Margem Equatorial pode impulsionar investimentos e ampliar reservas de petróleo, avalia gerente - QTU Questões do Universo

Margem Equatorial pode impulsionar investimentos e ampliar reservas de petróleo, avalia gerente

Fonte: Bandeira da fonte

A abertura de novas fronteiras para a exploração de petróleo e gás é estratégica para ampliar as reservas brasileiras, garantir a segurança energética e impulsionar a economia, como defende a gerente-geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Karine Fragoso.
Entre as áreas consideradas mais promissoras pelo setor está a Margem Equatorial, faixa litorânea que se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá e inclui a costa paraense.

Em entrevista ao Grupo Liberal, a especialista apresentou os dados do Anuário do Petróleo no Rio 2026, estudo que traça um panorama do setor e aponta os desafios para ampliar a exploração em novas fronteiras, como a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas.
Segundo ela, eventuais descobertas nessas regiões podem atrair investimentos bilionários, estimular cadeias produtivas, gerar empregos e ampliar oportunidades para diversos segmentos da economia, especialmente na Amazônia.

Karine Fragoso também abordou os impactos econômicos da indústria do petróleo sobre diferentes cadeias produtivas, as perspectivas para o mercado nacional, os possíveis reflexos para a economia amazônica e os desafios de conciliar o desenvolvimento do setor com a preservação ambiental e a transição energética.

- Qual é a importância da exploração da Margem Equatorial e da Bacia de Pelotas para a segurança energética e para a economia brasileira?

A Petrobras, hoje, é responsável por 31% da geração de energia do Brasil.
Então, o óleo não é só um energético, um combustível.
Ele entra com seus derivados em uma série de outros setores industriais que são fundamentais.
No Anuário do Petróleo no Rio 2026 [feito pela Firjan], frisamos que a gente vive o petróleo no nosso dia a dia.
A gente veste petróleo, a gente se alimenta também com o petróleo, através dos fertilizantes, das embalagens e de todo o processo dessa cadeia produtiva.

A gente tem o petróleo desde a hora que acorda, na embalagem da pasta de dente, na escova que a gente escova os dentes, até a hora que vai dormir, no colchão em que a gente deita.
Então, o petróleo precisa ser entendido não só como uma fonte fóssil de energia, ele é muito mais do que isso.

E, quando a gente tem esse entendimento, essa percepção, entendemos que o petróleo também contribui em muitas outras frentes, como a preservação ambiental, porque grande parte das pesquisas que nós temos hoje para o ambiente marinho, para o ambiente de flora e de fauna, vem de recursos também da produção de petróleo.
E vai além disso.

O desenvolvimento de tecnologia que, às vezes, está especificamente sendo trabalhada para petróleo e gás, pode também avançar para outros setores industriais.
O desenvolvimento de tecnologia e apoio à cultura no Brasil também é feito por esse mercado.

A gente precisa entender que o petróleo ainda é e ainda será, por muito tempo, a base de energia de muitos países.
E o Brasil tem a sorte de ter esse óleo offshore, com tecnologia que tem domínio aqui pelo Brasil também, com competências atribuídas a brasileiros.
O Brasil tem exportado pessoas para cuidar de outras áreas fora do Brasil.

Temos uma competência instalada também para desenvolver essas áreas.
É importante registrar também que, hoje, a nossa produção de óleo é, em sua grande maioria, um óleo que vem do pré-sal, que é um óleo mais leve, de menor emissão de carbono.
Portanto, ele está muito adequado à nossa pauta de sustentabilidade, e a gente imagina que, da mesma forma, possa seguir também a Bacia de Pelotas e toda a Margem Equatorial.

- No caso específico da Margem Equatorial, o que essas novas fronteiras exploratórias podem trazer para a região amazônica? Quais setores da economia local tendem a ser mais beneficiados com esses investimentos?

Costumo dizer que o petróleo compra tudo de todo mundo.
Então, ele compra desde uma plataforma que vai produzir o petróleo, que é uma unidade estacionária de produção.
Então, ele compra muito material, muito equipamento, mas compra desde o uniforme, o capacete, o alimento que vai para a embarcação.

Eu brincava no anúncio do anuário que a gente pode fazer aquela conta de padeiro.
Então, se você pensar que cada embarcado come dois pães por dia, você vai multiplicar dois pães por 300 pessoas, vão dar 600 pães.
Isso por dia.
Se você multiplicar isso por 365, multiplicar pelo número de plataformas, você chega a um volume de farinha de trigo necessário, só para alimentar quem está dentro da embarcação, que é muito grande.

