Na última semana, a Quaest divulgou pesquisas realizadas para a Genial Investimentos em dez estados brasileiros.
Um dos destaques foi a intenção de voto para presidente em cada estado.
Os resultados permitem uma comparação particularmente útil: verificar se Lula está hoje acima ou abaixo do desempenho que obteve nesses mesmos estados no segundo turno de 2022.
Boa parte das análises publicadas, porém, incorreu em um erro de denominador.
Converteu as intenções de voto apuradas pela pesquisa em votos válidos e comparou esse resultado com os votos válidos da eleição passada.
A operação parece intuitiva, mas confronta grandezas diferentes.
Uma pesquisa eleitoral parte da pergunta: “Se a eleição fosse hoje, em quem o senhor ou a senhora votaria?”.
Ela é aplicada a uma amostra representativa de todos os eleitores aptos a votar: os que votarão em algum candidato, os que poderão votar em branco ou anular e também os que poderão se abster.
Esse é o universo ao qual seus percentuais se referem.
Os votos válidos, por sua vez, só existem depois da eleição.
Seu denominador exclui os eleitores que não compareceram, os votos brancos e os votos nulos.
Um candidato pode, portanto, ampliar sua participação entre os votos válidos sem receber um único voto adicional — basta que a abstenção ou os votos inválidos cresçam.
O percentual sobe porque o denominador encolheu.
Antonio Lavareda chamou atenção para esse problema durante a eleição de 2022.
Ao explicar como se deve interpretar os resultados de uma pesquisa depois de uma eleição, ele diz: uma estimativa produzida sobre o conjunto dos eleitores aptos deve ser comparada com um resultado calculado sobre esse mesmo conjunto.
Fazer o contrário equivaleria a avaliar a taxa de desemprego considerando apenas quem está empregado.
O problema não está nos números, mas na mudança silenciosa do universo observado.
Para comparar corretamente o desempenho atual de Lula com o de 2022, é preciso dividir o número de votos que ele recebeu no segundo turno pelo total de eleitores aptos em cada estado.
A primeira tabela do infográfico ao lado mostra esse resultado nos dez estados pesquisados.
É contra essa base que as intenções de voto atuais devem ser confrontadas.
Mas cuidado! A comparação não transforma a pesquisa em previsão do resultado final.
Ela apenas coloca os dois momentos na mesma unidade de medida — eleitor apto contra eleitor apto.
Esse esclarecimento importa, por exemplo, porque nos permite enxergar corretamente como o eleitorado total, que é pesquisado, se comportou no último pleito.
O melhor desempenho de Lula foi no Ceará.
Mas para saber se Lula está acima ou abaixo do seu próprio desempenho em 2022, a comparação das intenções de voto atuais não deve ser feita contra os quase 66% de votos válidos que ele obteve, mas contra os quase 56% do total de aptos a votar que votou nele.
Essa diferença vem do denominador, que ignora alienação eleitoral no primeiro caso, e a considera — como fazem as pesquisas — no segundo.
Feito esse ajuste metodológico, o quadro é claro.
Lula aparece hoje acima de seu desempenho de 2022 em oito dos dez estados.
Conforme a segunda tabela do infográfico, em Pernambuco, Lula obteve aproximadamente 52% de votos do eleitorado total, na pesquisa Quaest de julho, ele tem 6,1pp a mais de intenção de voto.
No Ceará, Lula aparece com 4,2pp de vantagem sobre seu próprio desempenho no segundo turno de 2022.
Mesmo em estados mais oposicionistas, como Goiás e São Paulo, o desempenho eleitoral estimado de Lula é melhor do que na última eleição: 3,3pp e 1,8pp, respectivamente.
Em Minas Gerais, Lula repete o patamar de desempenho eleitoral: 38% do eleitorado apto a votar.
Só no Paraná ele tem desempenho estadual comparativamente abaixo do que observamos em 2022: Lula tem 28% das intenções de voto, e teve 29,6% dos votos entre o total do eleitorado do estado.
Essa comparação revela algo muito interessante.
Se os percentuais atuais fossem aplicados ao eleitorado de 2022, Lula somaria cerca de 47,1 milhões de votos nesses dez estados, contra os 44,9 milhões que efetivamente recebeu — uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões.
Como esses estados concentram cerca de 75% do eleitorado das 27 unidades da federação, trata-se de um sinal relevante sobre a situação atual da disputa.
À primeira vista, o resultado parece sugerir enorme favoritismo de Lula.
Afinal, ele consegue mais intenções de voto hoje do que teve na eleição anterior.
Mas se Lula mantiver o mesmo número de votos de 2022 nos outros estados não pesquisados pela Quaest, isso significaria somar aproximadamente 62,3 milhões de votos este ano, quase 2 milhões de votos a mais do que na última eleição.
Não significaria, no entanto, aumentar seu percentual de votos totais, afinal, o denominador mudou.
Esses 62,3 milhões de eleitores que poderiam votar em Lula, se comparados aos 157,7 milhões que poderão comparecer às urnas para escolher um novo presidente, equivalem a 39% – o mesmo percentual que ele teve na última eleição (60,3 milhões de votos sobre 156,4 milhões aptos a votar).
Ou seja, as intenções de voto totais podem não se revelar em votos válidos porque o eleitor de Lula tem maior propensão histórica a deixar de votar.
Foi exatamente o que surpreendeu muita gente na eleição passada, quando as pesquisas registravam intenções de voto maiores do que as que Lula obteve nas urnas.
Sem descontar a abstenção da intenção de voto, Lula parecia que teria um desempenho acima do que se observou.
Este ano, mesmo com intenções de voto acima das observadas nas urnas em 2022 nesses 10 estados pesquisados, chama muita atenção o desânimo do eleitor com a continuidade de Lula — o que pode sinalizar para uma abstenção maior, mesmo com intenção de voto maior.
Quando perguntados se o presidente merece mais quatro anos de mandato, boa parte do eleitorado responde que não.
Só nos estados do Nordeste, Lula empolga.
Nos demais, a maioria não acha que Lula mereça continuar.
Um sinal de alerta muito grande para uma campanha que tem que projetar o futuro.
O exercício feito neste artigo ensina algo mais importante do que a vantagem ou desvantagem de um candidato.
Pesquisas não são fotografias defeituosas da eleição nem versões preliminares dos votos válidos.
Elas medem atitudes no universo completo dos eleitores, em determinado momento.
Entre a intenção declarada e a urna existem campanha, mudança de opinião, engajamento para comparecer e decisão pelo voto branco ou nulo.
Para compreender quais são os prováveis movimentos do eleitorado na reta final, analisar as opiniões dos indecisos e as expectativas de comparecimento são caminhos mais importantes para entender o resultado do que apenas as intenções de voto estimuladas.
É por isso que o denominador não é um detalhe técnico.
Ele define a pergunta que o número é capaz de responder.
Quando o denominador muda, muda também o significado do resultado.
Antes de concluir quem cresceu, quem caiu ou quem venceria, é preciso garantir que estamos comparando a mesma coisa.
Em pesquisa eleitoral, a precisão da análise começa pelo lugar mais básico: saber quem está dentro da conta.
* Professor da EESP-FGV e CEO da Quaest)
