Diego Borges comenta sobre o saneamento básico: Por que a infraestrutura hídrica ainda define a qualidade de vida nas cidades brasileiras?
O Brasil avançou em diversas áreas de infraestrutura nas últimas décadas, mas o saneamento básico permanece como um dos gargalos mais persistentes do desenvolvimento nacional. Diego Borges, profissional da área de engenharia com atuação em obras de sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário, acompanha de perto um cenário em que milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado a serviços que, em muitos países, são tratados como direito inquestionável.
A ausência de saneamento não é apenas uma questão técnica: ela se manifesta em internações hospitalares evitáveis, em perda de produtividade, em degradação ambiental e em desigualdade territorial que se reproduz geração após geração.
A relação direta entre saneamento e saúde pública
Entre todas as consequências do déficit de saneamento, o impacto na saúde pública é o mais imediato e o mais documentado. A falta de tratamento adequado de esgoto contamina mananciais, compromete a qualidade da água distribuída e cria condições propícias para a proliferação de doenças de veiculação hídrica, como leptospirose, hepatite A, cólera e diversas formas de diarreia infecciosa.
Nota-se que parte significativa das internações pediátricas registradas em regiões com baixa cobertura de saneamento está diretamente relacionada à ausência de infraestrutura básica de esgotamento sanitário, um dado que expõe o custo humano concreto de um problema tratado por décadas como questão secundária nas prioridades de investimento público.
A equação, contudo, também funciona no sentido inverso. Estudos realizados em municípios que ampliaram a cobertura de saneamento básico registram quedas consistentes nas taxas de mortalidade infantil e de internações por doenças infecciosas, além de melhora nos indicadores de desenvolvimento humano. Diego Borges observa que o investimento em obras de saneamento apresenta um dos melhores retornos sociais mensuráveis dentro da infraestrutura pública, um argumento que deveria ser central nas discussões sobre alocação de recursos nos orçamentos municipais e estaduais.
Esgotamento sanitário e o passivo ambiental das cidades
O descarte de esgoto sem tratamento em rios, lagos e oceanos é uma das formas mais graves de degradação ambiental produzida pelo déficit de saneamento. Observa-se que o passivo ambiental acumulado por décadas de infraestrutura insuficiente impõe custos crescentes de recuperação que frequentemente superam, em muito, o que teria sido necessário para construir a infraestrutura adequada desde o início. Rios urbanos transformados em canais de esgoto a céu aberto representam não apenas um problema ambiental, mas um fator de degradação do tecido urbano e de redução da qualidade de vida de toda a população que vive em suas proximidades.
Em paralelo, a contaminação de aquíferos e mananciais superficiais por efluentes não tratados compromete a disponibilidade de água para abastecimento, criando um ciclo em que a ausência de esgotamento sanitário agrava diretamente o problema do abastecimento de água. Diego Borges entende que romper esse ciclo exige planejamento integrado, com obras de esgotamento e abastecimento sendo tratadas como sistemas interdependentes e não como projetos isolados.
O marco regulatório e os desafios da universalização
O Marco Legal do Saneamento estabeleceu metas ambiciosas para a universalização dos serviços no Brasil, com prazos que impõem pressão crescente sobre operadoras e municípios. Diego Borges acompanha como esse novo ambiente regulatório está redesenhando o setor, atraindo investimentos privados e pressionando companhias públicas a acelerarem programas de expansão e modernização que, em muitos casos, haviam sido postergados por décadas. A perspectiva de processos competitivos de concessão transformou a dinâmica do setor e criou incentivos concretos para que a eficiência operacional e a ampliação da cobertura deixem de ser metas abstratas e passem a ser condições contratuais com consequências reais.
Nessa direção, os desafios mais complexos estão nos municípios de menor porte e nas periferias urbanas, onde o custo per capita de implantação de infraestrutura é mais elevado e a capacidade de pagamento da população é menor. A universalização do saneamento básico no Brasil depende de modelos de financiamento que considerem essas assimetrias e que garantam que a lógica econômica das concessões não deixe para trás justamente as populações que mais precisam dos serviços.
