A Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) criou secretamente uma força-tarefa dedicada a Cuba, dando início a planos para uma campanha mais coordenada de pressão sobre o governo de Havana, a fim de levá-lo a promover as mudanças econômicas, políticas e de liderança exigidas pelo presidente americano, Donald Trump, segundo pessoas informadas sobre a iniciativa.
'O que estamos vivendo não é vida': Cuba começa a restaurar eletricidade após sexto apagão nacional, mas cortes persistem
Impacto direto: Cuba diz que mais de 70% de seus hotéis estão fechados devido às sanções dos EUA
A criação da força-tarefa permitiria que a agência direcionasse rapidamente mais recursos financeiros, humanos e tecnológicos para a ilha comunista, disseram essas fontes, acrescentando que a estrutura começou a incorporar oficiais de operações responsáveis por recrutar e administrar agentes, analistas de inteligência, especialistas em operações cibernéticas e agentes especializados em operações encobertas de influência.
Em 1960, a CIA criou uma força-tarefa para Cuba, cujos integrantes supervisionaram a fracassada invasão da ilha apoiada pela agência no ano seguinte, conhecida como a Invasão da Baía dos Porcos.
As pessoas informadas sobre a nova força-tarefa afirmaram que seu mandato é mais limitado: criar divisões dentro da elite política cubana, na esperança de pressionar os cubanos a substituir figuras consideradas antiamericanas e de linha-dura por líderes mais pragmáticos e mais receptivos às exigências de Trump.
A CIA se recusou a comentar.
— As intenções aqui não são nenhuma surpresa, já que Cuba há muito tempo é alvo dos esforços da CIA em espionagem, subversão e desestabilização, incluindo terrorismo — afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, em declaração ao The New York Times.
— Ainda assim, o Departamento de Estado tem a audácia de chamar Cuba de ameaça por exercer seu direito à legítima defesa.
Diferentemente da década de 1960, quando a força-tarefa anterior supervisionou o treinamento e o armamento de uma força parceira composta por cubanos que lançaram a invasão da Baía dos Porcos, a atual não conta com parceiros cubanos organizados.
Também não está autorizada a conduzir ou facilitar operações letais, embora uma força-tarefa da CIA, por sua natureza, disponha de flexível, e as autoridades sob as quais opera possam ser alteradas a qualquer momento pelo presidente.
Prioridade americana
A criação da força-tarefa demonstra até que ponto a agência está se preparando para o que poderá ser uma campanha clandestina prolongada contra um dos alvos mais difíceis que enfrenta há décadas.
A iniciativa da CIA coincide com um reforço dos esforços das agências de inteligência dos EUA para obter uma compreensão mais precisa da situação dentro de Cuba.
Todas as administrações definem suas prioridades de coleta de inteligência em um documento conhecido como Estrutura Nacional de Prioridades de Inteligência (NIPF, na sigla em inglês).
O governo Trump revisou esse documento recentemente, e classificou Cuba como uma prioridade de nível 1, ao lado de países como China, Irã e Rússia.
Em resposta, agências de inteligência dos EUA, incluindo a Agência de Segurança Nacional (NSA) e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA), entre outras, passaram a direcionar mais recursos de coleta de inteligência — incluindo satélites — para Cuba, segundo pessoas informadas sobre essas atividades.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio: as tarifas impostas pela Casa Branca não têm justificativa técnica, na avaliação do Planalto
Tierney L.
Cross/The New York Times
A inteligência obtida ajudará as Forças Armadas dos EUA a atualizar seus planos para uma eventual ação militar contra Cuba, caso Trump decida seguir esse caminho.
Antes desse reforço na coleta de informações, militares e agentes de inteligência americanos reclamavam de trabalhar com dados desatualizados.
As novas informações lhes darão uma compreensão mais precisa das intenções cubanas, de suas capacidades militares e de suas defesas.
Os integrantes da força-tarefa, por sua vez, examinarão detalhadamente as novas informações de inteligência em busca de dados internos sobre as atividades dos líderes cubanos e outros membros da elite política, concentrando-se especialmente no rastreamento de fluxos financeiros pouco transparentes e de negócios realizados dentro e fora da ilha.
