A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a prolongar as divergências políticas entre o governo federal e parte relevante do agronegócio, que apoiou em peso o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, segundo analistas. No Congresso Nacional, a bancada ruralista fala em fiscalizar as ações do Planalto e em pressionar o Executivo por melhorias que os eleitores do campo e da direita querem.
No dia seguinte das eleições, lideranças começaram a mexer peças do tabuleiro político em Brasília para projetar a composição da nova Esplanada dos Ministérios em 2027 e como será a atuação do setor. A avaliação é que, apesar das diferenças, o agronegócio precisa sair da defensiva e ser mais propositivo na próxima gestão.
Para Leandro Gabiati, cientista político e diretor da Dominium Consultoria, a relação de interdependência do agronegócio e do Executivo pode forçar uma aproximação mais pragmática após quatro anos marcados por embates, rompimentos de laços e implosão de pontes desde 2022. “O governo precisa de um setor estratégico para as exportações e a economia, enquanto o agro depende de políticas públicas, financiamento e decisões regulatórias”, avaliou.
Ainda assim, ele ainda vê campo aberto para discordâncias nas agendas ambiental, fundiária e regulatória. A força da bancada ruralista e a capacidade de influenciar em votações e impor custos políticos ao governo vão obrigar Lula a conversar e negociar mais com o Congresso, onde os interesses do agro continuam bem representados.
Maior grupo temático do Legislativo, com 349 membros na Câmara e no Senado, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) deverá crescer em 2027. “A reeleição de Lula, combinada com a força da bancada ruralista, pode incentivar o governo a buscar maior previsibilidade e interlocução prévia com o setor, evitando desgastes políticos desnecessários.
Muito dependerá da composição ministerial e das prioridades estabelecidas para o novo mandato presidencial”, ressaltou Gabiatti. Leia também
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A senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da FPA, disse que é preciso manter a mobilização para cobrar ações do próximo governo. Em postagem nas redes sociais, ela não questionou o resultado das urnas e prometeu fiscalizar a atuação do Executivo.
“Nós precisamos continuar mobilizados para cobrar tudo que desejamos. A voz de vocês não será calada (...) Nós estaremos lá para fiscalizar esse governo e lutar pelo país que queremos, com prosperidade e segurança”, disse.
A FPA não se posicionou oficialmente sobre o resultado das eleições. A avaliação de Gabiatti é que a bancada ruralista manterá a referência política do setor, mas não necessariamente atuará como “oposição sistemática”.
A tendência, segundo ele, é combinar enfrentamento em temas sensíveis, como ambientais e regulatórios, com negociações necessárias para avançar em crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, fertilizantes e orçamento. “O desafio das lideranças será separar a disputa eleitoral da representação dos interesses do setor”, concluiu.
Carlos Ernesto Augustin, que foi assessor especial do Ministério da Agricultura de Lula de 2023 a 2026 e mantém interlocução com a FPA e entidades do campo, disse que o setor precisa ser mais propositivo e o Executivo, mais moderado, para que haja governabilidade com avanços para o agro.
“O momento é de conciliação e de ser proativo”, afirmou à reportagem. A movimentação é urgente, disse ele, para buscar soluções para o endividamento e a falta de acesso ao crédito, que tem prejudicado negócios no interior do país.
Uma das pautas imediatas é a criação de um fundo garantidor, com recursos federais e dos governos estaduais, para equilibrar o risco associados pelas instituições financeiras ao setor atualmente e fazer fluir novamente os financiamentos. Empresário do ramo de sementes em Mato Grosso, Teti, como é conhecido, foi candidato a suplente de senador nas eleições deste ano após romper com o ex-ministro Carlos Fávaro (PSD), mas não se elegeu.
Ele saiu do PT e se filiou ao PSB, partido do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e quer espaço no próximo governo. “Precisamos de nomes que convirjam, que se dão bem dos dois lados”, refletiu.
Globo Rural