Em um debate com pouco em jogo, já que a disputa eleitoral em São Paulo é uma das mais decididas do país, o encontro na TV Globo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad só esquentou quando os candidatos nacionalizaram a discussão. O movimento foi desencadeado por Tarcísio, ao questionar a condução econômica durante o governo Lula, que ficou sob responsabilidade de Haddad até o momento de sua desincompatibilização, em março.
O governador citou os recentes pedidos de recuperação judicial de ícones do varejo, como as Casas Bahia. Engatou no seu raciocínio a taxa selic em níveis altos, por falta de um ajuste fiscal. Haddad lançou mão do discurso da herança maldita: relembrou o calote na dívida de precatórios feito pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e no atraso de repasses de recursos tributários para Estados durante a pandemia. “Não tem tragédia maior do que a que foi herdada do governo anterior” , disse o petista. Tarcísio retrucou que Haddad fazia “negacionismo fiscal”.
Haddad escalou acusando aí não Tarcísio, mas o candidato presidencial do bolsonarismo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de ameaçar a reforma tributária, “a maior conquista do Brasil depois do Plano Real” e disse que o modelo defendido pelo grupo político do governador era o do presidente argentino Javier Milei. Tarcísio não desmentiu, disse que Milei está indo bem na Argentina.
O tom nacional ficou claro mesmo até mesmo nas considerações finais, quando Tarcísio pediu explicitamente votos a Flávio Bolsonaro, dizendo que o alinhamento entre os governos estadual e federal no próximo quadriênio será importante. “Flávio Bolsonaro é uma ameaça para o país”, disse por sua vez Haddad no momento de se despedir.
Haddad já foi candidato a presidente em 2018, por indicação de Lula. Na hipótese de o presidente ser reeleito para um novo mandato, é bastante provável seu retorno ao ministério e a cogitação de seu nome para a eleição de 2030, mesmo com tantas derrotas eleitorais nas costas. A perspectiva de um dia disputar a eleição presidencial tornou-se mais distante para Tarcísio, já que Flávio, uma vez eleito, poderá disputar a reeleição dentro de quatro anos, por mais que garanta não ser essa sua intenção. Mas esta é uma questão que poderá se colocar futuramente, caso, por algum motivo qualquer, não haja alguém com sobrenome Bolsonaro disputando. Neste cenário, a direita terá que resolver se irá pela trilha de Tarcísio ou pela do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
O debate na TV Globo, portanto, foi o confronto de dois possíveis presidenciáveis a médio prazo. Chamou a atenção na discussão entre os dois a ausência de baixo nível. Nenhum imputou ao outro o cometimento de algum delito previsto no Código Penal. Não houve nada sequer próximo a uma cadeirada. Ninguém lacrou. Eis um debate pouco afeito ao modelo de cortes para as redes sociais, um debate talvez de uma política à moda antiga, de candidatos que tentam impressionar os eleitores com a discussão de temas de gestão.
Valor