Dia da Mulher: conheça a cientista argentina que busca detectar câncer de mama com exame de sangue

 

Fonte:


“Tive muita sorte”, diz Marina Simian (54) ao falar sobre sua trajetória como pesquisadora. Mas, mais do que sorte, seu sucesso também é resultado de mérito — fruto de esforço, dedicação e persistência na busca por seus objetivos. Desde jovem, ela demonstrava interesse pela ciência e se destacava entre os colegas. No quarto ano do ensino médio na Northlands School, ganhou uma bolsa para estudar biologia marinha durante um semestre nos Estados Unidos, algo bastante incomum na época.

Polilaminina: pesquisadora admite falhas em estudo publicado e afirma que pesquisa terá nova versão

Por que, segundo o feng shui, é recomendado deixar um pote de sal grosso ao lado da cama?

Durante a graduação na Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires, o renomado biólogo Alberto Kornblihtt despertou nela uma paixão profunda pela biologia molecular e celular. “Ele ministrava a disciplina de Introdução à Biologia Celular e Molecular no primeiro ano do curso e era um gênio como professor. Ele me cativou completamente”, recorda Simian com entusiasmo.

Esse fascínio inicial acabou definindo o rumo de sua carreira. Ela fez doutorado no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, da Universidade da Califórnia, e depois realizou um pós-doutorado no Instituto de Oncologia Ángel H. Roffo, em Buenos Aires.

Como muitos cientistas argentinos, Simian decidiu voltar ao país. Trabalhou como pesquisadora do CONICET por mais de 20 anos, especializando-se em biologia do câncer e no estudo do microambiente tumoral. Em 2021, decidiu dar um novo passo: deixou o laboratório para empreender. Ao lado da pesquisadora Adriana de Servi, fundou uma empresa voltada à detecção precoce do câncer de mama. Atualmente, divide seu tempo entre Buenos Aires, La Pedrera, no Uruguai — onde pratica kitesurf e passa tempo com o marido e os três filhos — e os Estados Unidos, para onde viaja cerca de dois meses por ano em busca de investimentos.

'A Oncoliq busca solucionar as mortes resultantes da detecção tardia do câncer', afirma Simian

Fabian Marelli

No Dia Internacional da Mulher, em entrevista ao jornal La Nación, ela relembrou sua trajetória e falou sobre os desafios enfrentados por mulheres que dedicam suas vidas à ciência.

A rotina de um pesquisador

— Como é a vida de um pesquisador?

O caminho para se tornar pesquisador é longo, algo que muitas pessoas não percebem. É quase comparável ao curso de medicina. Primeiro vem a graduação, que pode durar cerca de seis anos e meio. Depois, o doutorado, com mais cinco anos de formação. Em seguida, o pós-doutorado, que dura cerca de dois anos e representa o momento de testar sua autonomia científica.

Segundo Simian, trata-se de uma trajetória exigente e, muitas vezes, frustrante, já que muitos experimentos não produzem os resultados esperados.

Habilidades necessárias

— Quais são as habilidades necessárias para ser pesquisador?

Segundo ela, a pesquisa exige um tipo particular de motivação: leitura constante, capacidade de conectar ideias e desenvolver conclusões. Parte dessas habilidades pode ser aprendida com mentores, mas outra parte depende do interesse genuíno de cada pessoa, já que a atividade exige muita dedicação.

Ela também destaca que o trabalho em laboratório ainda depende bastante de habilidade manual.

“É como cozinhar: algumas pessoas fazem bolos excelentes, enquanto outras nunca conseguem acertar.”

Outro fator importante, segundo Simian, é a tolerância à frustração. Ela observa que, desde 2006, percebe entre estudantes mais jovens uma menor capacidade de lidar com frustrações e também dificuldades na escrita e organização de textos científicos.

O papel dos mentores

— Qual é o papel dos mentores na pesquisa?

Simian afirma que os mentores são fundamentais durante a formação científica. Segundo ela, teve muita sorte nesse aspecto.

Sua orientadora de doutorado, Mina J. Bissell, foi uma influência decisiva em sua trajetória.

“Ela foi fantástica e teve grande influência no entusiasmo que senti para continuar pesquisando e desenvolver minha carreira — desde o sonho de ter meu próprio laboratório até conseguir financiamento e montar uma equipe.”

A bolsa internacional

— No início da carreira você recebeu uma bolsa da Fundação Susan G. Komen…

“Fui a primeira pesquisadora latino-americana a recebê-la. Em 2006, aos 34 anos, recebi uma bolsa de US$ 250 mil e procurei o presidente do Instituto de Oncologia Ángel H. Roffo para pedir ajuda na gestão dos recursos. Minha pesquisa foi muito bem-sucedida e comecei a orientar bolsistas do CONICET.”

