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Dúvida da semana 🤷♀️🤷
"Qual é a idade certa para dar um celular ao meu filho?"
Confesso que essa pergunta me atormenta cada vez mais.
Tenho uma filha de 8 anos que ainda não tem celular e, por aqui, a gente faz algo que parece cada vez mais raro: usa o telefone fixo.
É por ele que ela conversa com os amigos quando precisa e comigo, quando estou no trabalho.
Ao mesmo tempo, vivo hiperconectada.
Em casa, mesmo sem estar trabalhando, estou o dia inteiro com o celular na mão e, muitas vezes, ela reclama quando percebe que estou olhando para a tela em vez de prestar atenção no que está me contando.
Isso sempre me faz pensar que a discussão não é só sobre o momento de dar um smartphone para uma criança, mas também sobre o exemplo que nós, adultos, estamos dando.
Conversando com os especialistas desta semana, percebi que talvez a pergunta mais importante não seja "com que idade?", mas "para quê?".
Antes de entregar um smartphone, vale entender qual necessidade ele realmente vai atender e se não existem outras formas de resolvê-la.
Excesso de telas: Como reduzir o tempo de tela de crianças e adolescentes e evitar o vício em celulares e outros dispositivos
Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫
Mariana Uchoa, Cofundadora do Movimento Desconecta
📱 “Todo mundo da turma tem”.
Essa frase costuma ter muito peso sobre a decisão da família.
Ela aparece quando a criança pede um celular, quando começa a ir sozinha para algum lugar, quando entra em um grupo novo ou quando os pais precisam resolver uma questão prática de comunicação com o filho.
A resposta costuma vir no automático: compra-se um smartphone.
E com ele chegam redes sociais, vídeos, grupos, jogos, notificações e uma vida digital inteira no bolso.
👨👩👧 Cada família conhece a sua realidade, seus trajetos, suas necessidades e o temperamento de seus filhos.
Não há uma fórmula perfeita e exata.
Mas, quando falamos em dar celular a uma criança, é importante separar os fatores que podem nos orientar nessa decisão.
⚖️ Uma coisa é oferecer um meio de comunicação para falar com a família.
Outra é entregar um aparelho conectado à internet.
Outra, bem diferente, é colocar redes sociais disponíveis 24 horas por dia na mão de alguém que ainda está aprendendo a lidar com o próprio tempo, as próprias emoções e a opinião dos outros.
🎯 A melhor estratégia é uma transição gradual.
Não estamos propondo uma infância sem telas, sem internet ou desconectada da realidade.
As crianças já vivem em um mundo digital e precisam aprender a usá-lo.
O ponto é que o aprendizado pede tempo, presença e etapas.
O smartphone não deve ser o primeiro celular do seu filho.
Por isso, os especialistas defendem uma introdução progressiva da tecnologia.
Conectados: Quando posso deixar meu filho ter um perfil nas redes sociais?
☎️ Dos 0 aos 11 anos: Com poucas exceções, a maioria das crianças do Ensino Fundamental não precisa de um celular próprio.
O telefone fixo pode ser uma ótima opção de comunicação entre as crianças.
E ensina habilidades de comunicação ricas para o desenvolvimento social.
📞 Entre 12 e 14 anos: O primeiro celular básico.
Um aparelho simples, sem navegador de internet nem redes sociais ou WhatsApp, usado para falar com a família e os amigos mais próximos quando houver necessidade de comunicação.
O acesso à internet pode acontecer em dispositivos compartilhados, como o computador de casa, em momentos definidos e com acompanhamento.
É uma forma de apresentar a tecnologia sem entregar de uma vez tudo o que vem junto.
📲 Entre 14 e 16 anos: O smartphone monitorado.
Com controles parentais, limites de horário, regras sobre aplicativos e conversas frequentes sobre o que acontece online.
Não basta instalar uma ferramenta de controle e imaginar que ela resolve a questão.
É preciso falar sobre pressão estética, exposição, golpes, pornografia, cyberbullying, imagens íntimas, desafios perigosos e a sensação de que se deve responder imediatamente a qualquer mensagem.
