‘Sou mulher, mãe, atriz e mastectomizada’, diz Silvia Buarque - QTU Questões do Universo

‘Sou mulher, mãe, atriz e mastectomizada’, diz Silvia Buarque

Fonte: Bandeira da fonte

Quando Silvia Burque me procurou, ainda não estava pronta para falar.
Era março deste ano e ela havia ouvido “vida normal” do médico havia apenas dois meses após vencer o câncer de mama.
Em 2014, como revelou em outra entrevista a esta repórter, a atriz de 57 anos já havia enfrentado a doença no outro seio.
Retirou o nódulo sem maiores complicações.

Desta vez, o quadro fora bem mais grave.
Diante da reincidência, Silvia não teve dúvidas: optou por mastectomia dupla e reconstrução mamária.
Foram três anos e seis operações.
Período em que conseguiu cuidar mais da cabeça — que, naquele primeiro diagnóstico, “colapsou”.
Teve sanidade para emendar trabalhos em séries, filmes e no teatro.
Viajar, namorar.

E, após a cura, percebeu a importância de compartilhar sua experiência com outras mulheres.
Viu de perto o efeito positivo que isso causava.
É que uma colega de trabalho, que acabou se tornando grande amiga, enfrentava a mesma situação.
E enxergava em Silvia a força e a esperança que precisava para lutar.
Agora, pronta para dividir o que viveu, a atriz, participa do “Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar hoje, às 18h, no YouTube e no Spotify, e fala também de seus 40 anos de carreira.
Leia trechos:
Silvia Buarque
Marina Calderon
Rodou o filme ainda inédito "Entre os dias", de Petrus Cariry, fez uma longa temporada da peça "A menina escorrendo dos olhos da mãe", mas está no ar na série "Impuros" num papel totalmente diferente de tudo que já fez: Laura, uma uma bandida gostosona...
Uma coisa meio Almodóvar, né? Me convidaram, e eu adorei porque é justamente isso: um convite inusitado, uma vilã meio fora do meu perfil.
Acho que não tenho grandes limitações.
Na minha carreira, fiz um pouco de tudo, mas tem coisas que não pintam tanto.
A Laura (de "Impuros) foi uma surpresa.
Sobre o filme, rodamos no Ceará.
Tem Matheus Nachtergaele, amigo querido, a primeira pessoa a quem contei que estava grávida.
É sobre um casal de meia idade com dois filhos jovens, uma família que se isola numa casa sob uma circunstância maluca.
É um thriller de terror psicológico.
E é pesado...
Faço uma mulher passiva em quem o marido manda.
Ele olha, e ela cala a boca.
Difícil.

Emoção.
Maria Rita.
'Não ouço minha mãe porque dói', diz cantora sobre Elis Regina
Djavan.
Cantor fala sobre a fama de fazer música difícil e nova turnê
Você me disse que a peça 'A menina escorrendo pelos olhos da mãe' salvou sua vida, por que? Como ela dialogou com seu momento de vida? O que estava vivendo?
Produzi essa peça com meu dinheiro, o valor de um carro popular.
Me dediquei muito.
A peça é de um desconforto absoluto.
Fala sobre a escolha de ter ou não um filho, de aborto, adoção, fala de uma mãe homofóbica, que rejeitou a filha.
É uma peça de buracos, de ausências.
Tem uma coisa que eu decidi falar para você, Maria, que eu vivi nos últimos três anos e meio: tive que fazer uma mastectomia.
Eu tinha tido um câncer de mama leve no peito direito em 2014.
Tratei com radioterapia só.

'O pior é o não diagnóstico, a espera, a expectativa, o medo', diz Silvia Buarque
Oito anos depois, foi fazer um exame de rotina e tinham lá duas microcalcificações no outro peito...
O seja não era a volta do câncer anterior...

Não.
E não se assustem se saírem microcalcificações na mamografia porque, muitas vezes, são benignas.
No meu caso, eram malignas.
O médico pediu biópsia dizendo que era só para ficar mais tranquilo porque devia ser benigno.
Mas...
E aí, o pior é isso: o não diagnóstico, a espera, a expectativa, o medo.
E, aí, eu não pensei muito.
Ginecologista, mastologista e oncologista indicaram a mastectomia.
Quando abriram, eram oito microcalcificações.
Iam virar um tumor, não tinha outro caminho...
E aí, na idade que eu tinha, tento tido outro...
Disseram que era muito nova para dois eventos desses.