Ao longo da carreira, ela publicou mais de 40 artigos científicos e passou a se dedicar também à formação de novos pesquisadores.

“Treinar pessoas é a melhor parte de tudo isso”, afirma.

Conciliar ciência e família

— Como você conciliou a vida pessoal e profissional?

Simian diz que viveu durante anos em uma rotina intensa. Teve os dois primeiros filhos enquanto fazia doutorado nos Estados Unidos.

Sua orientadora teve papel essencial nesse período.

“Quando meu filho Santi nasceu, minha chefe me disse: ‘Organize-se como quiser. Não vou controlar horários. Sei que você fará o que precisa ser feito’.”

Durante muito tempo, ela manteve horários pouco convencionais, trabalhando no laboratório três dias por semana, mas em jornadas muito longas.

O prazer de pesquisar

— O que você mais gosta no trabalho de pesquisadora?

Para Simian, a parte mais prazerosa é escrever propostas de pesquisa.

Segundo ela, esse processo envolve imaginar ideias, planejar experimentos, estudar profundamente um tema e desenvolver hipóteses inovadoras. Muitos dos projetos de doutorado de seus alunos nasceram justamente dessas propostas de financiamento.

Pesquisa sobre câncer de mama

Durante muitos anos, Simian concentrou suas pesquisas no microambiente tumoral, ou seja, nos fatores ao redor das células cancerígenas que influenciam seu comportamento.

Um dos focos do estudo foi entender como esse ambiente interfere na resposta ao tamoxifeno, um medicamento usado no tratamento do câncer de mama.

O câncer de mama é o que mais acomete mulheres no Brasil, com cerca de 66 mil novos casos por ano, segundo o INCA

Freepik

Segundo ela, cerca de 70% das pacientes utilizam esse tratamento após cirurgia e outros procedimentos. Mesmo assim, aproximadamente 30% podem apresentar recidiva, quando o câncer retorna.

O objetivo da pesquisa era entender por que algumas células sobrevivem ao tratamento e voltam a crescer posteriormente.

O desafio de orientar alunos

Simian afirma que orientar estudantes também traz grande responsabilidade. Cada aluno de doutorado recebe uma bolsa por cerca de cinco anos e precisa produzir resultados científicos nesse período.

“Cada vez que um aluno começa, é como colocar uma mochila nas costas.”

Da pesquisa ao empreendedorismo

Depois de mais de duas décadas no CONICET, Simian decidiu mudar de rumo. Durante a pandemia, quando os laboratórios ficaram fechados, ela começou a refletir sobre novos caminhos profissionais. “Eu já estava um pouco cansada do papel de orientadora”, conta.

Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de criar uma empresa de biotecnologia ao lado da pesquisadora Adriana de Servi.

A missão da Oncoliq

A empresa fundada por elas, chamada Oncoliq, tem como objetivo combater a mortalidade associada ao diagnóstico tardio do câncer.

Segundo Simian, cerca de 50% dos adultos desenvolverão algum tipo de câncer ao longo da vida. Com as tecnologias atuais, quase metade dos casos é detectada em estágios avançados.

E, entre os pacientes diagnosticados tardiamente, cerca de 80% morrem em até cinco anos. “A Oncoliq busca solucionar as mortes resultantes da detecção tardia do câncer”, afirma.

O novo teste diagnóstico

A empresa trabalha no desenvolvimento de um teste de detecção precoce baseado em exame de sangue.

O método analisa moléculas chamadas microRNAs, que atualmente não são avaliadas em exames clínicos convencionais. O objetivo é integrar esse teste aos exames de sangue de rotina, ampliando as ferramentas de prevenção.

O primeiro produto da empresa, focado no câncer de mama, deve ser lançado até meados deste ano. A equipe também já começou pesquisas relacionadas ao câncer de pulmão e participa de um programa de rastreamento do HPV na província argentina de Chubut para detectar precocemente o câncer do colo do útero.

Conselhos para jovens cientistas

Simian aconselha jovens interessados em abrir empresas de biotecnologia a concluírem primeiro sua formação acadêmica.

Segundo ela, o doutorado é fundamental para desenvolver a base científica necessária. “A ciência é complexa, principalmente quando se trata de desenvolver medicamentos ou testes diagnósticos.”

Ela também destaca que o empreendedorismo científico exige perseverança. “Abrir uma empresa em biotecnologia não é mais difícil do que seguir uma carreira científica tradicional. O desafio apenas muda.”

Por fim, deixa um conselho simples para novos empreendedores: “Encontre um problema grande e real — e prepare-se muito bem para resolvê-lo.”