Douglas Ruas , candidato ao governo do RJ pelo PL Fabiano Rocha / Agência O Globo
O resultado das eleições no Rio de Janeiro ampliou a força da direita e, em especial, do campo bolsonarista no Estado, na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Valor. A vitória de Carlos Portinho e Carlos Jordy na disputa ao Senado, o desempenho do PL nas cadeiras do Congresso e a arrancada de Douglas Ruas na corrida pelo governo estadual apontam para uma mudança que vem sendo construída no eleitorado fluminense desde o enfraquecimento do MDB, a partir de 2018.
Mapa da apuração: Como foi a votação para governador no RJ Para o cientista político e professor da PUC-Rio Ricardo Ismael, o sistema partidário fluminense passa por uma “reconfiguração” desde o fim do ciclo do MDB.
Nesse período, o PL ganhou espaço no Estado, assumiu o governo estadual e conquistou prefeituras no interior, movimento impulsionado também pelo desempenho eleitoral de Jair Bolsonaro e, mais recentemente, de Flávio Bolsonaro entre os eleitores fluminenses. “A força do campo bolsonarista continua presente no Rio", afirma Ismael, ao avaliar os resultados da apuração de domingo (4).
A consolidação da direita no Estado ocorre após um período em que o eleitorado fluminense passou por diferentes ciclos políticos. O Rio foi uma das principais bases eleitorais de Bolsonaro, que venceu as eleições presidenciais no Estado em 2018 e 2022.
O avanço do PL também ocorreu no espaço deixado pelo desgaste do MDB, que durante anos teve forte presença na política fluminense. Na eleição deste ano, esse movimento ganhou uma nova dimensão.
Segundo o cientista político, a estratégia de Douglas Ruas foi nacionalizar a disputa pelo governo estadual e associar sua candidatura à de Flávio, buscando fazer com que o eleitor que escolhesse o candidato do PL à presidência repetisse o voto para governador. O movimento também expôs os limites da estratégia adotada por Eduardo Paes (PSD), que tentou concentrar a disputa nas críticas à gestão de Cláudio Castro.
Para Ismael, a campanha do ex-prefeito não conseguiu impedir que a eleição estadual fosse contaminada pelo debate nacional. “Não foi bem-sucedido o discurso de Paes de centrar o debate em críticas ao governo Cláudio Castro, sem entrar nas questões nacionais”, diz.
Na avaliação do cientista político, a posição de Paes também produziu dificuldades para o eleitorado de centro-esquerda. Embora tenha buscado manter distância da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, Paes acabou, segundo Ismael, confundindo parte desse eleitorado.
“Ele confundiu o eleitorado de centro-esquerda quando procurou, em vários momentos, manter distância da campanha à reeleição do presidente Lula.” O resultado do Rio também pode ser lido dentro de uma disputa mais ampla pelo eleitorado brasileiro.
Desde a ascensão de Lula como principal liderança da esquerda, a direita passou a disputar novamente um espaço que historicamente esteve presente no eleitorado nacional. A eleição de Bolsonaro em 2018 mostrou a dimensão dessa mudança, e o fortalecimento do PL nos últimos anos indica que o movimento não se encerrou com a saída de Bolsonaro da Presidência.
No Rio, essa disputa ganhou características próprias pela ligação histórica do eleitorado fluminense com o bolsonarismo. Para Ismael, os resultados deste ano deixam claro que essa força permanece relevante e ajuda a explicar tanto a vitória de Flávio Bolsonaro quanto o desempenho de Douglas Ruas e do PL nas demais disputas.
Bolsonarismo se sobrepõe à direita Para a professora de Ciência Política da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), Mayra Goulart, o resultado demonstrado pelas urnas mostra a predominância do bolsonarismo no Estado.
“O Rio de Janeiro mostra que não existe espaço na direita pra nada que não seja o bolsonarismo”, afirma. Ao comparar o resultado do Rio com o cenário nacional, Mayra Goulart destaca que as urnas fluminenses explicam de onde saiu boa parte da margem favorável a Flávio Bolsonaro, que extrapolou as pesquisas de intenção de voto para a presidência.
A votação do candidato do PL foi muito maior no Rio de Janeiro do que se esperava. A Quaest de 29 de setembro apontava Flávio com 38% e Lula, 31%.
Após abertura das urnas, o resultado indicado foi 53,01% a 39,41% para o candidato do PL. Isso explicaria o fenômeno do crescimento vertiginoso de Ruas na reta final da campanha.
O presidente da Alerj focou em nacionalizar a disputa no Rio e colou sua imagem no clã Bolsonaro. Segundo Goulart, a nacionalização da disputa prejudicou Paes.
O ex-prefeito, que é aliado de Lula, não se apresentou como candidato de esquerda, buscou se consolidar como candidato mais ao centro, e fez inclusive alianças importantes com a direita. Porém, com o domínio do bolsonarismo no campo conservador, Paes teria sido empurrado para o polo da esquerda no jogo eleitoral desta campanha.
“Ele foi trucidado em virtude disso. A minha leitura sobre a votação de Eduardo Paes é que ele ficou somente com os votos da esquerda e a esquerda no Rio tá com muita dificuldade de eleger um candidato majoritário”, afirma a cientista política.
A analista aponta ainda a força e a capilaridade que a extrema-direita tem no Estado como fator preponderante. Segundo Goulart, a capacidade da direita de se enraizar, de aproveitar as “redes clientelares” do PL — que são estruturas de poder baseadas em relações de favores em troca de apoio político — ainda são subdimensionadas pelas análises eleitorais no Estado.
Além disso, ela destaca que a extrema-direita se especializou em uma “tecnologia da informação” própria. Esta seria operada através de influencers na internet, grupos de WhatsApp dos mais diferentes tipos, além de outros ambientes coletivos como igrejas, academias de musculação e locais de trabalho.
Isso explicaria, por exemplo, porque Douglas Ruas parece ter saído imune de toda campanha de desconstrução operada pela campanha de Paes. Além disso, teria saído ileso dos escândalos de corrupção envolvendo o grupo político de seus ex-aliados, como Cláudio Castro (PL), além de investigações em que ele próprio aparece como alvo.
“Tudo isso, todo esse caldo de cultura permite que eles informem esse eleitor de maneira muito dissonante ao que os veículos de mídia tradicional fazem . E com isso tornem aqueles candidatos que são apoiados, que se amparam nessas bolhas, muito invulneráveis à dinâmicas de corrupção, aos mais diversos escândalos”, explica a professora.
Valor