Silvia Buarque e Maria Fortuna
Marina Calderon
'A decisão de falar tem um nome: Marina Vianna, atriz, que tem exatamente a minha idade e está passando pela mesma coisa'
Era muito câncer para uma pessoa só...

Sim.
Aderbal (Freire-Filho, que morreu em 2023 e era companheiro de Marieta Severo), falou: "Não, vai mais acontecer, porque você vai pro final da fila".
Não fui.
Aconteceu de novo.
No primeiro câncer, aos 45 anos, eu caí.
Chamei de depressão, mas hoje vejo que foi um colapso, fiquei maluca, lidei muito mal.
Dessa vez, era muito mais pesado.
A decisão de falar tem um nome: Marina Vianna, atriz, que tem exatamente a minha idade e está passando pela mesma coisa.
Fiz minha última operação em novembro passado e ela tinha acabado de ter o diagnóstico.
Foi me visitar comigo ainda de sutiã cirúrgico.
Ela me disse que a ajudei muito, me dá a dimensão de como se eu fosse um farol.
Não conhece mais ninguém que tenha feito.

Me comove falar dela.
Me comovia vê-la porque eu ainda não estava boa, ainda sem conseguir pegar as coisas com o braço.
Perguntei se podia falar dela.
Comecei a pensar em falar em fevereiro, quando fiquei boa.
Essa decisão está sedimentada agora porque é importante e é com você, Maria.
Quando eu fui fazer mastectomia dupla não tinha ninguém para conversar.
Tinha uma pessoa que foi muito legal comigo, mas estava em São Paulo, falamos no telefone, nunca nos vimos.

Claudia Raia.
Atriz fala sobre seguro das pernas, menopausa e maternidade 50+
'Ia para o Google e botava Angelina Jolie.
Ela virou minha musa.
O fato de uma das mulheres mais bonitas do mundo ser mastectomizada era uma coisa que dava certo alento'
Não tinha uma referência ao lado...
Nada.
Ia para o Google e botava Angelina Jolie, que consolava um pouco a parte da autoestima, de ficar sem peito.
Ela virou minha musa.
O fato de uma das mulheres mais bonitas do mundo ser mastectomizada era uma coisa que dava certo alento.
Ela fez numa época em que não se fazia.
A reconstrução mamária é mais ou menos recente, 20, 30 anos.
Há 50 anos, mulheres ficavam sem peito.
No início, eu não queria falar para ninguém, mas o meu ninguém já são dez melhores amigos.
Logo depois, comecei a falar.
Cada operação é um tempo de quase um mês em casa.
Não pode dirigir, levantar o braço.
Foi ficando complicado mentir.
Estou liberada para tudo, mas até hoje ainda fisga um pouquinho, é muito difícil.

'Tive uma mãe nessa peça: Guida Vianna.
Ela fechava o meu sutiã, viu meu peito em todos os estágios, bonitinhos e horrorosos.
Uma mulher 16 anos mais velha que carregava minha mala no aeroporto'
Foram seis operações porque houve complicações com a prótese...

A radioterapia do primeiro câncer atrapalhou a reconstrução.
Não doía nada, não queimou nada por fora.
É só muito chato, porque você fica cinco semanas indo lá todo dia.
Mas ela queima por dentro, a pele fica muito fina.
Por fora, estava normal, ia à praia de biquíni, foram oito anos normais.
Mas toda a trajetória do meu peito direito foi muito mais complicada que o esquerdo.
Dessa vez, não fiz nada.
A prevenção, foi tirar, cortar o mal pela raiz.
Mas foram seis operações, uma mastecmotia total, duas reconstruções.
Mas deu errado, e precisei fazer tudo de novo.
E durante a peça, que fizemos por dois anos e meio, parando para eu operar, recuperar...
Tive uma mãe nessa peça: Guida Vianna.
Ela fechava o meu sutiã, viu meu peito em todos os estágios, bonitinhos e horrorosos.
Uma mulher 16 anos mais velha que carregava minha mala no aeroporto.

