Divisões internas do Irã e verborragia de Trump são entraves para conversas antes de fim do cessar-fogo
A dois dias do fim do cessar-fogo entre EUA e Irã, há poucos sinais animadores sobre um acordo definitivo para a guerra iniciada no final de fevereiro. Pelo lado iraniano, divisões dentro do regime ficaram à mostra no fim de semana, e a desconfiança em relação a Washington é palpável. Pelo lado americano (e israelense), o presidente Donald Trump transparece seu incômodo com a extensão de um conflito impopular. Segundo fontes diplomáticas, os dois lados devem se sentar à mesa no Paquistão nos próximos dois dias, com expectativas mais modestas do que na primeira rodada, há duas semanas.
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Além da incerteza sobre a própria reunião, cuja participação iraniana não foi confirmada até a noite desta segunda-feira, os dois lados têm diante de si dois pontos urgentes. O primeiro, a extensão da trégua, que pode sair antes do fim do prazo, noite de quarta-feira pelo horário de Washington, mas não se sabe por qual período. Já o segundo, a reabertura do Estreito de Ormuz, esbarra em objetivos militares e nas divisões internas do regime em Teerã.
Na sexta-feira, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, anunciou na rede social X a reabertura “completa” de Ormuz, fechado desde o início de março. A decisão foi saudada como uma vitória por Trump e recebida com alívio por governos nacionais e organizações internacionais. Afinal, poderia ser o fim de um dos mais graves bloqueios navais da História recente, liberando a via por onde, em tempos de paz, passam cerca de 20% das exportações globais de petróleo e gás.
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Editoria de Arte/O Globo
Em questão de horas, a Guarda Revolucionária, responsável pelo bloqueio, corrigiu Araghchi publicamente, alegando que os navios que quisessem passar por Ormuz ainda deveriam buscar autorização do Irã, trafegar em rotas pré-estabelecidas e pagar pedágio. Veículos de imprensa estatais criticaram o chanceler, um parlamentar o ameaçou com o impeachment e uma mensagem de rádio da Guarda a navios na área, obtida pelo Wall Street Journal, dizia que “vamos abrir [o Estreito de Ormuz] por ordem do nosso líder, o imã [Mojtaba] Khamenei, e não por tuítes de algum idiota”.
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Para a Guarda Revolucionária, a abertura soou como uma concessão indevida e inexplicada aos EUA.
“A opinião pública levanta a seguinte questão: se é do interesse do país que os detalhes das negociações ou dos desenvolvimentos recentes não sejam divulgados, por que esse mesmo interesse e a razão para evitar a transparência não são explicados ao povo?”, questionou um artigo da agência Fars, ligada à Guarda.
O estreito permanece fechado, e as parcas perspectivas de uma reabertura ecoaram nos mercados. Nesta segunda-feira, o barril do tipo Brent, referência no mercado, subiu mais de 5%, encostando em US$ 96. Na sexta-feira, diante da possível retomada do tráfego, houve queda de mais de 9%.
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Os comandantes apontaram ainda que o anúncio veio em meio a um bloqueio naval americano aos portos iranianos e navios de bandeira do Irã, considerado por eles uma violação do cessar-fogo. Segundo o Comando Central dos EUA, 27 embarcações foram barradas nos últimos dias. No domingo, um navio cargueiro de bandeira do Irã foi atacado e interceptado pelas forças americanas na região do Golfo de Omã, em um ato que os militares prometeram responder à altura.
— Como disse o nosso líder (Mojtaba Khamenei), não confiamos em negociações com vocês (EUA), mas acreditamos no poder de Deus, do povo e dos combatentes — disse o chefe das forças aeroespaciais da Guarda Revolucionária, Majid Mousavi, nesta segunda-feira. — Onde quer que vocês estejam, responderemos com firmeza sempre que quisermos.
