessiva no processo da criação. Até a coisa chegar onde eu gostaria, até eu conseguir expressar uma ideia, é muito, muito trabalho. É sempre um mergulho muito profundo, como atriz ou diretora; meus trabalhos me tomam de todos os lados. Tudo que eu penso, leio e falo é sobre aquele trabalho. Meu pai era assim e minha mãe é assim até hoje. Eu brinco com a minha mãe que, quando ela está trabalhando, ela até fica difícil de lidar, porque ela só pensa naquele assunto, todas as conversas são sobre aquele projeto até ele ser gerado — diz. — Também herdei a noção de liberdade e uma necessidade de ser protagonista da minha própria vida. Então, o meu cinema não é uma tentativa de ser uma obra parecida com a do meu pai ou da minha mãe, mas a expressão das minhas fantasias e loucuras.

Helena Ignez, por sinal, faz uma participação em “Eclipse” como a mulher que aluga um quarto onde Nalu se hospeda. A atriz, que já havia dirigido e contracenado com a filha, pela primeira vez é comandada por ela.

— Djin, como artista, como diretora, dá um presente com esse filme extremamente importante. Está trazendo uma realidade tenebrosa, em que o Brasil é um dos maiores do mundo: os abusos, os feminicídios, os horrores que ainda o machismo comete contra as mulheres — destaca Helena Ignez, de 83 anos.

Helena Ignez em cena de "Eclipse"

Divulgação