O seu movimento de falar é muito importante também para informar.
Se deparou com muita informação errada?
Uso muito o Instagram, e meu algoritmo me traz muito câncer de mama e reconstrução mamária.
Há muita informação legal.
Outro dia, vi duas meninas de 30 e poucos anos, moderninhas, paulistas e totalmente curadas.
Mas tem muita informação errada, médicos de internet dizendo que mamografia causa câncer.
Isso me inspirou, me fez pensar que devia contar.
Até porque, agora estou aberta a conversar com quem quiser falar comigo sobre isso.
Eu sou várias coisas, né? Sou mulher, mãe, atriz, brasileira, fluminense, ariana, Portela e sou mastectomia.
Entendi que isso vai me acompanhar pra sempre.

'O SUS cobre mastectomia e reconstrução mamária'
Como foi a questão financeira? Tem plano de saúde ou fez pelo SUS? Me disse que conseguiu manter o mamilo...
Tenho plano de saúde.
Antes, o plano de saúde só era obrigado a cobrir a mastectomia; agora, também tem que cobrir a reconstrução.
O SUS cobre mastectomia e reconstrução mamária.
Consegui manter o mamilo, o que dá um alento, nos faz reconhecer um pouco o nosso peito.
A gente vai vivendo de umas migalhinhas, Maria.
O meu peito reconheço um pouco, mas não muito, porque não é uma prótese em cima de uma glândula mamária, mas em cima de um tórax.
Claro que estou falando grosseiramente.
Vai ter outro nome, mas uma das piores coisas que vivi foi me ver ao tirar o curativo...

O que sentiu? O que ouviu dos médicos durante todo o processo e como isso te impactou?
Foi uma visão aterrorizante...
Sou pessoa muito medrosa, não sou corajosa.
Mas não flertei com a morte.
Desde o início, ouvia que não ia morrer disso, soube quando acabou.
Isso foi determinante, não sei como seria...
A gente nunca sabe o quanto aguenta.
Vi que aguento uma cruz pesadinha (risos).
Mas saber que isso ia acabar foi definitivo para dar um "sacode".
Em fevereiro, escrevi para o médico: "Posso ir à sauna?".
Ele respondeu: "Vida normal".

'Não acredito em Deus, e saí dessa acreditando menos ainda'
Em 2021, você disse que teve um colapso e que, dessa vez, a cabeça lidou melhor.
O que foi fundamental? Em que se agarrou, já que não acredita em Deus?
Não acredito em Deus, e saí dessa acreditando menos ainda.
Não tenho fé, nasci sem essa graça.
Adoraria ter.
Devo muito ao meu analista.
Fui para ele no início outra trolha.
Dessa vez, ele disse: "Para aquele lugar que estava, você não volta".
Mas muito mais que isso teve a minha filha, Irene.
Ela tinha 9 anos na primeira vez...
E te viu muito ferrada...
Como foi dar a notícia de um novo câncer a ela?
Primeiro, ela ficou meio puta porque eu tinha dito que era só uma operaçãozinha.
Não lembro de dar a notícia para ela.
Soube num dia e, duas semanas depois, estava operando.
Mas teve uma coisa importante, e dali veio minha decisão.
Falei: "Conhece aquele vídeo do Caetano dizendo: 'Eu sou foda! Chico Buarque é foda, Gilberto Gil é foda, Milton Nascimento é foda.
E eu sou foda!"?.
Irene ama o Caetano e eu falei isso para a Irene: "Eu sou foda!".
E ela: "Que bom, mamãe!".
Ela não se relacionou muito, mas perguntava: "Tá tudo bem?".
Eu tinha que tomar banho envelopada, e ela às vezes, me ajudava no banho.
O resto da família foi solidária, amorosa.
Minha mãe ia para São Paulo, onde eu estava fazendo peça, para botar o plástico em volta do meu peito.
Não parar de trabalhar também deve ter ajudado muito a cabeça...
E também viajar e namorar depois de uma separação de 18 anos de casamento e quatro anos de solteirice...

Muito! Fiz (a série) "Betinho - No fio da navalha", "Impuros", o longa "O que resta de nós", a peça...
Não teria feito essa peça se não estivesse nessa situação.
Não teria a coragem, a necessidade de produzir.
Essa coisa de ter que ir para a vida, distrair.
Um ano depois da operação, estava estreando.
A vida, me devolveu, sabia? Me separei em 2021, tive quatro anos de solteirice, conversantes, dei beijo na boca, sofri um ghosting, mas super na boa (risos).
Fiz 52 anos, veio menopausa, libido no chão...
Fiz a mastectomia e, aí você, não pensa nisso...

