Divisão no núcleo do poder da Venezuela gera tensão sobre estabilidade do regime, avalia governo brasileiro
Interlocutores do governo brasileiro afirmam, com base em informações enviadas da Venezuela, que o país atravessa um momento marcado pela tensão. Com divisões no núcleo do poder do regime chavista, o cenário é caracterizado por incertezas políticas e institucionais.
Embora não haja qualquer confronto explícito, internamente o governo é descrito como dividido entre uma ala mais pragmática, associada à vice-presidente Delcy Rodríguez, o que inclui quadros técnicos; e um setor mais duro, ligado a figuras tradicionais do chavismo, como o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e o dirigente Diosdado Cabello.
O desfecho dessa disputa, considerado incerto, eleva o grau de imprevisibilidade sobre o futuro do país.
Apesar das declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a Venezuela ficaria por um período indefinido sobre o controle dos EUA, as decisões do cotidiano continuam sendo tomadas pelas autoridades venezuelanas.
Na leitura de interlocutores da diplomacia brasileira, a saída de Nicolás Maduro do centro do poder não resultou em uma transformação profunda do sistema político. O que se observa é a permanência de estruturas e práticas do chamado madurismo, ainda que de forma atenuada.
A liberação de presos ocorre de maneira gradual e limitada, com a soltura de alguns estrangeiros e opositores, sem um movimento amplo ou sistemático.
De acordo com uma importante autoridade de Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve contato direto com Delcy Rodríguez em duas ocasiões recentes, no intervalo de poucos dias — uma no sábado, dia do ataque dos Estados Unidos, e outra na segunda-feira seguinte. As conversas se inserem no acompanhamento próximo da situação política e humanitária do país vizinho.
No último dia 3, Trump ordenou uma ação militar no país vizinho, com bombas e a captura de Maduro e sua mulher, Cilia Flores.
Embora persistam incertezas sobre os desdobramentos internos, relatos recebidos em Brasília indicam que a vida cotidiana em Caracas segue relativamente normal. A leitura no governo brasileiro é que, até o momento, não se observam sinais concretos de desorganização institucional ou de agravamento abrupto da situação humanitária.
No campo econômico, a movimentação em torno do setor petrolífero é vista com cautela. A avaliação é que qualquer recuperação da produção venezuelana depende de um processo de médio e longo prazo, que exige investimentos elevados e infraestrutura adequada, uma vez que o petróleo do país é pesado e requer refino específico para transporte. Por essa razão, anúncios de curto prazo são tratados com reserva.
Há também sinais de uma reaproximação gradual entre Caracas e Washington, como a discussão sobre a reabertura da embaixada americana e o envio de um encarregado de negócios à capital venezuelana. Ainda assim, interlocutores do governo brasileiro ressaltam que o ambiente pode estar sujeito a mudanças rápidas, sobretudo diante da fragilidade do equilíbrio político interno.
