Diretor da OMS critica EUA por corte de 500 milhões de dólares em pesquisas com vacinas de RNA mensageiro
Os Estados Unidos cometeram um erro ao retirar quase US$ 500 milhões em financiamento de pesquisas sobre a tecnologia que deu origem às vacinas contra a Covid, o RNA mensageiro (RNAm) disse o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
— Cortar o financiamento da pesquisa em RNAm é a decisão errada. Espero que reconsiderem. Estamos na era molecular e essa tecnologia tem um enorme potencial — afirmou Tedros em entrevista ao programa The Mishal Husain Show, da Bloomberg, apontando para a possibilidade de usar vacinas de RNAm no tratamento de cânceres no futuro.
Ele também disse acreditar que os EUA voltarão a integrar a agência mundial de saúde pública, da qual se retiraram formalmente no mês passado, dentro de uma década. O presidente americano, Donald Trump, anunciou o plano de saída há um ano e deixou uma dívida não paga de cerca de US$ 260 milhões.
Trump tem criticado duramente a OMS, argumentando que ela carecia de prestação de contas aos EUA — anteriormente seu maior doador — e que falhou em responder adequadamente à pandemia. Além disso, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA reduziu planos para desenvolver vacinas com tecnologia de RNAm de empresas como Moderna, CSL Seqirus, Pfizer, Sanofi e AstraZeneca.
A medida ocorreu no momento em que o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., reformulava a abordagem do país em relação à imunização, incluindo a inclusão de críticos das vacinas em um importante painel consultivo e a redução do número de vacinas recomendadas para crianças nos EUA.
A discordância em torno da vacinação é um tema profundamente pessoal para Tedros, que se emocionou ao falar sobre a morte de seu irmão mais novo, causada pelo que ele hoje acredita ter sido sarampo.
— Eu fui o sortudo, e ele não foi. Eu sobrevivi — disse Tedros.
Apesar das divergências, Tedros afirmou que ainda se comunica com Kennedy por mensagens de texto e telefone. O chefe da OMS disse concordar com a abordagem de Kennedy em relação às doenças não transmissíveis, assim como com o esforço dos EUA para reduzir os preços dos medicamentos.
Questionado se acredita que os EUA voltarão a integrar a OMS na próxima década, Tedros respondeu afirmativamente. Os dois lados “ainda trabalham juntos”, afirmou, e o país entende o valor da organização em termos de segurança em saúde.
A visão de Kennedy de que a saúde é criada nos lares, nas escolas e no meio ambiente — e não nos hospitais — é uma ideia que Tedros disse compartilhar.
— É possível trabalhar juntos mesmo discordando em alguns pontos e concordando em outros — afirmou.