Antes do início da guerra, quando se especulava sobre o futuro do regime, um dos cenários propostos por analistas era a confirmação do domínio da Guarda Revolucionária. Com a “Operação Fúria Épica” em curso, a Guarda, criada por Ruhollah Khomeini para proteger a República Islâmica, tomou as rédeas militares e instalou aliados no comando político. A ausência do antigo líder supremo, Ali Khamenei, que atuava como mediador nos bastidores, acelerou o processo.
“A consolidação do controle da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) sobre a tomada de decisões no Irã indica que as autoridades políticas iranianas que atualmente negociam com os Estados Unidos não têm poder para determinar de forma independente as posições de negociação do Irã”, apontou análise publicada pelo Instituto para o Estudo da Guerra, dos EUA, na semana passada. “A IRGC parece ter marginalizado figuras mais pragmáticas com as quais os Estados Unidos negociaram.”
Ao menos um ponto traz convergência entre os aparatos civil e militar: ninguém está disposto a abrir mão do programa nuclear, acusado de ter finalidades militares pelo Ocidente. Na semana passada, Trump disse que os iranianos “concordaram com tudo”, sugerindo que Teerã estava de acordo com uma pausa longa (de até 20 anos) no enriquecimento de urânio, e que poderia enviar material já enriquecido ao exterior. Os iranianos negaram publicamente, e deixaram claro que esse tema não será tratado às pressas ou em postagens no Truth Social — fazer as vontades do republicano, no momento em que o regime se considera empoderado, seria uma declaração de submissão ao “Grande Satã”.
— Trump diz que o Irã não pode exercer seus direitos nucleares, mas não diz por qual crime. Quem é ele para privar uma nação de seus direitos? — disse no domingo o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, um reformista que, assim como Araghchi, foi atacado no passado pela Guarda por declarações vistas como excessivamente apaziguadoras.
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Pelo lado americano, um elemento é o maior entrave à paz: Donald Trump. A decisão de lançar uma guerra sem objetivos claros provocou cisões entre seus comandantes e assessores. Sua verborragia nas redes sociais alia mensagens de destruição civilizacional com mensagens sobre desfechos diplomáticos positivos. Muitas de suas falas, como sobre as supostas concessões nucleares, deixam o campo da comunicação oficial de chefe de Estado e avançam sobre o terreno da especulação e da propaganda: em uma publicação no Truth Social, afirmou que os EUA estão “ganhando a guerra” e acusou a imprensa local de criar uma atmosfera derrotista.
Nesta segunda-feira, Trump mais uma vez alternou ameaças com perspectivas otimistas. Em entrevista, disse ser “extremamente improvável” a extensão do cessar-fogo sem um acordo até quarta. Ao mesmo tempo, disse que um novo acerto com Teerã seria “muito melhor” do que o firmado em 2015 por seu antecessor Barack Obama, que estabelecia limites às atividades nucleares iranianas em troca do alívio de sanções. O texto, eficaz enquanto esteve em vigor, foi rasgado por Trump em 2018, e substituído por uma política mais agressiva que não produziu resultados positivos.
— O comportamento ilegal dos Estados Unidos e as posições contraditórias de seus líderes são incompatíveis com os princípios diplomáticos — disse Araghchi em conversa telefônica com o chanceler russo, Sergei Lavrov, citado pela Chancelaria iraniana, nesta segunda-feira.
Segundo reportagem do Wall Street Journal, a impaciência de Trump com a guerra, e o medo de tomar decisões que possam lhe causar problemas políticos nos EUA já preocupam assessores e aliados. Alguns veem suas bravatas, que raramente passam por revisão prévia, como riscos às negociações com os iranianos, e passam uma imagem de improvisação na Casa Branca. Em fevereiro, antes da guerra, uma pesquisa da Reuters em parceria com o instituto Ipsos mostrou que 61% dos americanos consideravam que o republicano ficou mais errático com a idade. Ele completará 80 anos em junho.
