Diálogos entre chefes do CV mostram como facção age, da execução de inimigos à tomada de favelas

 

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O inquérito da Polícia Civil que baseou a operação Contenção Red Legacy demonstra a organização do Comando Vermelho (CV). Além de funções definidas dentro da facção, conversas trocadas entre os chefes do grupo criminoso mostram desde o planejamento para a tomada de novos territórios à execução de inimigos.

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Edgar Alves de Andrade, o Doca (apontado como um dos principais chefes do CV), e Carlos Costa Neves, o Gardenal (com papel de “Estado-Maior” da quadrilha, segundo a polícia) conversaram, em janeiro do ano passado, sobre um rapaz capturado por integrantes do CV na Gardênia Azul, na Zona Sudoeste.

Após receber a foto do indivíduo, morador de uma favela de Jacarepaguá sob domínio da milícia, Doca ordena: “manda sumir”. Para a Polícia Civil, aconteceu ali uma “execução sumária” — com ocultação do corpo — a partir da “deliberação interna” dos bandidos do CV, que vasculharam o celular da vítima e encontraram fotos de milicianos armados.

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A violência do grupo também aparece como parte do planejamento da invasão do CV ao Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, na Zona Norte, em fevereiro de 2025. Num dos diálogos, Doca indicou que era preciso “entrar matando” na comunidade que era alvo de disputa com o Terceiro Comando Puro. Gardenal, então, respondeu com a organização de como sete carros do CV entrariam por diferentes regiões da favela, com encontro no alto do Juramento ao fim da empreitada.

“Tal técnica revela planejamento tático, padronização operacional e coordenação prévia, incompatíveis com ações improvisadas”, analisou a Polícia Civil.

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A investigação calcula que o CV conseguiu, desta forma, invadir mais de 40 comunidades do Rio nos últimos três anos. Mas nem sempre a tomada de território ocorreu à bala. Trecho do inquérito mostra a negociação do miliciano Phellipe de Souza Batista, o Tikinho, com Gardenal e Doca. Então chefe da favela da Taboinha, em Vargem Grande, Tikinho se dispôs a ir ao Complexo da Penha — base de Doca — negociar uma espécie de passagem do controle para o CV, o que “se concretizou”: a polícia aponta que a favela atualmente é dominada pelo Comando Vermelho.

Um mapa enviado por Tikinho à época do diálogo mostrava 13 comunidades da região das Vargens, na Zona Sudoeste, das quais pelo menos dez estavam sendo controladas pela milícia em março de 2025. Apenas uma delas, a Beira-Rio, segue com os paramilitares. As demais foram todas tomadas pelo CV, o que indica, para a polícia, um “processo contínuo e bem-sucedido de absorção territorial, compatível com a lógica de cartelização criminosa”: esse movimento é caracterizado por repartição dos territórios, a partir de uma estrutura criminosa organizada, que elimina concorrentes, impõem regras, além de monopólios ilícitos.