A agência poderá, eventualmente, divulgar essas informações ao público na tentativa de influenciar a liderança cubana e a opinião pública, retomando uma estratégia que a CIA já utilizou contra outros adversários, incluindo a Rússia.
Ambiguidade
Ao longo dos anos, a CIA desempenhou um papel multifacetado em relação a Cuba: atuou tanto como serviço de espionagem conduzindo operações clandestinas contra o governo cubano, quanto como intermediária entre Washington e Havana, ocasionalmente.
Em 2015, no fim do segundo mandato do presidente Barack Obama, EUA e Cuba restabeleceram formalmente suas relações diplomáticas.
O então diretor da CIA, John Brennan, viajou a Havana para se reunir com Alejandro Castro, filho do presidente Raúl Castro, e com outras autoridades cubanas para discutir o fortalecimento da cooperação em inteligência entre os dois países.
Brennan considerava os serviços de inteligência cubanos os mais capacitados da América Latina e esperava cooperar com eles no combate aos cartéis de drogas e às redes terroristas.
No entanto, essas conversas logo perderam força, com ambos os lados se acusando mutuamente de não cumprir os compromissos de fortalecimento de confiança que haviam sido propostos.
John Ratcliffe, diretor da CIA, participa de uma reunião do gabinete de Donald Trump na Casa Branca
Doug Mills/The New York Times
Em maio deste ano, em meio ao aumento das tensões, Trump enviou seu diretor da CIA, John Ratcliffe, a Havana para se reunir com Raúl Rodríguez Castro, conhecido como "Raulito" ou "El Cangrejo" ("O Caranguejo"), neto de Raúl Castro.
A mensagem de Ratcliffe aos cubanos foi que a CIA os considerava adversários à altura e também possíveis parceiros no futuro.
Ao mesmo tempo, ele afirmou que Cuba estava ficando sem tempo para realizar as mudanças fundamentais exigidas por Trump, sugerindo que, caso o governo cubano não aproveitasse o momento, poderia acabar tendo o mesmo destino da Venezuela.
Expectativa recalibrada
A rapidez com que Trump teria conseguido derrubar um dos aliados mais próximos de Cuba — Nicolás Maduro, presidente da Venezuela — e assumir o controle dos recursos petrolíferos venezuelanos levou alguns dos assessores mais linha-dura do presidente a acreditar que o atual governo cubano poderia deixar o poder antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, previstas para novembro, segundo pessoas familiarizadas com os debates internos da administração.
Entretanto, apesar de um severo embargo ao petróleo imposto pelos EUA, os cubanos demonstraram grande capacidade de resistência, e a prolongada guerra de Trump contra o Irã consumiu os recursos e a atenção do governo.
Embora os assessores mais favoráveis a uma política dura contra Cuba ainda acreditem que, em algum momento, o governo destinará os recursos e a atenção necessários para derrubar o governo de Havana, eles agora reconhecem, em conversas reservadas, que isso provavelmente só ocorrerá depois que a guerra com o Irã chegar ao fim.
Durante grande parte da Guerra Fria, a CIA manteve uma estação relativamente pequena na Embaixada dos EUA em Havana, em parte porque a agência sabia que os serviços de inteligência cubanos eram extremamente eficientes na vigilância dos agentes americanos ali destacados.
Isso tornava extremamente difícil, quando não impossível, recrutar e manter contato com fontes de inteligência na ilha.
O interesse do governo dos Estados Unidos por Cuba diminuiu ao longo dos anos 2000, à medida que a CIA foi orientada a concentrar seus recursos financeiros, humanos e tecnológicos nas guerras do Iraque e do Afeganistão, bem como em outros locais considerados possíveis refúgios de grupos terroristas.
Posteriormente, durante o primeiro mandato de Trump, depois que vários agentes da CIA em Havana relataram ter sido afetados por uma doença misteriosa — que mais tarde ficou conhecida como Síndrome de Havana —, a agência encerrou completamente suas operações na ilha.
A estação da CIA em Havana foi restabelecida em 2024, no fim do governo de Joe Biden.
Ainda assim, os agentes destacados para a capital cubana continuaram enfrentando grandes dificuldades para atuar, pois permaneciam sob vigilância quase constante e tinham seus deslocamentos severamente restringidos.
