'Dezessete anos de sofrimento enfraqueceram o sentimento de justiça', diz pai de vítima após condenação da Air France e Airbus pelo voo AF447
Foram 17 anos de audiências, recursos, investigações e uma espera que parecia não ter fim para os parentes das 228 vítimas do voo AF447. Nesta quinta-feira, após a Justiça francesa condenar a Air France e a Airbus por homicídio culposo pela tragédia que matou 228 pessoas na rota Rio-Paris, Nelson Faria Marinho, pai de uma das vítimas e presidente da Associação dos Familiares do Voo 447, contou ao GLOBO que o desfecho era esperado, mas chega tarde demais para reparar o sofrimento acumulado desde a noite de 1º de junho de 2009.
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— A nossa luta continua mesmo com a decisão, porque quem teve o prejuízo final fomos nós, os familiares. Nenhuma decisão vai mudar isso. É muito injusto — afirmou Marinho.
Nesta quinta-feira, a Justiça da França condenou a Air France e a fabricante Airbus por homicídio culposo pela queda do voo AF447, que fazia a rota Rio-Paris. As duas empresas haviam sido absolvidas em primeira instância, em 2023. Agora, o tribunal de apelação as considerou as únicas responsáveis pela tragédia e aplicou a multa máxima prevista, de 225 mil euros para cada companhia.
Apesar da condenação, Nelson avalia que a longa espera reduziu a sensação de reparação.
— É uma decisão que a gente já esperava, porque, ao invés de darem homicídio doloso, deram culposo. Mas a gente sabe que eles não cuidavam da manutenção dos aviões como deveriam. Após esse tempo todo, 17 anos de sofrimento enfraqueceram o sentimento de justiça — disse.
O acidente ocorreu na noite de 1º de junho de 2009, quando o Airbus A330 desapareceu dos radares sobre o Oceano Atlântico poucas horas após decolar do Rio de Janeiro com destino a Paris. A aeronave transportava passageiros de 33 nacionalidades. Entre as vítimas estavam 58 brasileiros e 61 franceses, além de uma tripulação formada por 12 pessoas.
Parte do avião da Air France que fazia o voo 447 é retirado do mar em 8 de junho de 2009
AFP
As investigações apontaram que a sequência de eventos que levou à queda começou após o congelamento das sondas Pitot, equipamentos responsáveis por medir a velocidade da aeronave. O problema provocou informações incorretas nos sistemas de voo e levou à perda de controle do avião em uma região de forte instabilidade meteorológica próxima à Linha do Equador.
Durante o processo, o Ministério Público francês sustentou que tanto a Airbus quanto a Air France falharam em suas responsabilidades. A fabricante foi acusada de subestimar a gravidade dos problemas apresentados pelas sondas e de não alertar adequadamente as companhias aéreas. Já a Air France foi responsabilizada por supostas falhas no treinamento dos pilotos e na comunicação dos riscos relacionados ao equipamento.
Desde os primeiros dias após o acidente, Nelson se tornou uma das principais vozes na mobilização dos parentes das vítimas. Foi ele quem ajudou a organizar a associação que passou a pressionar autoridades e empresas por respostas, transparência e responsabilização.
O filho dele era Nelson Marinho, de 40 anos, que seguia para Angola, onde trabalhava em uma plataforma de petróleo, e faria a conexão em Paris. Na época, o pai relembrou que no dia da tragédia, uma tempestade no Oceano Atlântico afetou alguns voos, e que somente "o da Air France foi em frente e entrou na tempestade".
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