Dia da Mulher: série 'Estopim' investiga feminicídios e casos que marcaram o Brasil
Era 2020 e, à medida que as curvas de contágio do coronavírus avançavam, outras estatísticas acendiam alertas no noticiário. O confinamento — essencial para conter a doença à época — fez disparar as denúncias de mulheres no 180, como consequência da convivência 24 horas por dia com parceiros violentos. Paralelamente, estudos apontavam para um agravamento das desigualdades de gênero, com sobrecarga feminina devido ao acúmulo de funções profissionais, domésticas e de cuidado. Foi mergulhada nesse cenário que a diretora de cinema Ana Teixeira, de 33 anos, começou a desenhar o projeto de “Estopim”, série documental que estreia neste domingo, no Canal Brasil, às 21h. “A pandemia escancarou a assimetria nas relações. Queria criar algo que não tratasse apenas das agressões físicas, mas também das violências simbólicas e dos fatores sociais e culturais que pavimentam o caminho para o extremo: o feminicídio”, diz a documentarista de Campinas.
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A série examina casos de feminicídio de grande repercussão ao longo de cinco episódios diários, organizados por temas dentro do “true crime”. Para suavizar a narrativa, Ana optou por incluir animações e elementos metafóricos que ajudam a preservar a memória das vítimas. “Não queria retratar o banho de sangue. Busquei uma abordagem mais lúdica, até para que o público consiga assistir até o fim”, comenta a diretora, lembrando que mulheres representam cerca de 75% a 80% da audiência de podcasts e documentários sobre crimes reais.
Maria da Penha, Anielle Franco, Valeska Zanello e Mônica Benício são entrevistadas na série
Divulgação
“Eu mesma sou uma consumidora voraz, e acho que existe essa identificação entre nós porque são conteúdos didáticos, que nos ajudam a reconhecer situações de risco. É quase uma estratégia de sobrevivência.”
O episódio inaugural, “Crimes políticos”, volta aos assassinatos da vereadora Marielle Franco, em 2018, e da juíza Patrícia Acioli, em 2011. Duas mulheres que, de lugares distintos do poder, confrontaram a influência das milícias no Rio. No documentário, a vereadora Mônica Benício, viúva de Marielle, revisita não apenas a violência que tirou a vida da companheira, mas também a que atravessa, diariamente, a trajetória de mulheres que ocupam o espaço público. Lembra que, horas após o crime, surgiram notícias falsas que associavam Marielle ao traficante Marcinho VP. Segundo ela, numa tentativa de reafirmar a lógica que insiste em deslegitimar parlamentares femininas, especialmente as negras e faveladas, nas esferas de decisão. “Havia a ideia de que se fez algo errado, aquele corpo merecia ser violentado”, diz. Mônica reconhece que o ambiente continua hostil, mas afirma que permanecer é um gesto político: “Não há como se blindar de horrores dentro da Assembleia. Nossa coragem é uma escolha, sabendo das dores que isso nos impõe.”
Na sequência, a série se propõe a analisar a estrutura social e cultural por trás dos crimes motivados por “razões conjugais”. As referências são as violências sofridas pela biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei Maria da Penha, e os casos de feminicídio da socialite Ângela Diniz (1976), da jornalista Sandra Gomide (2000) e da estudante Eloá Pimentel (2008), praticados por parceiros movidos por sentimento de posse e pela não aceitação do fim do relacionamento. “Existe uma romantização do ciúme, um fenômeno comum entre homens agressores. Isso é problemático; não é real a ideia de associar esse sentimento ao amor”, explica Valeska Zanello, especialista em saúde mental e gênero e professora do departamento de Psicologia da UNB.
Leilane Menezes, Wihssipó Isabel Dessano e Benedita da Silva
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A psicóloga também faz considerações no terceiro episódio do documentário, que trata especificamente de crimes sexuais, do mito da cultura do estupro e das maneiras de descredibilização das vítimas. Valeska destaca o papel da construção de emoções baseadas no gênero para a persistência do problema. “A base da violência sexual é a objetificação, que é uma forma de misoginia mascarada pelo discurso de ‘gostar de mulher’”, explica a especialista. “E isso é incentivado pela pornografia, a principal tecnologia de gênero dos homens. É um sintoma social gravíssimo, por conta do tipo de emocionalidade que evoca neles, que tende a nos transformar em ‘coisa’ ou em ‘pedaço de coisa’ à disposição numa prateleira.”
No episódio “Crimes de ódio”, a série amplia o olhar ao incluir vivências trans e lésbicas. Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, relembra os assassinatos de Gisberta Salce (2006) e Dandara dos Santos (2017) para destacar como a violência se intensifica quando corpos fogem do padrão imposto de feminilidade.
“Abordar as diferentes ‘mulheridades’ reafirma nosso lugar como mulheres, e que é possível enfrentar essas opressões sem hierarquias. São 18 anos que o Brasil permanece como o país que mais mata travestis e transsexuais”, afirma a ativista, acenando também para o tema do último episódio, “Crimes invisibilizados”. Nele, são examinados feminicídios banalizados pelas instituições, que dificilmente se tornam estopim de grandes mudanças por fatores como origem, classe e raça, afetando mulheres negras, indígenas e rurais. “O desafio é buscar meios de combater a violência em contextos e realidades diferentes. Não aceitaremos que nenhuma de nós siga vivendo em opressão.”
Uma por todas e todas por uma.