'Respondendo à sua pergunta sobre sexo: sutiã, né? Mas agora já tirei.
E já mostrei para todo mundo'
Mas aí veio o namorado novo...
Fique à vontade se não quiser responder, mas como foi fazer sexo após a mastecomia?
Bem, primeiro, para localizar: ele é um médico da minha idade.
Não é ninguém que tenha conhecido nesse processo da doença, não...
eu falava assim: "Agora, namorar nunca mais".
Toda separação a gente acha que nunca mais, né, mesmo jovem...
Besteira! Mas pensava que, para rolar, só batendo à minha porta e ser alguém muito legal, único.
Porque estava bem solteira.
Mas conheci esse cara e foi um encontro arrebatador.
Respondendo à sua pergunta sobre sexo: sutiã, né? Mas agora já tirei.
E já mostrei para todo mundo.

Teve três casamentos, dos 19 aos 52.
Ficou amiga de todos os ex?
Tenho um amor imenso por todo mundo com quem eu me relacionei, mas não foram relações fáceis.
Nenhuma.
Não sou inimiga de nenhum, mas não sou amiga.
Só do Bruno Fernandes, técnico de som, meu segundo marido.
Mas tenho muito amor por todos, são pessoas muito inteligentes, interessantes.
Mas relações para mim nunca foram simples e, e estou tendo a dádiva de uma relação...
ufa! Claro que isso se deve à maturidade, mas também ao temperamento dele.

'Nesse período da reconstrução, não se sintam doentes, vivam esse tempo! E não deixem de pedir ajuda'
Que recado dá às mulheres que estão passando pelo que passou?
Algumas observações.
A primeira é que passa.
Não dói, não é um bicho de sete cabeças.
A reconstrução fica legal.
Tem muitos tempos entre uma coisa e outra, meses para cicatrizar, fazer uma nova operação...
Nesse período da reconstrução, não fiquem doentes, a não ser que tenha quimioterapia...
Tive a sorte de não ter que fazer.
Vivam esse tempo! E não deixem de pedir ajuda.
Tenho dificuldade em pedir ajuda, falar "tô mal, vem pra cá".
Na primeira operação, era uma rave a minha casa.
Depois, com seis, tem uma hora que o pessoal já está cuidando da vida, né? Tive muito apoio dos meus amigos maravilhosos.
O câncer de mama é um dos mais tratáveis e curáveis.
Tem vida durante e depois.

Vinicius Reis, com quem você fez "Homem onça" está escrevendo um filme para você, com nome provisório de "Roma 1969", cidade e ano em que você nasceu no exílio do seus pais.
Não é por acaso...

Meu namorado falou: 'Vai passar um carrinho de bebê atrás' (risos).
Vinicius é muito meu amigo e teve a ideia desse filme, que se passa no auge da ditadura após o AI-5, e pensou em mim para protagonizar.
É a história de uma dona de casa tijucana, de classe média, que vira escritora.
Começa a escrever quando os filhos saem de casa e faz sucesso.
É editada na Itália, vai para lá e dá uma entrevista em que perguntam para ela da situação política no Brasil.
Ela conta que a filha foi torturada e ela não pode voltar para o Brasil...
Sua mãe já entrevistei, pode pedir ao seu pai vir aqui me dá entrevista? (risos)
Ele adorou que eu vinha aqui, contei para ele.
Ele te lê, conhece suas matérias.
Mas meu pai é difícil de dar entrevista.
Digo que ele está virando o Rubem Fonseca (risos).

