Diretórios do MDB fazem manifesto contra partido na vice de Lula e por neutralidade nas eleições

 

Fonte:


A maioria dos diretórios estaduais do MDB assinou um manifesto que será entregue nesta terça-feira ao presidente nacional da sigla, o deputado federal Baleia Rossi (SP), para pedir a neutralidade do partido nas eleições presidenciais. O posicionamento ocorre após o MDB ser cortejado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para concorrer à vice-presidência em sua chapa à reeleição, vaga atualmente ocupada por Geraldo Alckmin (PSB).

Leia: Gonet pede arquivamento de inquérito contra Musk e diz que não há provas de uso doloso do X para ataques ao Judiciário

Após candidatura: Flávio passa Tarcísio e vira o favorito da direita em atos bolsonaristas

Neste final de semana, o vice-governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), que lidera o movimento, se reuniu com Baleia para entregar uma carta em que rechaça a formação de uma aliança com o PT. A informação foi publicada pelo jornal "Folha de S. Paulo" e confirmada pelo GLOBO.

Presidente do diretório goiano, Vilela afirma que Baleia tem "consciência absoluta" que a maioria do partido é contrária ao alinhamento com os petistas. O vice-governador também alega esperar que a decisão seja tomada "o mais rápido possível".

— Essa possibilidade de aliança gera instabilidade, dificuldade nas filiações e, ao mesmo tempo, na atração de novos candidatos. Então, o partido não tem como aguardar a convenção em agosto para poder tomar essa decisão. Ele (Baleia) tem que ter clareza do que é o sentimento do partido hoje em relação a essa decisão — diz Vilela.

Ainda segundo o vice-governador — que assumirá o lugar do governador Ronaldo Caiado (PSD) após sua desincompatibilização para concorrer à Presidência —, é "absurdo" que integrantes do MDB compactuem com a possibilidade de se unir ao PT, que os "chama de golpistas por aí o tempo todo".

— Eu acho que o MDB tem que ter a vergonha na cara de não aceitar que se discuta isso. Nós fomos expostos aí nessa Sapucaí. Como é que um partido aceita algo dessa forma? — questiona Vilela, em alusão ao desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói que homenageou Lula e teve a ala "família em conserva", criticada pela oposição.

Dentro do partido, os principais entusiastas para a formação da aliança são o senador Renan Calheiros (AL) e o ministro dos Transportes, Renan Filho. O ministro é um dos apontados como possíveis vices de Lula em caso de concretização do alinhamento ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho.

Estados contra alinhamento

Conforme divulgado pelo GLOBO no mês passado, o MDB tem 16 diretórios contrários a apoiar Lula nas eleições, enquanto outros 11 núcleos estaduais são a favor. A última vez em que o partido esteve formalmente com o PT foi no apoio a ex-presidente Dilma Rousseff, com a indicação de Michel Temer para o cargo de vice.

À reportagem, Baleia ressaltou, àquela altura, que o foco do partido estava na formação dos palanques estaduais. A posição oficial da sigla, contudo, só seria definida na convenção nacional, na qual votam parlamentares, presidentes de diretórios e representantes nomeados como delegados.

— Nosso foco é na montagem dos palanques estaduais, respeitando a estratégia eleitoral de cada diretório. Essa é uma característica histórica do MDB — disse o presidente nacional da sigla. — Por isso, sempre digo: o MDB não tem dono — frisou.

Ao GLOBO, Vilela afirmou que, além dos presidentes estaduais, outros nomes de peso assinaram o manifesto, como os prefeitos de São Paulo, Ricardo Nunes, e de Porto Alegre, Sebastião Melo, bem como o deputado federal Alceu Moreira (RS), presidente da Fundação Ulysses Guimarães. O vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, e o vice-governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço, também são signatários do documento.

Na carta entregue por Vilela neste final de semana, o vice-governador goiano afirmou que é preciso que uma reunião da executiva nacional seja convocada "com a máxima urgência" para deliberar sobre o assunto. Ele aponta haver 17 diretórios estaduais "frontalmente contrários" à aproximação.

"Somos contra um governo que teve diversas oportunidades de promover os avanços que nosso país precisa e acabou entregando somente mais violência, desigualdade social e estagnação econômica", diz o documento. "Vamos iniciar um movimento de mobilização com outros estados para que o nosso partido assuma de forma clara e contundente aos brasileiros que não está e jamais estará aliado a um governo que promove o retrocesso", completa outro trecho.

Vilela é filho do ex-senador e ex-governador de Goiás, Maguito Vilela, que faleceu em 2021. O político foi um dos quadros mais tradicionais do partido e integrou o MDB (à época PMDB) desde 1983, sendo presidente nacional da sigla em 2001. Em 2007, Maguito foi nomeado justamente por Lula como vice-presidente do Banco do Brasil.