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🎓 Depois dos 16 anos: Adolescentes mais velhos tendem a estar mais preparados para lidar com a complexidade da internet e das redes sociais.
Costumam ter mais repertório e mais condições de usar um smartphone com autonomia.
O diálogo segue presente, a vida digital continua exigindo conversa, confiança e, às vezes, intervenção dos adultos.
🤝 Um dos maiores desafios para adiar o primeiro smartphone é a pressão social, quando todos do grupo já têm.
Esse problema é evitado quando famílias de uma mesma escola, turma ou comunidade combinam de adiar juntas.
A comparação perde força e as crianças passam a conviver em um ambiente onde esperar mais tempo pelo primeiro smartphone se torna algo normal.
💙 Procure conversar com as famílias próximas do seu filho para juntos adiarem a entrega do primeiro smartphone e as redes sociais.
Quando as famílias se unem, a decisão fica mais fácil, tanto para os adultos quanto para as crianças e adolescentes.
Caso você já tenha entregado o celular, não se sinta culpado.
Apenas entenda que limites existem e precisam ser estabelecidos, alerta psicóloga
Magnific
Lilian Vendrame, Psicóloga, especialista em adolescentes e famílias, autora dos livros "Terapia de família com adolescentes" (Summus Editorial) e "O adolescente e a escolha da profissão" (Edições Paulinas)
🤔 Quando pensamos sobre qual é a idade certa para dar um celular a um filho, muitas questões entram em jogo.
A pergunta central é: qual é a necessidade, como pai ou mãe, de entregar um celular à criança? Se a resposta for "quero conversar com meu filho" ou "ter mais praticidade", existem outros meios para isso.
Se for "porque ele precisa se comunicar com os coleguinhas", também podemos encontrar outras formas.
Por isso, o mais importante é entender qual é, de fato, a necessidade de entregar um celular ao filho.
⚖️ Quando entregamos o celular, precisamos entender sobre limites e quais são as consequências do uso.
É preciso avaliar, por exemplo, o quanto a exposição à luz da tela durante a noite vai atrapalhar o sono.
Além disso, quanto tempo ele vai passar jogando ou nas redes sociais, deixando de brincar ou de se conectar presencialmente com outros colegas.
É preciso refletir sobre quais atividades ele vai perder por estar muito conectado.
🧠 Pensando em questões cerebrais, o córtex pré-frontal, que é responsável pelos limites e pelas relações interpessoais, está em pleno desenvolvimento dos 11 aos 24 anos.
Principalmente na pré-adolescência, período em que há mais dificuldade com limites, eu diria que uma idade interessante para entregar o celular seria aos 14 ou 15 anos.
Algumas pesquisas sugerem os 12 anos, fase em que já existe um pouco mais de maturidade.
Ainda assim, indico por volta dos 14 ou 15 anos, sempre com limites e sem uso desenfreado.
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👨👩👦 Não é que o adolescente não dê conta de ser responsável.
Justamente porque o córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos limites, ainda está em desenvolvimento, ele precisa de administração e supervisão dos adultos.
📲 Nós temos o hábito de entregar o celular muito cedo para eles jogarem.
Isso acaba fazendo com que o cérebro fique mais "preguiçoso", olhando apenas para um lugar.
Os estímulos da tela são muito mais rápidos do que os da vida presencial e podem criar uma necessidade de imediatismo, o que favorece o desenvolvimento da ansiedade.
🌳 O adolescente precisa de outras atividades que o tirem desse movimento de ficar fixo em uma tela.
Caminhar, jogar bola, fazer aulas de música, aprender um idioma e ter contato social ajudam a ampliar o olhar para o mundo e diminuem essa lógica do imediatismo.
🚦 Mas, caso você já tenha entregado o celular, não se sinta culpado.
Apenas entenda que limites existem e precisam ser estabelecidos.
Impor esses limites exige que o adulto esteja muito próximo e conectado ao adolescente, acompanhando o uso da tecnologia.
