247 – O elevado endividamento das empresas brasileiras e a persistência dos juros altos representam um dos principais desafios econômicos do próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de R$ 700 bilhões em dívidas estão em negociação com bancos e fundos de investimento, enquanto um estudo aponta que 26% das companhias de capital aberto não conseguem cobrir suas despesas financeiras com a geração operacional de caixa.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
O cenário preocupa especialistas em reestruturação empresarial, que alertam para a possibilidade de uma nova onda de recuperações judiciais caso o custo do crédito permaneça elevado. A trajetória da taxa Selic, as expectativas sobre a política fiscal e a definição da futura equipe econômica serão determinantes para a capacidade das companhias de renegociar seus passivos.
Ricardo Knoepfelmacher, conhecido como Ricardo K., sócio da RK Partners, estima que o volume de dívidas em negociação com bancos e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) ultrapasse R$ 700 bilhões. “Com juros nominais e reais nas alturas há bastante tempo, muitas empresas acumularam um volume de dívida cujo custo financeiro compromete a geração de caixa”, afirmou.
Segundo estudo da consultoria, mais de um quarto das companhias abertas enfrenta dificuldades para pagar os encargos financeiros com os recursos gerados pelas próprias operações. Indústria e comércio estão entre os setores mais afetados
A indústria de transformação e o comércio concentram quase metade das empresas que não conseguem cobrir suas despesas financeiras com a geração operacional de caixa. Esses setores também apresentam níveis elevados de alavancagem, com relação entre dívida líquida e Ebitda próxima de três vezes a geração anual de caixa operacional.
Parte do problema teve origem no período de juros baixos entre 2016 e 2020, quando empresas recorreram ao crédito para financiar investimentos e expansão. Em agosto de 2020, a Selic chegou a 2% ao ano.
Posteriormente, os efeitos da pandemia, a desaceleração da demanda e o aumento dos juros comprometeram a capacidade de pagamento de diversas companhias. A taxa básica chegou a 15% em 2025, ampliando os custos financeiros de empresas que já acumulavam dívidas expressivas.
O resultado foi o aumento dos processos de reestruturação e dos pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial. Entre as companhias mencionadas pela reportagem estão Braskem, Unigel, Casas Bahia, Grupo Pão de Açúcar, Tok&Stok, Mobly, Habib’s, Ri Happy e JAC Motors, envolvidas em diferentes situações de renegociação ou reestruturação de passivos.
Recuperações judiciais podem superar 5,5 mil empresas em 2027 Projeções das consultorias RGF-Bizdoc indicam que a pressão financeira poderá continuar afetando empresas brasileiras ao longo de 2027.
O levantamento analisou oito cadeias produtivas: agronegócio, comércio varejista, química e petroquímica, transportes e logística, alimentos e bebidas, construção e engenharia, energia elétrica e gás, além de metalurgia e produtos de metal. Até 30 de junho de 2026, esses segmentos reuniam 4.581 empresas em recuperação judicial.
No cenário-base da consultoria, esse número poderá chegar a 5.554 no encerramento de 2027, um crescimento projetado de aproximadamente 21%. A estimativa considera uma Selic de 13,25% em dezembro de 2026 e de cerca de 11,5% no fim de 2027.
Transportes e logística aparecem entre os setores com maior crescimento esperado dos processos, seguidos por metalurgia, produtos de metal e agronegócio. Cláudio Dasmasceno, sócio das consultorias, explica que os efeitos dos juros elevados não aparecem imediatamente nos balanços empresariais.
Segundo ele, o impacto pode levar de um a três trimestres para se manifestar, enquanto o aumento da inadimplência tende a preceder os pedidos de recuperação judicial. Queda dos juros depende das expectativas econômicas
O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, avalia que as companhias poderão chegar ao fim do ano enfrentando restrições de crédito e dificuldades para renovar suas dívidas. Para ele, a confiança na trajetória futura da economia é decisiva para a disposição dos bancos em conceder financiamentos e renegociar passivos.
“A concessão de crédito, assim como o restante das atividades da economia, depende, antes de qualquer coisa, da expectativa futura sobre o que vai acontecer”, afirmou. Segundo Mendonça de Barros, a perspectiva de uma política fiscal capaz de permitir a redução dos juros facilitaria a renegociação das dívidas empresariais.
Sem essa melhora, muitas companhias enfrentarão duas alternativas difíceis: renovar seus compromissos a custos elevados ou recorrer à recuperação judicial diante da impossibilidade de obter novos financiamentos. A situação também está relacionada às expectativas do mercado financeiro após a reeleição de Lula.
Antes do segundo turno, parte dos investidores trabalhava com a hipótese de uma redução mais rápida dos juros caso Flávio Bolsonaro vencesse a disputa presidencial. Com o resultado eleitoral, agentes econômicos passaram a reavaliar suas projeções para a política monetária e a trajetória das contas públicas.
O Comitê de Política Monetária (Copom) deverá se reunir para definir os próximos passos da Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Antes da eleição, parte do mercado esperava um corte de 0,25 ponto percentual.
Economista defende ajuste fiscal gradual para preservar crescimento O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, defende que a reorganização das contas públicas seja conduzida de maneira gradual, evitando impactos excessivos sobre a atividade econômica.
“Nós advogamos por uma estratégia um pouco mais gradualista (no ajuste fiscal) justamente pelos efeitos negativos que isso pode ter sobre o crescimento econômico e, consequentemente, sobre a demanda das empresas”, afirmou. Para Cagnin, o desafio é combinar medidas que contribuam para reduzir o custo do capital com a preservação da demanda, fundamental para a geração de receitas pelas companhias.
“O ideal é fazer um mix para que não se deprima demais a demanda, retirando receita operacional das empresas, mas que ocorra de tal modo a reduzir custo de capital”, explicou. O economista também destacou que ainda existem dúvidas sobre como essa estratégia será implementada na formação do próximo governo.
Rafael Fonteles e Alckmin aparecem entre os cotados para a Fazenda A composição da equipe econômica de Lula é acompanhada por empresários e investidores, que buscam sinais sobre a condução da política fiscal e monetária a partir de 2027.
Entre os nomes mencionados para o Ministério da Fazenda estão o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Em entrevista recente ao Estadão, Fonteles afirmou que ainda não havia conversado com Lula sobre uma eventual participação no novo governo federal.
O governador também defendeu o equilíbrio das contas públicas por meio da redução de privilégios, sem comprometer os programas sociais. A discussão sobre a futura equipe econômica ocorre em um momento no qual a redução dos juros é considerada fundamental para aliviar a pressão financeira sobre empresas de diferentes setores.
O desafio do próximo governo será conciliar a sustentabilidade das contas públicas, a redução do custo do crédito e a preservação do crescimento econômico. Enquanto os juros permanecerem elevados e as condições de financiamento restritivas, empresas endividadas continuarão expostas ao risco de insolvência, com possíveis consequências sobre investimentos, empregos e a atividade produtiva.
Brasil 247