Então, esse é o mercado que desenvolve construção civil, que vai desenvolver confecção, na medida em que você precisa ter indústria têxtil, que você precisa ter uniformes também que precisam atender a uma série de regras de segurança.
Vai desenvolver muita infraestrutura.

Então, o petróleo vai modelando aquele território para atendê-lo e também para atender a sociedade que está ali naquele território.
Então, com isso, a gente vê que, se bem administrado, com planejamento e execução de planejamento, a gente pode, de fato, transformar a vida e o dia a dia daquele território impactado diretamente pela produção de petróleo.

- O Anuário do Petróleo no Rio 2026, feito pela Firjan, aponta quais tendências para o setor de petróleo e gás no Brasil nos próximos anos? Quais são as principais perspectivas identificadas?

O anuário é um projeto desenvolvido há 11 anos e chega agora à sua 11ª edição.
Segundo os responsáveis, a iniciativa surgiu da necessidade de estruturar os dados sobre o setor de petróleo para, a partir da análise do histórico, projetar um futuro mais sustentável para o Rio de Janeiro e para o Brasil.

A publicação reafirma que o Rio de Janeiro segue como protagonista da produção de petróleo e gás no país e destaca o Brasil como referência na produção offshore em águas profundas e ultraprofundas.
O anuário também reúne artigos colaborativos que contextualizam o cenário nacional e apresentam perspectivas para o futuro do setor.

Entre os principais pontos destacados está o potencial da Margem Equatorial.
A avaliação é de que o Brasil precisa ampliar o conhecimento sobre suas reservas, tornando fundamental o resultado do primeiro poço exploratório na Foz do Amazonas, em águas profundas.
Além desse poço, a Margem Equatorial abrange outras áreas de exploração, distribuídas em cinco bacias sedimentares, que se estendem do Rio Grande do Norte ao Amapá.
Por ser a primeira perfuração exploratória na região, o teste é considerado estratégico para identificar o potencial de reservas existentes.

Atualmente, o Brasil possui uma relação entre reservas provadas e produção que garante cerca de 13 anos de exploração.
A expectativa é ampliar esse horizonte, assegurando a continuidade da produção e fortalecendo a posição do país como protagonista na indústria de petróleo e gás.

- Embora o estudo tenha como foco o Rio de Janeiro, quais conclusões do anuário também refletem a realidade e as perspectivas do mercado nacional de petróleo e gás?

O Rio de Janeiro continua como protagonista da produção de petróleo e gás no país.
Em 2025, o estado respondeu por 88% da produção brasileira e, no primeiro semestre de 2026, a participação já apresenta crescimento.

No entanto, é necessário ampliar a perfuração de novos poços exploratórios para aumentar o conhecimento sobre as reservas e avançar para novas fronteiras de exploração.
Nesse contexto, ganham destaque as cinco bacias sedimentares da Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas, consideradas áreas estratégicas para reforçar a segurança e a soberania energética do Brasil.

O anuário consolida os dados da produção do Rio de Janeiro, mas também aponta como prioridade para o futuro do país a ampliação do conhecimento sobre o potencial de reservas nessas novas bacias.
A exploração dessas fronteiras é vista como essencial para ampliar os recursos disponíveis e garantir a continuidade da produção nacional de petróleo e gás.

- Muito se fala sobre o desenvolvimento econômico associado à exploração de petróleo.
Mas como conciliar esse desenvolvimento com a preservação ambiental? É possível?

Não só é possível, como assim é feito.
O que a gente solicita de licenciamento ambiental, e a gente teve recentemente uma lei aprovada, que é a nova lei ambiental, é que a gente tenha clareza sobre o processo de licenciamento ambiental.
O que se deseja é atender todos os requisitos, e o Brasil vem atendendo esses requisitos, mas que a gente tenha uma previsibilidade para que as operadoras, as empresas, possam se preparar para obedecer e seguir esse rito e esse processo da melhor forma.

O que a gente não pode, o que é muito ruim para a gente, é atrasar esses processos de conhecimento do que a gente tem, para a gente tomar a decisão sobre o que a gente tem, em função de dúvidas.
Então, a gente precisa ter um processo que seja melhor conhecido pela sociedade como um todo e que a gente possa ter as respostas adequadas.
E aí, como eu falei, quero reforçar: esse é um mercado que coloca muito recurso financeiro em projetos de preservação ambiental.

A gente não pode ter a ilusão de que o Brasil vai ser diferente do resto do mundo e que, tendo esse recurso energético, vai viver sem ele.
Então, a gente precisa entender que precisa desse recurso, não só como energia, mas também como fonte de riqueza para a gente construir uma sociedade que seja melhor para todos nós, convivendo, claro, e isso não é nenhum problema para esse mercado, com tudo que a gente precisa fazer em termos de preservação ambiental.