👤 Também considero importante olhar para cada filho.
Embora todos os adolescentes estejam passando pela mesma fase, cada indivíduo é único.
Alguns são mais impulsivos, outros menos.
É preciso analisar como esse celular vai chegar à vida dele, quais serão os efeitos e como a família vai ajudá-lo a lidar com isso.
💬 Também é importante conversar abertamente sobre o assunto.
Muitos adolescentes dizem que todos os colegas já têm celular, mas cada criança é única.
Os pais precisam entender o que o filho espera desse acesso e oferecer uma psicoeducação sobre os riscos das redes sociais, dando espaço para que ele também fale sobre seus medos, dúvidas e expectativas.
🎯 Por isso penso que os 15 anos são uma idade interessante, porque nessa fase muitos adolescentes já estão entendendo um pouco mais sobre si mesmos.
Mas isso varia de acordo com cada indivíduo e cada família.
É uma referência baseada no desenvolvimento, mas a maturidade de cada adolescente também precisa ser levada em consideração.
NO RADAR 👀
Os riscos da hiperconexão, por Alexandre Maduenho, psicanalista e autor do livro 'A Van – Adolescência em Fuga'
📱Quando falamos de hiperconexão, precisamos perguntar: esses jovens estão conectados a quê exatamente? Embora seja absolutamente necessário debater o tempo de tela, o início do acesso aos smartphones, às redes sociais e à radicalização algorítmica da internet, penso que o desafio contemporâneo também é preservar os espaços em que a linguagem ainda possa exercer sua função de elaboração e simbolização.
São essas capacidades que nos permitem nomear nossas experiências e encontrar sentido para aquilo que vivemos.
💬 O que se atrofia nesse processo acelerado é a experiência intersubjetiva, a conversa íntima, o uso saudável do outro como saída da limitação do próprio eu.
Isso acontece tanto no núcleo familiar quanto no convívio escolar e social.
Junto da pergunta sobre qual idade dar um celular, deveríamos perguntar como esse adolescente está engajado na própria vida, como vive suas relações e quais espaços reais de convivência ainda estão disponíveis para ele.
📲 O paradoxo é que hoje qualquer pessoa pode dizer que conversa com muito mais gente pelo WhatsApp do que conversava há alguns anos.
O que diminuiu não foi a quantidade das interações, mas sua qualidade elaborativa e simbólica.
Na maior parte das vezes, a hiperconexão não é com outras pessoas, mas com algoritmos.
E o algoritmo responde antes que o adolescente possa conviver com a própria pergunta, persegui-la e elaborá-la de forma criativa.
Discussão ética: Como usar controle parental nos smartphones dos filhos sem invadir sua privacidade?
🗣️ Atravessamos uma crise da linguagem, da palavra e do sentido.
O adolescente de hoje não sofre apenas com a perda de referenciais simbólicos, mas também com a dificuldade de transformar suas experiências em palavras que produzam sentido.
Nunca circulou tanta informação, mas boa parte dela nasce de dispositivos que produzem uma linguagem protética, um simulacro de conversação que imita a experiência humana, mas não a substitui.
⚡ Vivemos uma enxurrada incessante de mensagens, imagens e estímulos que alimentam muito mais a busca por satisfações imediatas do que a subjetividade e o desejo.
O psicanalista inglês W.
Bion dizia que, sem um outro capaz de receber e elaborar aquilo que sentimos, não há transformação emocional.
O feed, por sua vez, tende muito mais a produzir descarga do que elaboração.
👨👩👧 O problema é que esses mesmos adolescentes que precisam ser monitorados e acompanhados olham para o lado e vêem os próprios pais capturados pela mesma economia da atenção, submetidos à mesma lógica das plataformas.
Os adultos também são objeto dessa tecnologia.
❓Se conhecemos as recomendações, por que é tão difícil segui-las? Estamos prontos para revisar o lugar que essas tecnologias ocupam também nas nossas próprias vidas?
