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Alguns compram no camelô.
Outros, desembolsam mais de R$ 8 mil numa bolsa falsificada.
O consumo de produtos ilegais no Brasil atravessa as classes sociais e, na contramão do senso comum, tem maior propensão entre a população de maior renda.
É o que revela o primeiro Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens e Serviços Ilícitos no Brasil, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional, da Universidade de São Paulo (Esem-USP), em parceria com o instituto de pesquisa Ipsos.
O levantamento ouviu 3 mil pessoas no ano passado para analisar cinco grandes mercados de produtos ilegais: combustíveis, bebidas alcoólicas, eletrônicos, vestuário e o segmento de tabaco e nicotina.
A propensão à compra varia de 20%, para combustíveis e eletrônicos, a 25% em vestuário.
No caso dos cigarros eletrônicos, a parcela aferida é menor, de 12%.
Os percentuais refletem a disposição para a aquisição, e não necessariamente o consumo efetivo.
Para isso, o estudo considerou respostas a perguntas sobre situações hipotéticas, como a possibilidade de adquirir um item ilegal se fosse mais barato, indicado por um parente ou tivesse qualidade semelhante.
Em todos os mercados, com exceção das bebidas alcoólicas, é da classe A que vem o maior potencial de aquisição ilegal.
Nos eletrônicos, por exemplo, a possibilidade é de 27%, em comparação com 20% na classe C e 14% nas D e E.
“Quem mais consome em geral é também quem mais consome produtos ilegais”, diz Leandro Piquet, coautor do estudo, professor do Instituto de Relações Internacionais e coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP.
“O que é surpreendente é que, geralmente, esse segmento está associado a maior escolaridade e maior conhecimento das regras, mas isso não se traduz em diferença na propensão e no comportamento em direção a mercadorias ilegais”, ressaltou Piquet.
Nesse público, originais e falsificados podem conviver no mesmo guarda-roupa, como conta Suzane Strehlau, professora da ESPM e coautora do estudo “Prontidão ao Consumo de Marcas de Luxo Falsificadas”.
Ela lembra o caso de uma mulher que combinava terninho Issey Miyake e sapatos Ferragamo com uma bolsa falsificada.
“Mas, com ela usando esse conjunto, ninguém achava que a bolsa dela era fake”, conta Strehlau.
A escolha, segundo ela, pode estar relacionada ao tipo de risco associado a cada item.
“Na bolsa, vista como acessório para uma temporada, o risco era basicamente social, de passar vergonha se alguém reconhecer.
Já o sapato falsificado tem risco funcional de machucar o pé”.
E, diferentemente do pé dolorido, destaca ela, o risco social pode ter solução.
Alguns optam por contar que a peça é falsificada, mas com o cuidado de associá-la a uma experiência restrita a poucos.
“Podem dizer, por exemplo, que trouxeram de uma viagem no interior do cafundó da China”, ponderou Strehlau.
Márcia Cavallari e Leandro Piquet defendem mais campanhas que mostrem os efeitos diretos da escolha pelos ilícitos
Ainda assim, falsificados nem sempre são exatamente baratos.
Uma réplica da bolsa Hermès Birkin pode custar R$ 8,4 mil, parcelados em até 12 vezes, como encontrou o Valor em uma loja on-line exibida no topo dos resultados do Google.
“Se nas classes de menor renda o fator econômico costuma ter maior peso [para aquisição], entre a população de maior renda aparecem mais razões ligadas à conveniência, ao acesso ou ao desejo de consumir determinados produtos sem pagar o preço integral”, diz Márcia Cavallari, diretora de opinião pública da Ipsos.
Além disso, acrescenta ela, também entram em jogo o desejo de pertencimento e de reconhecimento social, associado ao acesso a marcas e símbolos de status, sobretudo em segmentos como vestuário, acessórios e eletrônicos.
A maneira como o brasileiro encara leis de forma geral também se reflete no potencial de consumo ilegal, revela o levantamento da USP e do Ipsos.
Quanto maior a tolerância à transgressão, maior a propensão a essas compras.
E a disposição para transgredir varia conforme o gênero.
Segundo a pesquisa, 27% dos homens têm perfil transgressor, em comparação com 22% das mulheres.
Já entre os legalistas, elas são 24% e eles, 20%.
“A literatura, com estudos, tem evidências de que as mulheres policiais são muito menos corruptas, significativamente mais íntegras e respeitam mais os procedimentos”, afirma Piquet, mencionando estudos realizados no Brasil, Austrália, Estados Unidos e Europa.
“Isso se traduz também no restante da população feminina”, acrescenta o professor.
Outros levantamentos apontam para a mesma direção.
“Historicamente, pesquisas da Ipsos encontraram incidência de consumo de produtos ilegais um pouco maior entre homens”, observa Cavallari.
Em outra frente, o levantamento apurou indícios de aquisições ilegais em diferentes mercados.
Nos combustíveis, por exemplo, 13% dos entrevistados disseram abastecer sempre em postos sem bandeira, e outros 15%, às vezes, recorrem à prática.
No vestuário e nos eletrônicos, 21% das transações ocorreram em canais com maior risco de ilegalidade, como vendedores ambulantes, pequenos sites ou desconhecidos e redes sociais.
Ainda nos eletrônicos, 26% disseram não ter recebido nota fiscal.
Nas bebidas alcoólicas, 12% disseram ter recorrido a vendedores informais - a pesquisa foi feita antes da onda casos de intoxicação por metanol.
Nos cigarros tradicionais, o indicador é mais direto: marcas ilegais representam 11% do mercado.
Para frear os consumidores, Cavallari e Piquet defendem campanhas que mostrem os efeitos diretos da escolha pelos ilícitos.
“É mais eficaz mostrar consequências concretas, como riscos à saúde, prejuízos para quem comprar e financiamento de atividades criminosas, aproximando o problema do dia a dia das pessoas”, afirma Cavallari.
Para Piquet, até o apelo aos efeitos coletivos da decisão tem pouco poder de convencimento.
“Tentar convencer pela importância da legalidade e pelas consequências sociais da transgressão tende a ser fraco”, diz.
A aposta é mostrar as consequências diretas.
“É o caso do posto de bandeira branca que dá defeito no carro ou a bebida que pode causar danos gravíssimos à saúde”, exemplifica.
Disposição para compra de ilícitos é maior na classe A
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