'Dividendo do mentiroso': vídeos que 'provam que Netanyahu está vivo' são alvos de desconfiança, mesmo sendo reais

 

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Na guerra, a verdade é a primeira que morre. O dito popular nunca foi tão verdadeiro. Exemplo disso foi que, no meio da guerra no Irã, começou a circular o boato de que Benjamin Netanyahu estava morto.

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O próprio premier de Israel se apressou em negar os rumores e apareceu num vídeo numa cafeteria, em Jerusalém, e em pronunciamento à nação na última sexta-feira (13/3).

Vários sites de notícias e de verificação de fato/fake confirmaram se tratar de vídeos autênticos, mas nas redes sociais muitas contas — geralmente com algum tipo de ligação com o Irã — garantiam se tratar de farsas criadas com inteligência artificial (IA).

Alguns usuários chegaram a identificar um sexto dedo — uma das provas mais usadas para identificar manipulação por IA — numa das mãos de Netanyahu. Nas imagens, porém, nada realmente indica um dedo extra no líder israelense. Na cafeteria, ele até ergueu as mãos e mostrou seus cinco dedos — um novo tipo de prova de vida para a era da IA.

A confirmação de estar vivo e, ainda assim, as dúvidas geradas na web são o que se chama de "dividendo do mentiroso", que parece viver o seu apogeu na guerra no Irã, contou o "New York Times". Milhares de imagens e vídeos surgiram do conflito — muitos reais e muitos gerados por IA, com as diferenças muitas vezes quase impossíveis de detectar para quem navega online. Isso fez com que algumas filmagens reais da guerra, iniciada em 28 de fevereiro, fossem descartadas na web como "fabricações de IA". Não eram.

Na semana passada, o conselho de supervisão quase independente da Meta observou que o problema existe durante conflitos e crises globais, incluindo o mais recente no Irã. O conselho pediu que a gigante das redes sociais faça mais para identificar conteúdo enganoso gerado por IA que circula durante conflitos armados.

Alberto Fittarelli, pesquisador sênior de desinformação do Citizen Lab, uma unidade de pesquisa da Universidade de Toronto (Canadá), declarou que qualquer pessoa "conhecedora de técnicas de manipulação" e "implacável o suficiente para usá-las" se aproveitaria da vantagem da mentira para semear desconfiança em relação à realidade da guerra.

"Verificar tudo é incrivelmente exaustivo, e nem todos podem se dar ao luxo de fazer isso", acrescentou ele.

O "dividendo da mentira" desempenhou um papel desproporcional na preparação para a guerra, à medida que os protestos contra o governo teocrático do Irã varriam o país.

Um vídeo, cuja autenticidade foi confirmada pelo "New York Times", mostrava um manifestante sentado pacificamente numa rua enquanto policiais fortemente armados o cercavam. O ativista contra o regime teocrático de Terrã foi comparado na web ao "Homem do Tanque", uma cena icônica de resistência na Praça da Paz Celestial em 1989 durante prostestos contra o governo chinês.

A filmagem foi confirmada por vários ângulos, mas acabou descartada e classificadas como falsa por vários atores políticos pró-governo iraniano. Como tantas imagens falsas circulando na web, por que aquela não seria mais uma? Teerã se valeu disso para negar a verdade.

Há "motivo" para isso. O Citizen Lab descobriu em outubro que o governo israelense ou uma empresa terceirizada havia usado conteúdo gerado por inteligência artificial para incentivar os iranianos a derrubarem o seu governo.

"O fato de Benjamin Netanyahu ter que provar que está vivo e que sua imagem não foi gerada por inteligência artificial demonstra que o risco é mútuo", declarou Fittarelli.