Para a CNH, a volatilidade do campo não é uma anomalia, e sim a regra do jogo
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“O setor de agricultura, que é o nosso maior mercado, vive a maior crise dos últimos 15 anos, talvez 20.
A volatilidade está muito maior, praticamente a cada 30 dias nós vemos uma mudança.
Isso nunca tinha acontecido dessa forma”, afirma Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina.
“Ao mesmo tempo, acho que nunca passamos por um ciclo de baixa de maneira tão saudável.”
Na CNH, a turbulência no agro trouxe restrições, mas não se tornou um freio à inovação.
“Em vez de fazer simplesmente um enxugamento de gelo, um corte de custos, estamos desenvolvendo soluções que vão trazer ganho permanente de eficiência”, afirma Miotto.
“Quando o setor voltar a crescer, também vamos colher o fruto daquela melhora”.
Buscar aumento de eficiência na crise levou a CNH a decisões contraintuitivas, como, por exemplo, aumentar certos investimentos.
“Em um momento em que todo mundo reduz gastos com viagens e treinamentos, mandamos um grupo de dez pessoas da manufatura para a China, para a Índia, para o Leste Europeu”, diz o executivo.
O objetivo foi buscar, em empresas de outros setores e em países com menos fama no mapa da inovação industrial, ideias boas e com potencial aplicação por uma fabricante de máquinas agrícolas no Brasil.
“Seis meses depois dessas viagens, a gente inaugurou a primeira linha de solda com auxílio de cobots”, conta.
Rafael Miotto, presidente: a empresa se mantém pronta para aproveitar a retomada
Kachi Mozie/Divulgação
Os assistentes robóticos em implementação pela CNH no Brasil não têm a sofisticação dos robôs humanoides apresentados nos principais eventos de tecnologia do mundo.
Mas permitem ganhos de qualidade e produtividade a um custo relativamente baixo, numa linha de produção naturalmente desafiadora para a automação.
“Máquinas agrícolas são maiores, mais complexas e diversas do que automóveis, além de ter menor volume de produção”, diz o executivo.
“Em vez de buscar a automação total na solda de um componente grande, a gente criou assistentes robóticos para os nossos soldadores”.
No projeto-piloto da empresa, cada funcionário pode programar seu cobot.
A máquina cuida das atividades mais repetitivas, ou com maior necessidade de precisão, e o humano aproveita sua versatilidade.
Para frear mais cedo e reacelerar mais rápido, conforme as mudanças do mercado, a CNH está mudando seus métodos de planejamento de vendas e operações – o Sales and Operations Planning, ou S&OP.
“Decidimos eliminar planilhas preenchidas à mão e adotar modelos preditivos, com inteligência artificial, para reduzir inventários e melhorar o fluxo de caixa”, afirma Miotto.
“Precisamos trocar sistemas em áreas que estão rodando com demanda, como a produção de peças.” Atualizar processos e apertar parafusos com a máquina girando mais devagar, como agora, é bem melhor do que ser forçado a fazer isso em momentos de mercado aquecido.
Para a CNH, a volatilidade do campo não é uma anomalia, e sim a regra do jogo.
O agronegócio brasileiro está habituado a navegar entre a abundância e a escassez, e essa natureza ajuda a criar o hábito da inovação.
“Quando o mercado está muito bom, existe dinheiro abundante, caixa folgado, mas a pressão diminui.
A necessidade, que é a mãe das invenções, perde força”, afirma Miotto.
Na crise, o risco é outro.
“Se a empresa relaxa, perde o ritmo.
Agora, justamente agora, é o momento perfeito para inovação”.
As reuniões de liderança sempre têm dois assuntos: a entrega de hoje e o plano estratégico de amanhã.
“Foco, prioridade e execução no curto prazo garantem a saúde da empresa e os recursos para inovar.
Mas o trabalho para o que vai acontecer em dois, cinco ou dez anos é o que garante a continuidade do negócio”, afirma o presidente.
Essa rotina constante retira a inovação do campo das ideias solitárias e a transforma em um processo de curadoria e governança.
Uma das barreiras para inovar, diante de uma crise no mercado, é psicológica.
Entrar em modo sobrevivência e focar apenas no indispensável faz parte da natureza humana – e da cartilha, formal ou informal, vigente em muitas empresas.
Estimular a criatividade, diz Miotto, é obrigação da chefia.
“A liderança tem um papel forte em preservar a inovação, até para dar tranquilidade mental às pessoas”, afirma.
“Eu falo: tragam ideias para melhorar custos, competitividade, agressividade comercial, o que for.
Não se preocupem com o momento do mercado ou com a capacidade de investimento.
Recurso para inovação é um problema que eu e o time de finanças temos que resolver”.
Na verdade, não só.
Na CNH, desde 2018, recurso para inovação é um problema para o Comitê de Inovação.
As propostas são analisadas por um grupo de diretores, com dedicação parcial, e um líder de inovação, com dedicação integral e mandato de dois anos.
“As perguntas são simples.
A ideia é boa? Vai trazer retorno direto para aquela área de atuação? Dá para acomodar dentro das prioridades? Dá para acomodar no orçamento atual? Então vai em frente, executa”, diz Miotto.
O modelo de aprovação em comitês, diz o presidente, leva a empresa a avaliar prioridades permanentemente, em vez de esperar o próximo ciclo de planejamento.
“No passado, já perdemos boas oportunidades porque não cabiam no plano”, afirma Miotto.
“Temos um orçamento formal para inovação, mas é um negócio extremamente teórico.
A gente não sabe realmente de quanto vai precisar, porque as ideias vão surgindo todos os dias.
Tem ideia de mil reais e ideia de um milhão de dólares.”
Acelerar a aprovação de projetos é o efeito mais imediato do Comitê de Inovação, mas talvez o principal seja a criação de um ambiente favorável ao nascimento das ideias.
“Quando o líder de inovação encerra o mandato e volta para sua atividade original, ele é outra pessoa.
A mesma coisa acontece com os pontos focais de inovação em cada área.
Você vai colocando isso na corrente sanguínea da companhia”, diz Miotto.
Essa autonomia descentralizada transformou a unidade brasileira em referência para a corporação.
A CNH América Latina não apenas adapta tecnologias desenvolvidas no Hemisfério Norte, mas exporta metodologias e soluções.
Um exemplo prático dessa inversão de fluxo veio da área de serviços financeiros.
A equipe desenvolveu uma inteligência artificial para ler e interpretar documentos de clientes, apoiando decisões de crédito.
O resultado foi uma redução de 90% nos custos de processamento.
“O time global viu aquilo e disse: 'Nossa, tem alguma coisa diferente acontecendo aí'”, diz Miotto.
Da solda assistida por robôs à IA no crédito, passando por modelos preditivos de demanda, a CNH Brasil mostra que cortar custos com inovação não é um paradoxo.
Também mostra que é possível envolver a empresa inteira na busca por respostas.
“Por que nosso processo funciona?”, pergunta Miotto.
“Porque é simples”.
CNH mantém o esforço inovador, mesmo diante da crise no agronegócio
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