José Alexandre Scheinkman: investidores não se planejam pelas preferências de Trump por um ou outro presidente Ton Molina/Bloomberg
Brasil e Estados Unidos têm pendências a resolver na esfera diplomática e comercial que devem voltar à pauta em um clima ainda incerto depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O presidente americano, Donald Trump, não havia declarado apoio a nenhuma candidatura no Brasil, mas sinalizava a preferência por Flávio Bolsonaro (PL).
Na segunda-feira (26), no primeiro comentário sobre o segundo turno, Trump disse a jornalistas que pareceu ter havido fraude no processo - numa referência à inesperada decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no domingo de prorrogar por duas horas o horário de votação. Disse também que gosta de Lula e que se dá muito bem com o governo brasileiro.
Mas considerou a decisão “muito estranha”. Para Benjamin Gedan, pesquisador sênior e diretor do programa para América Latina do Stimson Center, a reeleição de Lula foi uma decepção para Trump, que segue com os dois maiores países da América Latina - Brasil e México - fora de sua aliança regional.
“Embora Trump tente restaurar a influência dos EUA na América Latina, ele não tem demonstrado disposição - ou talvez simplesmente não tenha capacidade - para construir laços sólidos com líderes progressistas”, diz. É nesse ambiente duvidoso que os dois governos terão de decidir como encaminhar algumas questões que seguem em aberto.
“Lula tem a chance de dar o primeiro passo”, diz o analista americano Bjorn Beam, especialista em geopolítica da Arcano Research. Ele se refere à embaixada dos EUA em Brasília que desde janeiro de 2025 é comandada pelo encarregado de negócios (o número 2 da representação) por falta de embaixador.
O indicado por Trump, Daniel Perez, ainda aguarda a aprovação do Brasil. “Se Lula aprovar rapidamente, isso trará um pouco de tranquilidade; se ele protelar a decisão, Washington interpretará isso como uma tentativa do Brasil de aumentar o preço”, disse Beam ao Valor, que já trabalhou como agente da CIA, o serviço secreto dos EUA.
Em agosto, usando a situação da indefinição do futuro de Perez no Brasil como justificativa, Trump ordenou, de forma sem precedentes, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Outra questão que aguarda o diálogo entre os dois países diz respeito à agenda mineral.
O governo americano está ansioso por ter acesso a novos depósitos minerais pelo mundo - em particular de minerais críticos para reduzir sua dependência da China. O Brasil é um dos países da América do Sul que se apresentam como potencial alternativa.
Mas Lula não parece interessado em negociar acordos que privilegiem os EUA ou qualquer outro país. Tem dito que ponto central deve ser parcerias que agreguem valor aos minerais críticos no Brasil.
Washington já apoia uma empresa americana que opera a única mina de terras raras em produção em escala comercial no Brasil. Trump não tem interesse nos esforços de Lula para combater a pobreza ou proteger a floresta”
Trump pode manter na mesa uma moeda de troca relevante: a redução de tarifas que ainda incidem sobre uma lista de produtos brasileiros s houver algum tipo de acordo que dê acesso facilitado a reservas minerárias do Brasil. O timing é um elemento importante nesse assunto, lembra Beam.
Os americanos vão às urnas em 3 de novembro para eleições legislativas em que os aliados de Trump estão mal posicionados nas pesquisas. No Brasil, a posse de Lula ocorrerá em 5 de janeiro.
E logo depois, em 10 de janeiro, termina uma trégua entre EUA e China - que vem mantendo suspensas as regras chinesas para limitar as exportações de terras raras. Um cenário é que o governo Trump espere as eleições legislativas e que depois disso passe a investir mais diretamente nas negociações com o Brasil à medida que se aproxime o fim da trégua com a China.
Ao mesmo tempo, interlocutores do governo brasileiro esperam que uma vitória dos democratas no Congresso dos EUA poderá contribuir para temas de interesse do país na gestão Lula 4, como as tarifas. Na avaliação desses interlocutores, poderia haver uma “alteração da correlação de forças”.
Não é uma avaliação consensual, no entanto, entre analistas americanos. “Não há muito o que o Congresso possa fazer em relação às tarifas, agora que Trump as reclassificou sob categorias que lhe conferem poder para impor taxas com base em questões de segurança nacional e equilíbrio do balanço de pagamentos”, diz Todd Belt, diretor na Escola de Pós-Graduação em Gestão Política da Universidade George Washington.
Uma aproximação entre Lula e Trump é vista como improvável por Gedan. “Lula não tem interesse na abordagem militarizada de Trump para o combate ao crime nem em seu objetivo de expulsar a China da América Latina.
Trump, por sua vez, não tem interesse nos esforços de Lula para combater a pobreza ou proteger a floresta tropical.” Gedan afirma que “Trump é imprevisível” e uma redefinição na relação não é impossível.
Já Lula, diz, manteve uma postura firme diante de Trump, mas também sem provocá-lo. O fato de o Brasil ter reeleito um governo de esquerda - que não tem um perfil pró-Trump como passaram a ter diversos países da América Latina - pode ser encarado como desvantagem para a agenda de Trump na região.
Mas não é necessariamente desvantagem para o Brasil quanto à atração de investimentos. “Empresas e investidores americanos e europeus não planejam seus investimentos nesse ou naquele país porque o Trump gosta mais daquele presidente do que desse.
Isso não entra nas contas. O investimento no Brasil vai ocorrer em função, sim, de duas variáveis”, diz José Alexandre Sheinkman, professor de economia da Universidade Columbia.
“Uma das variáveis são as oportunidades que o Brasil oferece, que na minha opinião, em geral, são muito boas. E também o grau de estabilidade econômica que o novo governo Lula vai poder prover.”
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Valor