Dinheiro alemão e 'boom' imobiliário alavancam surpresa da Copa Do Brasil
Único novato desta edição que chegou à quinta fase da Copa do Brasil, o Barra (SC) tentará nesta quinta-feira uma improvável classificação diante do Corinthians, em São Paulo, às 19h30, após ter perdido o jogo de ida por 1 a 0. Seja qual for o resultado, a volta para casa do time de Balneário Camboriú será sem preocupações financeiras: o pix de R$ 6 milhões prometido pela CBF em caso de ida às oitavas de final, considerando as fases anteriores, é uma fração mínima do que o Barra espera ganhar em seu próprio estádio no litoral catarinense, que sequer pôde receber o jogo contra a equipe paulista no torneio.
Fundado em 2013, o Barra tem como principal investidor o bilionário alemão Dietmar Hopp, dono do Hoffenheim. Mas a galinha dos ovos de ouro atualmente é o “boom” da construção civil em Santa Catarina, estado que tem quatro das cinco cidades com o metro quadrado mais caro do país, segundo o índice FipeZap: Balneário Camboriú, Itapema, Itajaí e Florianópolis, com Vitória (ES) completando a lista.
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Um dos símbolos dessa expansão imobiliária local é a Praia Brava, na divisa entre Balneário Camboriú e Itajaí, região que já atraiu famosos como a modelo Gisele Bündchen e o ex-jogador e senador Romário. Em dezembro, um grupo de empresários apresentou junto à prefeitura de Itajaí um projeto, orçado em R$ 93 milhões, para abrir uma estrada ligando a BR-101, principal via de acesso ao litoral, à Praia Brava.
As obras devem começar neste ano, com a expectativa de atrair novos imóveis de alto padrão e valorizar ainda mais a região -- que inclui as imediações da Arena Barra, estádio inaugurado em 2025 pelo clube catarinense.
-- Esse acesso à BR-101 vai passar em frente ao nosso estádio. Atrás do gol, temos quatro hectares que poderemos arrendar, por exemplo, para a construção de um shopping ou de um hotel. Só essa área provavelmente já vai pagar tudo o que gastamos para fazer o nosso complexo esportivo -- afirmou ao GLOBO o presidente do Barra, Bene Sobrinho.
Ao todo, de acordo com Sobrinho, o clube adquiriu uma área de 34 hectares – o equivalente a quase 50 campos de futebol – entre a BR-101 e a Praia Brava. Cerca de um terço desse terreno foi usado para construir o Centro de Treinamento, com quatro campos de dimensões oficiais, e o estádio do Barra, que abriga 5 mil torcedores. Apesar da estrutura moderna, o estádio tinha metade da capacidade mínima exigida pela CBF para o duelo contra o Corinthians, o que fez o clube mandar a partida em Florianópolis.
Camarote da Arena Barra na final da Série D de 2026: o presidente da Federação Catarinense, Rubens Angelotti (à esquerda); o presidente do Académico de Viseu, Mariano Maroto Lopez; o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (ao centro), ao lado do presidente da CBF, Samir Xaud, e do empresário Roger Wittman
Roberto Zacarias/Governo de Santa Catarina
O clube não divulga o valor da obra, mas a estimativa na imprensa local é que o complexo esportivo tenha custado cerca de R$ 80 milhões, investimento que o Barra agora calcula recuperar integralmente.
Segundo o dirigente, a valorização dos terrenos na região chegou a ser vista como uma falha no projeto original dos alemães. Em 2013, quando se organizaram para fundar um clube de futebol em Balneário Camboriú, Sobrinho e outros integrantes da Rogon, empresa de agenciamento de jogadores que é próxima ao dono do Hoffenheim, levaram em conta fatores geográficos -- como a proximidade com Florianópolis e Porto Alegre, onde o grupo já atuava -- e a boa relação com a Federação Catarinense de Futebol.
O alto custo, porém, dificultou a construção do complexo esportivo, que só começou em 2022, e na vizinha Itajaí. Agora, com CT e estádio recém-inaugurados, o objetivo do Barra é se consolidar como plataforma de formação de jogadores no Sul do Brasil, integrada à rede de clubes do Hoffenheim, que inclui ainda o Académico de Vizeu em Portugal.
No ano passado, o clube foi campeão da Série D na sua Arena Barra, contra o Santa Cruz, o que lhe deu vaga na terceira fase da Copa do Brasil deste ano. Na estreia, bateu o América-MG nos pênaltis, em casa, e repetiu o feito na fase seguinte, fora, contra o Volta Redonda. O goleiro Ewerton, que chegou ao Barra vindo do América-RN em 2023, foi herói nos dois jogos. Outro destaque foi o atacante Lucas Vargas, cria do Barra, que converteu o último pênalti contra o Voltaço.
A ascensão do Barra vem ajudando o clube a criar raízes em Balneário Camboriú. A classificação contra o América-MG, acompanhada pela reportagem do GLOBO na Arena Barra, teve estádio lotado e torcida empurrando o time do início ao fim -- numa intensidade que surpreendeu até os atletas da base do clube, que acompanhavam o jogo na arquibancada.
O jogo que valeu o título da Série D, no ano passado, contou com a presença do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), e do presidente da CBF, Samir Xaud. Eles foram recebidos em um camarote da Arena Barra por Mariano Maroto Lopez, que é o atual presidente do Académico de Viseu e braço-direito de Dietmar Hopp; e pelo empresário alemão Roger Wittman, outro aliado do dono do Hoffenheim.
Wittman é casado com a empresária catarinense Francielli Lopes, que atua no ramo de vestuário, e é também dono da Rogon, a agência de jogadores ligada à fundação do Barra. Os laços entre Wittman e o Hoffenheim geram controvérsia na Alemanha – no ano passado, torcedores tentaram banir o empresário do clube --, mas seguem firmes na filial brasileira.
Uma das empresas de Wittman no Brasil, a Rawi Investimentos, está registrada numa sala do quarto andar de um edifício comercial em Balneário Camboriú que, segundo os balanços do Barra, também funcionou como escritório do clube. Até 2025, a sala também era o endereço da Braho Investimentos, empresa controladora do Barra, e cujo sócio final é Dietmar Hopp, o dono do Hoffenheim.
O mesmo endereço abriga ainda a Firminvest Participações, empresa do atacante Roberto Firmino, cuja administradora é a advogada Keila Pereira, diretora jurídica do Barra. Revelado pelo Figueirense, Firmino ganhou projeção internacional no Hoffenheim, onde passou a ter a carreira agenciada por Wittman -- que o levou no ano passado para o Al Sadd, do Catar. Outro agenciado pela Rogon é o atacante Lucas Vargas, do Barra, que fez o gol da classificação contra o Volta Redonda.
Além do bom desempenho na Copa do Brasil, o Barra foi campeão catarinense neste ano pela primeira vez, e ainda mira outro feito inédito: se classificar para a Série B do Brasileirão. Por ora, a equipe está em nono na Série C, com os mesmos nove pontos do Maringá (PR), primeiro time na zona de classificação para a próxima fase.
