Diário de mais de um ano da luta pela vida: esposa de piloto de helicóptero da Core baleado contou nas redes os passos para tentar mantê-lo vivo

 

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Foram 423 dias entre o disparo de fuzil que atravessou o crânio do piloto da Polícia Civil do Rio Felipe Marques Monteiro e a publicação mais difícil feita por sua esposa, Keidna Marques. Na noite do último domingo, após mais de um ano transformando as redes sociais em uma espécie de diário da luta do marido contra a morte, ela escreveu poucas linhas:

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“Um guerreiro do início ao fim. Hoje nos despedimos com dor, mas também com gratidão por toda força, amor e exemplo que deixou em nossas vidas. Seu legado jamais será esquecido”, em seu perfil do Instagram.

A despedida encerrou uma sequência de relatos iniciada em 21 de março de 2025, um dia após Felipe ser baleado na cabeça durante uma operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) na Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio. Naquele dia, o policial de 45 anos pilotava um helicóptero da Polícia Civil quando a aeronave foi alvo de tiros disparados por criminosos da comunidade. Mesmo gravemente ferido, o voo conseguiu ser estabilizado após o copiloto assumir os comandos da aeronave e realizar o pouso de emergência.

Felipe foi levado em estado gravíssimo para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul do Rio. Os médicos identificaram a perda de cerca de 40% do crânio após o disparo de fuzil atravessar sua cabeça. No dia seguinte, ele foi transferido para o Hospital São Lucas, em Copacabana, onde começaria uma longa sequência de neurocirurgias, infecções, períodos críticos e tentativas de reabilitação.

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Enquanto Felipe lutava pela vida dentro do hospital, Keidna fazia das redes sociais um espaço de atualização diária da batalha.

“Meu amor será transferido hoje. As coisas estão correndo tudo bem! Continuem orando que a nossa fé está ajudando muito na recuperação dele”, escreveu ela em 21 de março, em seu perfil.

Nos dias seguintes, as mensagens alternavam entre orações, declarações de amor e tentativas de manter a esperança diante do quadro crítico. Em 25 de março, cinco dias após o atentado, ela publicou um longo texto relembrando a trajetória do marido na aviação e na segurança pública.

“Você sempre disse que o que mais te orgulhava na aviação era o helicóptero como um instrumento de velocidade para salvar vidas”, escreveu.

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Na publicação, Keidna relembrou que Felipe havia passado por operações em Goiás, Sergipe e Alagoas antes de realizar o “sonhado concurso” da Polícia Civil do Rio. Citou ainda o trabalho dele em resgates do Samu, combate a incêndios no Sul do país e até voos offshore para plataformas de petróleo. “Tudo na aviação te fascina, e você sempre luta pelo melhor para a corporação e por onde passa”, completou Keidna, no texto.

No dia 30 de março, dez dias após o tiro, a esposa já falava em “milagre” e descrevia o marido como “um verdadeiro sobrevivente de Deus”. Àquela altura, Felipe seguia internado em estado crítico, cercado por doações de sangue, monitoramento intenso e cirurgias delicadas.

Com o passar dos meses, os relatos passaram a mostrar não apenas a gravidade do quadro, mas também a rotina emocional criada dentro do hospital. Em junho, Keidna publicou um texto sobre o corredor da unidade hospitalar que cruzava diariamente:

“Esse corredor viu Felipe ser levado para inúmeros exames e algumas vezes para o centro cirúrgico.”

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Na publicação, ela contou que havia um ponto específico do corredor que não conseguia mais olhar sem reviver o medo de um momento em que o marido precisou ser levado às pressas para um procedimento de emergência. Ainda naquele período, Felipe enfrentava infecções severas e novas complicações clínicas. Em 29 de junho, ao completar 100 dias de internação, Keidna resumiu a rotina da família como “uma batalha diária feita de dores, esperança, amor, entrega e resistência”.

Mesmo nos momentos mais difíceis, pequenos sinais passaram a ganhar significado enorme nas publicações da esposa. Em uma postagem de junho, ela descreveu o instante em que Felipe movimentou a mão e tocou seu rosto enquanto ela descansava no colo dele.

“Nesse toque silencioso, eu reconheço o mesmo amor. A mesma presença. A mesma força que me faz continuar”, escreveu Keidna.

Ao longo da recuperação, Felipe passou por diversos procedimentos complexos, incluindo uma cranioplastia — cirurgia destinada à reconstrução da estrutura craniana destruída pelo tiro. Segundo os médicos, ele ficou mais de sete meses sob cuidados intensivos e passou por longos períodos de coma.

Em agosto, quando a internação completou cinco meses, Keidna relatou os “altos e baixos” da recuperação: “Dias em que Felipe demonstrou muita força e outros em que mal conseguia levantar o braço. É uma guerra diária contra infecções.”

Em novembro de 2025, após oito meses no CTI neurológico do Hospital São Lucas, Felipe recebeu alta da terapia intensiva e foi transferido para um quarto sob aplausos da equipe médica. Poucos dias depois, no aniversário de 15 anos de casamento, Keidna comemorou apenas o fato de o marido ainda estar vivo. “Meu coração está feliz por você estar aqui”, escreveu a esposa, no seu perfil nas redes.

A alta hospitalar veio em dezembro do ano passado, após nove meses de internação. O momento da saída do hospital foi tratado pela esposa quase como um símbolo coletivo de sobrevivência.

“O cortejo, as viaturas, a aeronave… não foram apenas uma despedida do hospital. Foram um gesto de amor, respeito e união”, publicou keidna.

Mas a recuperação ainda estava longe do fim. Em dezembro, Keidna compartilhou vídeos de Felipe conseguindo movimentar sozinho a cadeira de rodas e, dias depois, voltando a escrever. A primeira palavra registrada por ele numa folha de papel foi “amor”.

“Como não se emocionar com a primeira escrita do Felipe sobre o sentimento… ser AMOR”, escreveu ela em seu perfil do Instagram, na virada para 2026.

No início deste ano, porém, a situação voltou a se agravar. Em janeiro, Felipe precisou retirar uma prótese craniana após uma infecção. Em fevereiro, Keidna revelou que o marido havia voltado a piorar depois de um período de evolução clínica.

Em abril deste ano, Felipe passou por uma nova cirurgia craniana. A data coincidiu com o dia de São Jorge, citado pela esposa como símbolo da “coragem e fé” do policial. Dias depois, porém, novas complicações apareceram. Segundo a família, o policial precisou passar por uma cirurgia de emergência para retirada de um hematoma após apresentar novos sangramentos intracranianos. Felipe voltou a ser sedado e precisou permanecer no respirador. Mesmo diante do agravamento, Keidna seguia descrevendo pequenos sinais de melhora:

“Hoje você já saiu da sedação, abriu os olhos, piscou”, escreveu Keidna em 7 de maio.

A morte de Felipe foi confirmada neste domingo pela família e pela Polícia Civil. Em nota, o Governo do Estado destacou a “longa, difícil e corajosa batalha pela vida” travada pelo agente desde o atentado sofrido durante a operação da Core.

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