O Tesouro dos Estados Unidos interveio no mercado cambial do iene na sexta-feira, marcando a primeira vez em quase 30 anos em que Tóquio e Washington atuaram conjuntamente para sustentar a moeda japonesa por meio de compras diretas.
A informação é do jornal inglês Financial Times.
O Federal Reserve Bank de Nova York realizou a operação incomum de vender euros para comprar ienes em nome do Tesouro americano, segundo três pessoas familiarizadas com o assunto.
As operações foram executadas por meio do Goldman Sachs e do Morgan Stanley, de acordo com duas dessas fontes.
Do outro lado do mundo: saiba por que os juros no Japão afetam o câmbio no Brasil
Segundo jornal americano: Presidente do Fed avalia reduzir número de reuniões sobre juros
A agência Reuters flagrou ainda um papel com uma lista de afazeres sobre a mesa do Secretário do Tesouro, Scott Bessent.
Nela, estava escrito: "comprar iene: US$ 5 a US$ 10 bilhões".
O Tesouro havia informado anteriormente a vários bancos de Wall Street que estudava uma intervenção para apoiar a moeda japonesa, que em 23 de julho atingiu seu nível mais fraco frente ao dólar desde 1986.
O Federal Reserve de Nova York e o Goldman Sachs se recusaram a comentar.
O Departamento do Tesouro e o Morgan Stanley não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
O iene se fortaleceu ao longo das últimas seis sessões, enquanto o dólar recuou cerca de 4% na quinta-feira, à medida que participantes do mercado especulavam que o governo japonês também havia atuado para apoiar a moeda após um aumento no volume de negociações.
Na sexta-feira, o dólar caiu mais 1,9%, sendo negociado a ¥157,57.
Fontes a par das negociações afirmam que o Japão e os Estados Unidos podem anunciar já na próxima semana uma política para enfrentar a fraqueza do iene, informou a agência Kyodo News neste sábado.
Veja o que muda: Tesouro anuncia fim do aplicativo Tesouro Direto
Analistas que utilizaram dados oficiais e estimativas de corretoras calcularam que a intervenção das autoridades japonesas na quinta-feira provavelmente somou cerca de ¥8,45 trilhões (US$ 52,8 bilhões).
A intervenção do Tesouro americano para fortalecer o iene é a primeira desde 1998, quando Washington comprou a moeda japonesa para ajudar a impulsionar a economia do Japão após o iene ter caído ao menor nível em oito anos.
Os Estados Unidos também intervieram no mercado cambial japonês em 2011, mas naquela ocasião para enfraquecer o iene, como parte de um esforço coordenado internacional para evitar uma valorização excessiva da moeda após o terremoto e o tsunami de Tohoku.
Ainda ontem, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, publicou na rede social X que aguardava com expectativa o encontro com seu "velho amigo, o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda", durante a reunião dos ministros das Finanças do G20, marcada para agosto, na Carolina do Norte.
Bessent acrescentou que os dois países "continuam desfrutando de uma relação sólida e de estreita coordenação".
As movimentações ocorreram após o Banco do Japão (BoJ) manter sua taxa básica de juros em 1% na sexta-feira, decisão amplamente esperada pelo mercado.
Ueda afirmou que garantirá que o banco central não "fique para trás da curva" e que poderá acelerar o ritmo de alta dos juros, declaração acompanhada de perto pelos operadores do mercado de câmbio.
Modo ‘esfinge’ no Fed: comunicação vaga de Warsh no banco central dos EUA aumenta desconfiança de investidores
— Considerando que a inflação subjacente está se aproximando de nossa meta de estabilidade de preços de 2%, acreditamos que há uma necessidade maior do que antes de prestar atenção aos riscos de alta para a inflação — afirmou Ueda.
— Com essa avaliação em mente, pretendemos discutir cuidadosamente essas questões nas próximas reuniões de política monetária.
Segundo o mercado de derivativos, os investidores passaram a atribuir cerca de 40% de probabilidade a uma elevação de 0,25 ponto percentual na taxa de juros do BoJ em setembro, acima dos 30% registrados no início da semana.
Ueda tem sido alvo de críticas de investidores por não elevar os juros com maior rapidez.
Alguns alertam que o Banco do Japão corre o risco de perder credibilidade junto aos mercados financeiros caso demore a acelerar o aperto monetário.
Na quinta-feira, o Federal Reserve de Nova York realizou, em nome do Tesouro americano, uma chamada rate check sobre a taxa de câmbio dólar-iene, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Esse procedimento — em que o banco central consulta instituições financeiras sobre as cotações vigentes — costuma ser interpretado como um sinal preliminar de uma intervenção direta no mercado de câmbio.
O Fed de Nova York realizou procedimento semelhante em janeiro.
Com dívida pública acima de R$ 10 tri: Lula deve terminar terceiro mandato com déficit recorde
Temores dos investidores em relação à alta dos preços do petróleo e dúvidas sobre como a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pretende financiar seus planos de estímulo fiscal haviam levado recentemente o iene para perto do menor nível em 40 anos, ao redor de ¥164 por dólar.
Após o encerramento da entrevista coletiva de Ueda na sexta-feira, o iene voltou a se fortalecer rapidamente, passando a ser negociado abaixo de ¥159 por dólar, movimento que alimentou especulações de que o Ministério das Finanças do Japão havia voltado a intervir no mercado.
— Parece [mais uma intervenção], mas em escala menor — afirmou um banqueiro especializado em câmbio.
— Como vimos em episódios anteriores, eles costumam intervir mais de uma vez.
A intervenção de quinta-feira teria sido a primeira desde uma série de operações realizadas pelo governo japonês em abril e maio, quando foram gastos ¥11,7 trilhões para sustentar a moeda.
Desta vez, em parte graças à coordenação com os Estados Unidos, alguns analistas afirmaram que os ganhos do iene têm maior probabilidade de serem preservados, pelo menos no curto prazo.
Atsushi Mimura, vice-ministro das Finanças do Japão para assuntos internacionais, afirmou:
— Entendemos que estamos recebendo apoio das autoridades americanas que vai além de um simples respaldo moral.
Temos mantido contato constante com eles.
Osamu Takashima, estrategista de câmbio do Citigroup em Tóquio, disse considerar improvável que o iene volte a enfraquecer para ¥164 por dólar "no curtíssimo prazo", uma vez que os Estados Unidos parecem dispostos a ajudar o Japão a defender sua moeda.
Ele acrescentou que, como o mercado permanecerá atento à possibilidade de novas intervenções, "o potencial de alta do dólar frente ao iene provavelmente ficará limitado por enquanto".
Outros analistas, porém, afirmam que qualquer intervenção das autoridades japonesas terá dificuldade para oferecer suporte duradouro ao iene sem que haja também expectativa de juros mais elevados no Japão, especialmente porque o mercado espera amplamente que o Federal Reserve continue elevando as taxas de juros nos próximos meses, fortalecendo o dólar.
Um banqueiro na Ásia afirmou que clientes já estão testando o comprometimento do governo japonês, montando posições vendidas em iene com metas em torno de ¥162 por dólar.
EUA intervêm no mercado de câmbio japonês para fortalecer iene, diz FT
Fonte:
