Martin Wolf é um dos analistas econômicos de maior prestígio da imprensa em todo o mundo. Suas colunas no jornal britânico Financial Times, assim como seus livros, atraem um séquito de leitores que buscam análises aprofundadas sobre economia e política.
Na tarde de ontem, ele conversou por vídeo com o Valor sobre os resultados e as implicações das eleições legislativas dos EUA, nas quais o Partido Democrata, de oposição ao presidente Donald Trump, conquistou maioria tanto na Câmara como no Senado. Wolf prevê que os EUA entrarão em período de turbulência.
Primeiro, por esperada pressão dos democratas para abrir investigações e processos de impeachment. Não de Donald Trump, mas, possivelmente, de auxiliares diretos.
A aprovação dos futuros projetos orçamentários de Trump também deverá ser cercada por conflitos e riscos. “Certamente existem riscos extremos agora em relação às taxas de juros, à inflação, ao dólar e à política fiscal”, disse Wolf, que estava em viagem a Bruxelas.
Uma expectativa, no entanto, é que o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, mantenha-se firme na linha ortodoxa - agora com menos risco de ceder a pressões de Trump. “Acho plausível, portanto, que a política monetária se torne um pouco mais restritiva”, avalia.
Da economia para a política, Martin Wolf vê os EUA entrando em nova fase, na qual a agenda anti-multilateralismo, antipolíticas sobre mudanças climáticas e anti-imigração tendem a perder força. Nos EUA e outros países.
O analista britânico não esconde suas preferências. Deixa claro que nem as opções políticas de Trump nem as dos Bolsonaro lhe agradam.
Diz que o terceiro mandato de Lula foi “decepcionante” e que ele terá agora de endereçar problemas que já poderia ter enfrentado. Mas se diz satisfeito com o resultado das eleições no Brasil e nos EUA.
“Sou profundamente contra o populismo de direita e o neofascismo.” A seguir, os principais trechos da entrevista: Valor: Que mudanças os EUA verão nos próximos dois anos, após a vitória do Partido Democrata no Congresso?
Martin Wolf: Antes de mais nada, devo dizer que não estou dentro da “bolha” americana e, por isso, é difícil responder a essa pergunta. Mas tenho conversado com várias pessoas e minha leitura é mais ou menos essa: na política interna, ter o Congresso sob o controle dos democratas claramente fará uma grande diferença.
Eles vão usar os poderes de investigação de forma bastante implacável. Tem havido uma série de negociações bastante duvidosas, corrupção descarada, eu diria.
Os democratas vão passar a investigar isso. E é bem provável, eu imagino, que abram um processo de impeachment contra algumas pessoas.
Não estou falando do presidente. Isso talvez não aconteça.
Mas há algumas pessoas muito impopulares, até mesmo entre os republicanos, que eu poderia imaginar sendo alvo de processo de impeachment. Uma delas é o secretário de Defesa, Pete Hegseth [que tem sido criticado até por republicanos por sua defesa de que os EUA entrassem em guerra contra o Irã sem uma estratégia clara de saída do conflito].
E isso pode levar a que ele seja destituído preventivamente pelo presidente. Muitos americanos acham que isso pode acontecer.
Portanto, algumas das pessoas diretamente envolvidas poderiam estar sob ataque. Não seria surpreendente se houvesse uma investigação muito séria sobre o comportamento e as relações com o governo de algumas das pessoas mais ricas dos Estados Unidos, porque têm acontecido coisas realmente extraordinárias.
E isso, acredito, tornará muito mais difícil para elas prosseguirem com algumas das coisas que vêm fazendo. Por exemplo, o Departamento de Justiça vem investigando pessoas com o objetivo de processá-las, pessoas que eram consideradas inimigas de Donald Trump.
Acho que isso será muito mais difícil de ser feito agora. Acho que isso também afetará alguns dos acordos que o governo americano firmou com parceiros estrangeiros.
As pessoas têm sido ameaçadas com tarifas. Em troca das tarifas, elas prometeram investir centenas de bilhões de dólares nos Estados Unidos.
Os japoneses fizeram isso. Alguns dos países do Golfo fizeram isso.
Tudo isso pode se tornar muito difícil de realizar, porque vai parecer bastante suspeito. Há outra área que considero realmente importante economicamente, que será a disputa em torno dos Orçamentos.
E não sei qual será a posição dos democratas, mas está claro que Donald Trump não conseguirá um Orçamento sem um acordo com o Congresso. E será muito difícil funcionar sem um Orçamento.
Ele tem uma grande ambição fiscal, uma grande ambição de gastos. Eu imagino que possa haver uma paralisação do governo, algo que já aconteceu antes, é claro, e até mesmo uma dessas situações de “abismo da dívida”, quando há a ameaça de que o país entre em default.
Isso poderia facilmente acontecer novamente com esse governo dividido. Mas, é claro, o presidente tem poderes gigantescos, particularmente na política externa, incluindo, como vimos, não exatamente tanto poder quanto ele gostaria na política comercial.
E isso pode continuar a ser imensamente importante e imensamente perturbador. O cenário político será diferente.
Valor: Um ambiente de confronto entre o Congresso e a Casa Branca pode levar a uma piora nas condições econômicas nos EUA? Wolf: Bem, em primeiro lugar, não parece provável que a estrutura básica da política monetária mude.
E isso é importante. Está bastante claro que o Fed de Kevin Warsh será bastante ortodoxo.
Não será “trumpista”. E agora é ainda menos provável que seja “trumpista”.
