'Discursos masculinistas sequestram a ansiedade dos meninos', diz documentarista
Alerta: o texto abaixo aborda temas sensĂveis como violĂȘncia contra a mulher, violĂȘncia domĂ©stica e estupro. Se vocĂȘ se identifica ou conhece alguĂ©m que estĂĄ passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
A juĂza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da InfĂąncia e Juventude do Rio de Janeiro, se tornou um rosto conhecido a partir da repercussĂŁo de casos de violĂȘncia extrema envolvendo adolescentes, como o estupro coletivo de uma jovem por quatro homens em um apartamento de Copacabana em março deste ano.
Segundo ela, os casos de violĂȘncia cometida por adolescentes do sexo masculino tĂȘm crescido, tanto contra outras adolescentes, quanto contra mĂŁes e avĂłs. No Rio, realizou um levantamento que indicou aumento de 186% desde 2024 dessa violĂȘncia domĂ©stica cometida por adolescentes.
"A gente recebe adolescentes que falam para a namorada o que um homem de 40 fala para a ex-mulher: se vocĂȘ nĂŁo ficar comigo nĂŁo vai ficar com mais ninguĂ©m, vou acabar com a sua vida. Ă isso que a gente estĂĄ vivendo", disse a juĂza na tarde desta quinta-feira, 14, em painel do SĂŁo Paulo Innovation Week.
A jornalista Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha de S.Paulo e especializada na cobertura de gĂȘnero, considera esses casos como sintoma de um problema a ser enfrentado hoje: o descompasso crescentes entre meninos e meninas no tema da igualdade de gĂȘnero. Ela mediou o painel Gap CivilizatĂłrio: A UrgĂȘncia de Um Novo CĂłdigo Social entre Homens e Mulheres, com a presença de Vanessa e Ismael dos Anjos, jornalista e coordenador do documentĂĄrio O SilĂȘncio dos Homens.
Os painelistas apontam dois motivos principais para o descolamento da mentalidade de meninos e meninas quando o assunto sobre as relaçÔes de gĂȘnero. O primeiro Ă© um "gap" educacional, que se dĂĄ na formação desses jovens nas famĂlias e na sociedade. "A gente estĂĄ criando meninas de uma maneira diferente, mas essencialmente cria meninos do mesmo jeito", diz Dos Anjos.
Com isso, as meninas e jovens do sexo feminino ganharam maior vocabulĂĄrio para nomear violĂȘncias, aumentaram sua escolaridade, galgaram posiçÔes no mercado e costumam ser mais prĂł-igualdade. JĂĄ os meninos parecem ter ficado "para trĂĄs", sem alternativa construĂda coletivamente para a noção tradicional de masculinidade.
Outra fonte desse problema identificada por eles Ă© o crescimento do discurso masculinista na internet. Em seu trabalho na Vara da InfĂąncia e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa percebe uma dessensibilização dos meninos em relação Ă violĂȘncia sexual e de gĂȘnero, tanto pela pornografia quanto pelas redes sociais. "ViolĂȘncia saiu da dark web e estĂĄ na superfĂcie", afirma.
Dos Anjos vĂȘ necessidade de "combater discursos masculinistas que sequestram a ansiedade dos meninos" para que o problema nĂŁo se agrave. Esse trabalho passa por desconstruir noçÔes como a de que ser homem Ă© "mandar em casa", aprender a nomear sentimentos e qualificar o que Ă© violĂȘncia para os meninos.
Para Vanessa, a angĂșstia dos jovens que se tornam agressores parte muitas vezes de uma necessidade legĂtima de pertencimento e conexĂŁo com o outro. "A gente nĂŁo vai reverter esse quadro de violĂȘncia sem ser pelo afeto e pela educação", afirma.
Sobre o SĂŁo Paulo Innovation Week
O SĂŁo Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, Ă© realizado pelo EstadĂŁo em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap atĂ© sexta-feira, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os trĂȘs dias do evento, estĂŁo especialistas brasileiros e estrangeiros em ĂĄreas como ciĂȘncia, saĂșde, educação, agronegĂłcio, finanças, mobilidade, geopolĂtica, esportes, sustentabilidade, arte, mĂșsica e filosofia, entre muitas outras.