'Não sou popular.
Abri mão da TV de certa forma.
A TV também não deu mais bola'
No início de carreira, chegou a se incomodar com comparações entre sua mãe e você, que dividem a mesma profissão.
Chegou a dizer que ela não te influenciou em nada.
Frase de alguém com um DNA forte, que precisava ter identidade própria.
Aos 57 anos, ser filha de Chico e da Marieta é menos pesado? Só a maturidade para trazer a paz de poder ser quem se é com segurança, mas também incorporando e acomodando esse legado junto?
'Tem um peso o Buarque.
A quantidade de recado, de livro, de pedido que recebo.
Então, nunca vai ser 100% confortável'
Sim.
Leva um tempo.
Porque tem um tamanho.
Não vou ser a atriz que ela é.
Minha mãe vai de A a Z, eu não.
Ela é extremamente popular e faz as coisas interessantíssimas que quer fazer.
Como eu acho que eu faço também.
Não sou popular.
Abri mão da TV de certa forma.
A TV também não deu mais bola, a partir do momento que eu abri mão.
Fiz novelas de sucesso aos 18, 19, 20 anos.
Vejo e gosto de ter feito.
Mas, voltando...
tem um peso o Buarque.
A quantidade de recado, de livro, de pedido que recebo.
Então, nunca vai ser 100% confortável.
Análise, maturidade, autoestima...
Minha autoestima como atriz nunca foi muito alta.
Está aumentando, mas a duras penas...
Como disse, começou na TV super cedo, aos 17 anos, e só fez novelas dos 18 aos 23.
"Dona Beja", "Corpo Santo", "Bebê a bordo", "Perigosas Peruas"...
Depois enveredou para o teatro de encenadores com Moacyr, Góes, Gabriel Villela, Bia Lessa.
O palco continua proporciona o que a TV as telas não te dão?
Sentia que tinha que me preparar, estudar...
Agora, estou apaixonada por cinema, traindo o teatro com audiovisual (risos).
Mas o teatro é uma paixão no sentido bom e mal de tudo que é paixão: te enlouquece.
O período de ensaio é insuportável e é um tesão também.
As descobertas.
O que se vive numa sala de ensaio não se vive em outro lugar.
É paixão, é febre, é tanta coisa que me dá até preguiça de começar uma peça nova (risos).
Sei que eu vou entrar e ser arrebatada e vai ser um pequeno inferno, só vou querer saber disso.

Construiu esse caminho alternativo, fora do mainstream e me disse da outra vez que sentia falta do salário da TV e da visibilidade.
Falta convite?
Cada vez, me convidam menos.
Recusei dois bons porque estava no teatro.
Quando falei que sentia falta da visibilidade e do salário da TV, recebi apoio porque isso mostra a vida de uma atriz mais alternativa, que não faz a comédia do momento para lotar um teatro de de 2000 lugares...
Às vezes, são excelentes, mas às vezes são aquela besteira...
Não tenho contrato com televisão e nem faz publicidade decorrente de novela.

'Não se vive de teatro'
Muita gente acha que atriz de sucesso é só quem faz novela das nove.

Fora isso...
É chato.
Ganho e guardo do meu trabalho, tenho casa própria, plano de saúde, minha filha estuda em escola particular.
Tenho um padrão de vida classe média alta proporcionado por pelos meus pais.
Uma situação financeira que dá para viver bem, sem precisar do salário de televisão.
Mas há, sei lá, 20, 30 atores que não fazem TV nem comerciais e que conseguem sobreviver bem.
Isso é 1% ou, no máximo, 3% da classe teatral.
A maioria tem pensão, renda, herança, marido rico ou tem um plano B, dá aula.
Tenho um grande amigo, puta ator, que faz Uber.
Hoje, cada vez mais gente está falando: "Não se vive de teatro".

'Acho que tenho uma trajetória de uma atriz brasileira legal, bacana.
Não acho incrível.
Mas acho legal, gosto e cuido dela'
O que sente ao analisar o que construiu em sua trajetória de 40 anos de carreira?
Muita coisa! Olho e sinto orgulho das minhas escolhas, das peças, dos filmes que fiz.
Das novelas também.
Por outro lado, saber que não é considerada um nome forte o suficiente para ter um patrocínio X com uma peça que protagonize, é chato.
Acho que estou empatada ali entre o sucesso pessoal e o reconhecimento.
Modéstia à parte, acho que consegui conquistar um certo prestígio a duras penas.
É um lugar que você fala: "Caramba!".
Mas na hora de chamarem...
tem muito essa coisa "tem que ter um nome".
E, aí, eu não sou um nome.
Acho que tenho uma trajetória de uma atriz brasileira legal, bacana.
Não acho incrível.
Mas acho legal, gosto e cuido dela.