Portanto, espero que Kevin Warsh seja bastante ortodoxo. E acho plausível, portanto, que a política monetária se torne um pouco mais restritiva, o que é bastante importante.
Donald Trump não vai conseguir impedir isso. No lado fiscal, se eles não conseguirem aprovar um Orçamento, se houver um impasse, como eu disse, em relação ao teto da dívida em algum momento...
E isso não é algo que eu tenha investigado, mas já aconteceu antes. Então poderia haver algumas dúvidas, mais uma vez, sobre o grau de confiança que teremos da situação fiscal nos EUA, do dólar americano.
Vamos comprar títulos dos EUA? E isso poderia levar ao aumento das taxas de juros de longo prazo. Isso poderia exercer muita pressão sobre uma economia que já tem muita dívida privada, incluindo dívida relacionada à inteligência artificial.
E se as pessoas começarem a dizer: “Bem, a situação nos Estados Unidos parece realmente uma bagunça agora”, e “nós realmente não queremos investir nisso”, poderá haver efeitos sobre o dólar também, que poderão ser bastante significativos. Isso não me parece impossível.
Não que eu não fosse prever isso, mas certamente existem riscos extremos agora em relação às taxas de juros, à inflação, ao dólar e à política fiscal. Depois, há, é claro, a questão crucial de saber se isso [a nova configuração de forças nos EUA] vai afetar a próxima fase da guerra com o Irã.
E eu não sei. Valor: A eleição foi um revés não apenas para Trump, mas também para as ideias que ele representa, globalmente, de anti-multilateralismo, anti-imigração, oposição às políticas de combate às mudanças climáticas? Essas agendas perderão força nos EUA e no mundo?
Wolf: Acho que essa é uma questão extremamente importante. Nos EUA, por assim dizer, a versão puramente Maga do conservadorismo ficará claramente muito mais fraca.
Não há dúvida. Ele ficará mais fraco no Legislativo, mas acho que essa experiência provavelmente fará com que muitos republicanos que estão de olho no futuro a longo prazo, além de Trump, digam: “Bem, talvez não tenhamos um vencedor aqui.
Se levarmos isso tão longe, haverá uma reação contrária. Temos que moderar.
Precisamos encontrar um caminho mais moderado em relação à imigração, à regulamentação da IA e assuntos semelhantes, à agenda anticientífica e a toda uma gama de questões, nossa proximidade com pessoas e empresas incrivelmente ricas - talvez tenhamos que nos distanciar disso.” Outro ponto, na minha opinião realmente interessante, é: será que as pessoas na Europa, por exemplo, onde esse tipo de ideia [de política muito ligada ao estilo Trump] se tornou muito popular, no Brasil e em muitos outros países, será que agora [com a oposição dominando o Congresso americano] que deverá haver uma verdadeira guerra contra a corrupção, as pessoas se perguntarão: “Será que realmente queremos políticos assim no nosso país?” Meu palpite é que, como os Estados Unidos são tão grandes, tão influentes, uma parte tão fundamental do sistema mundial, ver os Estados Unidos fazerem essa experiência e, em seguida, verem esse repúdio dos próprios americanos poderia muito bem ter influência em outros lugares.
Isso legitimaria a oposição democrática. Para dar um exemplo, posso muito bem imaginar que o próximo movimento na Venezuela não será uma continuação dos acordos, obviamente corruptos, que temos visto.
Será algo muito mais decente, e os democratas certamente dirão que devemos apoiar a democracia na Venezuela. Não deveríamos apoiar os resquícios do sonho de Maduro.
Coisas assim vão mudar. A Casa Branca pode continuar apoiando a extrema direita na Europa, mas o Legislativo não o fará, e isso fará diferença.
Então, espero - pelo menos, talvez eu tenha sido otimista demais - que este seja talvez o ponto alto. Mas eu gostaria de enfatizar os danos causados nos Estados Unidos às instituições americanas, ao Estado de Direito, a toda uma gama de instituições do governo, às Forças Armadas, aos serviços de inteligência e aos serviços jurídicos.
Isso é bastante - não permanente, mas de longo prazo. E os danos causados à reputação dos Estados Unidos - e, portanto, à confiabilidade do país como aliado - não são de longo prazo.
Já os problemas que temos na Europa entre a Rússia e a Ucrânia, esses, sim, são de longo prazo. Valor: No Brasil, qual sua avaliação sobre a reeleição de Lula?
Wolf: Eu gostaria de visitar o país novamente, especialmente depois dessa sua eleição recente tão extraordinária. E gostaria de entender o que aconteceu.
Devo dizer que acho que este último mandato do senhor Lula, por quem eu tinha grande respeito há 20 anos, foi bastante decepcionante. Ele tem alguns desafios muito grandes, sobretudo fiscais e políticos, que precisa resolver.
E espero que ele faça isso agora. Isso é extremamente importante.
Fiquei muito preocupado com o caso de corrupção, que acompanhei de perto há alguns anos. Mas estou muito satisfeito que a família Bolsonaro não tenha voltado, porque me parecem pessoas realmente ruins.
O pessoal do Trump me parece gente realmente ruim. E não se deve ter pessoas realmente ruins no poder em lugar nenhum e certamente não em um país tão importante quanto o Brasil.
Sou profundamente contra o populismo de direita e o neofascismo. Lula tem muito a fazer para que seu governo realmente funcione.
O Brasil enfrenta alguns desafios muito grandes, mas continua sendo um país muito importante, com um potencial enorme. Tenho muitos amigos lá e gostaria que o país tivesse um desempenho realmente bom para o mundo e para os brasileiros.
E isso não vai acontecer com a extrema direita.
Valor