‘Diálogo ajudou a criar ambiente de responsabilidade compartilhada e confiança’
Entre 2015 e 2025, a AB InBev e a Ambev colocaram em prática o plano Compromissos Globais de Consumo Inteligente (Global Smart Drinking Goals), estratégia orientada pela premissa da Organização Mundial da Saúde (OMS) de reduzir o uso nocivo de álcool em até 10% até 2025. Para isso, foi investido US$ 1 bilhão em ações para estimular o consumo responsável. Pela sua relevância global, o plano foi alvo de recente estudo de caso na Universidade de Georgetown, que avaliou a jornada de dez anos dos compromissos selados pela Ambev.
Acesse os resultados do estudo.
Na entrevista a seguir, Carla Crippa, vice-presidente de relações corporativas da Ambev, destaca os principais resultados alcançados pelo plano e apresenta os próximos passos da companhia para o futuro dentro do tema de consumo responsável de álcool:
Os Compromissos Globais de Consumo Inteligente apoiaram iniciativas voltadas à redução do uso nocivo de álcool no mundo. Como esse trabalho foi desenhado e quais resultados gerais destacaria?
Promover a moderação é premissa fundamental e essencial para a sustentabilidade do nosso negócio no longo prazo e para o papel que temos na sociedade. Em 2015, lançamos nossa estratégia estruturada envolvendo o investimento de US$ 1 bilhão para avançar a moderação por meio de inovação, normas sociais, parcerias e iniciativas baseadas em evidências.
O plano teve quatro pilares principais: campanhas para reforçar comportamentos positivos, rotulagem voluntária com orientações preventivas, iniciativas baseadas em evidências em seis cidades pilotos ao redor do mundo e expansão do portfólio de cervejas sem álcool e de baixo teor alcoólico. Isso exigiu uma ação sistêmica e construída em parceria com governos, academia, organizações da sociedade civil e comunidades locais.
O que a Ambev aprendeu com a experiência de implementar ações para reduzir o consumo nocivo de álcool?
Para gerar impacto real, é necessário combinar rigor científico, mensuração consistente e forte execução local. A experiência mostrou que algumas in iciativas fora m mais eficazes. Por exemplo: campanhas de marketing têm maior impacto quando oferecem escolhas aos consumidores, como cerveja sem álcool e alternância com cerveja regular [chamado “efeito zebra”]; treinamento de serviço responsável de bebidas para bares e restaurantes; e iniciativas para melhorar a segurança viária, em parceria com governos e organizações locais.
Outro aprendizado importante foi reconhecer os limites do nosso papel. Avançamos mais quando atuamos como parceira, dentro de um modelo de responsabilidade compartilhada, em vez de protagonista isolada, dividindo decisões, dados e responsabilidades com governos, academia e organizações de saúde pública.
A estratégia de incluir orientações de consumo responsável nas embalagens de bebidas foi bem-sucedida. A Ambev rotulou voluntariamente seus produtos em 26 países onde não havia exigência legal. Como esse trabalho gerou impacto positivo no mercado?
A rotulagem com mensagens e orientações preventivas foi uma das decisões mais importantes da estratégia , justamente por ser voluntária, global e implementada em escala, inclusive em países sem exigências regulatórias. Ao fazer isso, a AB InBev praticamente dobrou o número de mercados onde a rotulagem não era obrigatória, dando aos consumidores acesso a informações sobre consumo responsável e mensagens acionáveis baseadas em evidências, diretamente nas embalagens primárias e secundárias dos produtos.
O impacto positivo aparece em diferentes níveis. Primeiro, no aumento da conscientização sobre moderação e consumo responsável, com mensagens simples, como não beber e dirigir. Segundo, no envio de um sinal claro, para o mercado e para reguladores, de que é possível ava nça r a ntes mesmo de haver uma exigência legal, ajudando a elevar os padrões da nossa indústria.
O estudo de caso de Georgetown foi transparente ao reconhecer que o impacto comportamental dos rótulos ainda requer mais dados. No entanto, do ponto de vista institucional, a iniciativa fortaleceu nossa credibilidade, ampliou o diálogo com autoridades e criou uma base concreta para avaliações mais robustas no futuro.
Ambev destacou resultados obtidos com o estudo Global Smart Drinking Goals (GSDG); na foto, da esquerda para a direita, os participantes do painel de abertura: a mediadora Angélica Banhara, Sandra Sabino (Prefeitura de São Paulo), John Blood (AB InBev) e Ladan Manteghi (Universidade de Georgetown)
Rodrigo Peixoto/G.Lab
A AB InBev e a Ambev implementaram projetos pilotos com o objetivo de reduzir o uso nocivo de álcool em pelo menos 10% em seis cidades no mundo. Quais iniciativas foram consideradas mais promissoras e por quê?
Entre dezenas de iniciativas, três se destacaram pela escalabilidade global: segurança viária, serviço responsável de bebidas e triagem e intervenção breve [screening and brief intervention]. A força dessas iniciativas está no foco direto em situações de risco, respaldadas por evidências da Organização Mundial da Saúde, e na capacidade de escalar rapidamente com o apoio de tecnologia e parceiros locais.
No Brasil, os projetos se destacaram justamente pela integração com políticas públicas. O programa Brasília Vida Segura e, posteriormente, o desenvolvimento da aplicação digital do protocolo de triagem e intervenção breve, em parceria com a Universidade de São Paulo e o sistema público de saúde do município de São Paulo, são exemplos claros disso. A digitalização desse protocolo possibilitou alcançar milhões de pessoas, treinar profissionais de saúde e integrar a iniciativa ao sistema público, criando um legado que vai além do envolvimento direto da empresa.
Como avalia as parcerias da Ambev com o setor público brasileiro durante a implementação dessas ações? Como essa cooperação garantiu resultados positivos para os projetos realizados no país?
As parcerias com os governos brasileiros fora m decisivas para a escala e legitimidade dos projetos. Desde o início, houve um foco claro na cocriação de soluções, respeitando as prioridades das políticas públicas existentes e fortalecendo capacidades locais, em vez de substituí-las.
A cooperação com o sistema público de saúde, universidades e governos locais permitiu que iniciativas como o protocolo digital de triagem e intervenção breve fossem integradas a plataformas oficiais de saúde, garantindo alcance, continuidade e uso efetivo. Esse modelo explica por que o Brasil aparece no estudo como um dos casos mais consistentes em termos de implementação e potencial de impacto. Além disso, o diálogo contínuo ajudou a criar um ambiente de responsabilidade compartilhada e confiança institucional.
O estudo indica que, nos próximos dez anos, a AB InBev deve focar em incorporar o consumo inteligente ao núcleo do modelo de negócio. Quais medidas a empresa deve adotar para alcançar esses objetivos nessa nova fase?
Estamos cada vez mais empenhados em integrar estruturalmente o consumo responsável ao negócio da Ambev, fortalecendo nossa cultura interna, com nossa liderança e equipes tratando a moderação como uma capacidade central e uma força do negócio, integrada com as marcas e indo muito além de um requisito de conformidade.
A cerveja é uma bebida versátil ao mesmo tempo que tem uma tradição milenar, pensada para o consumo social e compartilhado. Além de a cerveja conter um teor alcoólico mais baixo que outras bebidas, ela ainda tem opções de menor teor alcoólico, zero álcool e sem glúten, construindo naturalmente o conceito de moderação. Nosso portfólio de produtos evoluiu nos últimos anos pa ra possibilitar escolhas adequadas a diferentes perfis e momentos, mostrando que a cerveja pode fazer parte de um estilo de vida equilibrado
