Diários cruzados revelam a vida silenciada de judia alemã perseguida pelo nazismo; entenda

 

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O passado que parecia apenas uma “grande aventura” familiar ganha contornos sombrios e profundamente humanos neste livro comovente escrito pela atriz e imitadora britânica Jess Robinson. A obra reconstrói a trajetória de sua avó, Rosi Schul, uma jovem judia alemã que teve a vida brutalmente interrompida pela perseguição nazista, a partir de anotações de diário escritas entre outubro de 1938 e março de 1943, quando ela tinha 23 anos.

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Rosi cresceu em um ambiente afetuoso, cercado por música e cultura. Pianista, violonista e professora, encontrou no trabalho em um orfanato na pequena e idílica Esslingen, perto de Stuttgart, uma rotina que parecia definitiva. A cidade tornou-se para ela uma espécie de parâmetro emocional, frequentemente evocada em comparações com outros lugares, como a Inglaterra. Essa estabilidade, no entanto, foi abruptamente rompida na noite de 28 de outubro de 1938, quando a Gestapo chegou para prendê-la, junto com três crianças sob seus cuidados.

Prisão, deportação e resistência silenciosa

Levadas em vagões de gado e submetidas a humilhações, Rosi e outras mulheres judias foram deportadas para Zbaszyn, na Polônia, onde milhares de pessoas viviam em condições precárias, com escassez de comida e água. Mesmo diante do internamento e da violência, o diário revela uma jovem de notável lucidez e estoicismo. Rosi registra que, frente a um poder “implacável, cruel e terrível”, não havia espaço para indignação ou súplicas. Seu gesto mais emblemático de resistência foi cantar para as companheiras de cela, acompanhada pelo violão que recebera na prisão.

A narrativa ganha outra camada ao ser intercalada com os diários de Jess, escritos a partir de 2006, também aos 23 anos. O contraste entre as experiências — uma jovem tentando sobreviver ao nazismo e outra lidando com trabalho, relacionamentos e violência cotidiana na Londres dos anos 2000 — evidencia paralelos inesperados na vivência feminina, apesar das diferenças históricas e sociais. Em datas que se espelham, questões como exclusão, agressão e identidade atravessam as duas trajetórias.

Após mais de seis meses em Zbaszyn, Rosi encontrou no ensino e no cuidado com crianças uma forma de preservar alguma normalidade. Em agosto de 1939, ela acompanhou um grupo infantil em um Kindertransport para a Inglaterra, onde conseguiu se estabelecer enquanto a guerra avançava pela Europa. A experiência marcou definitivamente sua vida, embora tenha sido mantida em silêncio por décadas dentro da família.

Na parte final do livro, Jess narra a mobilização de mulheres da família — mãe, tia, irmãs e sobrinha — para obter a cidadania alemã. O processo leva à redescoberta de documentos, fotos e diários de Rosi, revelando a verdadeira dimensão da história que ela ocultou por quase 80 anos. Também vêm à tona conflitos familiares, especialmente entre Jackie, mãe de Jess, e Stephie, tia, que tiveram percepções muito distintas da mesma mulher.

O desfecho se dá em tom de reconciliação. A obtenção dos passaportes alemães coincide com uma homenagem a Rosi na Biblioteca Wiener do Holocausto, em Londres, onde ela reencontra crianças que cuidou décadas antes. Entre relatos emocionados e a sensação de retorno simbólico ao lar, o livro se afirma como um retrato sensível da memória, do trauma e da permanência dos vínculos — pessoais e históricos — que atravessam gerações.