Então, não se deseja, ninguém, nem desse mercado, eu acredito que de nenhum outro, que a sua atividade seja prejudicial ao meio ambiente.
Muito pelo contrário.

Acho que o Brasil tem essa vantagem de ser um país de dimensões continentais, que tem vários biomas, que tem o privilégio de ter uma riqueza ambiental muito grande e a responsabilidade de todos nós de preservar essa riqueza ambiental que temos.
O Brasil vive um processo de transição energética.

- Qual deve ser o papel do petróleo e do gás nesse processo de transição energética, levando em conta o processo do crescimento das fontes renovável?

O Brasil já decidiu, lá atrás, muito antes de a gente conhecer essa nomenclatura nova de transição energética.
A gente já decidiu pela transição quando implementou um programa chamado Pró-Álcool.

Hoje, a gente tem adição de álcool na gasolina e de diversas outras fontes.
A gente já decidiu lá atrás quando passou a ter uma matriz muito baseada na hidroeletricidade, baseada na água.
Também decidiu quando vem fazendo investimentos tanto no ambiente solar quanto na produção de energia eólica onshore.
Agora, a gente está caminhando também para a eólica offshore, com resultados bem interessantes no Rio Grande do Norte, e, no Rio de Janeiro, também vem avançando nesse sentido.

Então, a gente não vê nenhum motivo para ter briga de fontes.
Pelo contrário, o Brasil tem que conjugar essas fontes para que a gente tenha uma energia cada vez mais acessível e mais barata.
Assim, a nossa indústria pode utilizar essa energia de forma competitiva frente ao mundo.
É importante dizer também que a nossa matriz elétrica e energética é uma das mais limpas do mundo.

Somos um país enorme.
Quando a gente compara com a França, que é pequenininha e tem uma base nuclear, a gente vê que o Brasil é um país de dimensões continentais, atendido por essas fontes renováveis.
Então, a gente tem, para além da produção, competência para isso.
A gente precisa fortalecer a tecnologia para esses mercados, mas a gente vai muito bem.

E, antes de a gente pensar em transição, a gente precisa pensar sempre em eficiência energética.
A eficiência energética é muito importante, porque a gente não vai desperdiçar esforço nem ser ineficiente na produção de energia.
Quanto mais eficiência energética a gente trouxer, mais a gente vai caminhar para um preço econômico e para o acesso a essa energia, o que vai possibilitar ampliar a nossa base tanto de indústria quanto de economia.

- O que falta, ainda, para o Brasil aproveitar o seu melhor potencial de reservas energéticas e atrair novos investimentos para o setor?

A gente precisa de uma indústria que seja atraente de fato, porque a gente tem riqueza e competência.
Temos condições de desenvolver tecnologia e há vários setores com nichos bastante competentes.
O Brasil é reconhecido por isso.

É isso que a gente deseja fazer a partir da produção de energia.
E, claro, quanto mais energia a gente vai agregando, mais a gente pode ter acesso à água potável, a alimentos saudáveis.
A gente pode gerar e criar, a partir do Brasil, também dados, que são outra fonte de consumo de energia e, com isso, a gente faz uma rota de crescimento.

É importante a gente entender que, para cada ponto percentual de crescimento do PIB, a gente tem que crescer 1,5% em produção de energia.
Então, se a gente deseja crescer 3%, a gente precisa ampliar nossas fontes de energia, de acesso e de disponibilidade em 4,5%.
Então, o petróleo vem se adicionar a essa matriz energética, à possibilidade de a gente se manter crescendo frente às outras economias do mundo.

- Como o Pará pode ser impactado por esse potencial de exploração energética na Margem Equatorial?

Eu vejo no Pará um potencial enorme, não só diretamente, mas também indiretamente, como efeito multiplicador.
Então, eu imagino que o Pará vai crescer muito também como destino turístico.
É aproveitar essa riqueza que pode vir por meio da Margem Equatorial para se preparar para esse novo cenário, capacitando seus profissionais para poderem estar inseridos também nesse segmento.

Esse segmento vai gerar esse efeito multiplicador, seja por geração de emprego direto, por efeito indireto e também pelo comércio, pelos serviços e por todo o serviço de apoio à indústria, que vai se desdobrando em função desse mercado.

Eu vejo o Pará com outras riquezas, inclusive, que podem agregar ao desenvolvimento desse mercado.
Quando a gente olha para o Rio, a gente não tem, por exemplo, estou falando de minérios, estou falando de uma riqueza enorme que o Pará tem e que ainda vai desenvolver e poderá se desenvolver em conjunto com o mercado de petróleo.